segunda-feira, 15 de junho de 2009

Aldrabões


Os soldados continentais do destacamento militar iam partir. Tinham deixado bem marcada a sua presença na Maia, fogachos de amor postos em muitos corações a quem abalara o falar de gente fina, a quem persuadira a aparente convicção de promessas de que nenhuma se cumpriu. Raparigas houve que ficaram com mancha para toda a vida, mesmo algum filho nos braços, de riscos mais assumidos, mas outras desfizeram-se dos desgostos e das famas... porque, como dizia o “tio” João Carvalho em sentença brejeira sem certidão de origem, “Os abraços vão na roupa,/ os beijos a água lava,/ as falas o vento leva,/ fica a moça como era.”
“Mestre” Luís “Perneta”, sapateiro habilidoso apesar de obrigado à profissão por defeito de que lhe veio a alcunha, e língua de trestampar com requinte, recebeu encomenda de um sargento para fazer-lhe uns sapatos do coiro mais vistoso e com a forma mais perfeita que possível lhe fosse. Queria-os para o dia do embarque e para exibir na viagem.
A encomenda satisfez-se a tempo da partida e a gosto do solicitante. Os sapatos brilhavam, obra de aspecto bem acabado, dignos do brio de um militar de carreira. No velho cais de embarque, em Ponta Delgada, o destacamento esperou em vão a partida que não se fez nesse dia, porque veio temporal. A chuva desalinhava o aprumo das companhias, e não poupou os sapatos novos, e logo na estreia. Foi então que aconteceu o desastre… O negro da tinta foi-se diluindo, o coiro encolheu e dobrou-se todo, ganhando uma cor indefinida de tons de azul-escuro e de verde-azeitona, com uns laivos de amarelo duvidoso a insinuar-se também. Tinha sido enganado, o senhor sargento: aquela maciez flexível e aquele brilho lustroso eram aparência somente da qualidade requerida. Sentiu-se ridículo pela figura real e pelo abuso a que “mestre” Luís se atrevera.
No outro dia, entrou-lhe na tenda a espumar raivas de mil razões que resumiu neste berro: “Garoto! Aldrabão!” “Mestre” Luís empertigou-se na perna sã, apontou-lhe o dedo acusador com fúria igual à da afronta que lhe era feita, e defendeu-se de pronto no mesmo tom de falar: “Garoto e aldrabão é o senhor, que disse que se ia embora ontem e não foi!”

66 comentários:

Ibel disse...

Gosto destes quadros castiços e destas histórias tão verdadeiras, mesmo que sejam ficção.O que já não entra no domínio ficcional era a situação das moças incendiadas pelos"fogachos de amor", algumas realmente manchadas para o resto da vida. Que tempos tenebrosos!
Mas a «sentença brejeira» do "tio joão carvalho", essa fez-me rir, bem como a língua afiada do mestre Luís.

jv disse...

As condições atmosféricas foram realmente bastante adversas ao mestre Luís, que não lhe permitaram gozar e partilhar, como era seu costume, mais tarde, na sua plenitude, aquela pequena vingança.

Jose Augusto Soares disse...

Para muitas, era a única perspectiva que tinham de sair da Ilha. Só que...para muitos...era uma passagem efémera, sem regresso.
Posições antagónicas, sentimentos díspares.
No entanto, em ambas dominava o interesse. Mais, muito mais, que os ditos sentimentos.
No fundo, laivos de "colonialismo" em terras longínquas, que serviam igualmente de mote a muita "má língua".
Com ou sem temporais a adiarem partidas.

carmélio disse...

No meu caso, gostava de ver o par de botas feitas pelo Mestre Luís.
Minha mãe ficou grávida para mim por um menino da cidade. O pai deste falou com minha mãe para fazer um desmancho, o que ela não aceitou. Assim, ele mandou o filho para Lisboa ou para a puta que o pariu, deixando minha mãe de barriga grande e sem saber onde cair morta.
Querem saber o resto? Nasci sem pai e foi um cabo de Macieira de Lixa, a prestar serviço no BII18, que casou com minha mãe depois de eu ter 19 meses.

samuel disse...

Bela estória! Resposta genial! :-)))
O meu pai, ao que parece, dever ter-se comportado como um cavalheiro, já que depois de ter cumprido o seu tempo de 2ªGuerra em S. Miguel, como enfermeiro, teve "cara" para voltar pouco tempo depois, já casado... e missionário (essa é outra estória). O meu irmão mais velho nasceu nos Arrifes.

lia disse...

Samuel e Carmélio,

São mesmo verídicas as vossas histórias?

carmelio disse...

Lia,

E não acaba ali. Anos mais tarde, nos fins da década de 60 e princípio da de 70, eu e outras centenas de milicianos percorremos todos os quartéis e regiões do país..........imagina lá quantas noivas ficaram por casar (para que fosses nosso óh mar).
O que eu acho é que nada tem a ver se os soldados eram continentais ou não. Ainda se encontram vietnamitas à procura dos seus pais americanos e de americanos à procura dos seus filhos vietnamitas.
A escrita é uma arma muito poderosa e pode facilmente criar "mitos e fantasmas" num leitor mais despercebido.
Por outro lado, qual foi o motivo do sapateiro?

mar-ia disse...

Realmente, o que a escrita desperta! Desperta emoções e confissões. (E como é bom ver os homens irmanados nesta compreensão das vicissitudes da vida.
Fora sempre assim e não havia diferenças de género).
É o poder da escrita, Daniel, que sabe fazer de "botas" histórias com pés para andar e ficar...

lia disse...

Carmélio, carmélio!!!

E como é bom é ler tudo o que vocês dizem, não é, mar-ia?
O Daniel? Calado que nem um par de botas...

Mar de Bem disse...

Lembro-me de como gostava de ouvir o sotaque das mulheres dos marinheiros da "Rádio Naval". Eu achava que estes continentais eram tudo gente fina! Ah, ah, ah! Foi preciso passar tanto tempo lá fora em Lisboa, para perceber que, de finura, não tinham nada. Era gente das docas, dos bairros sociais, que chegava à Horta com a altivez de quem vem para uma terra menor. Tal e qual como os turistas continentais que se convencem ser melhores do que nós por cá. Agora já não nos ludibriamos. Temos os olhos mais abertos e... as ilhas já não são longe, nem estão longe. Era o que faltava!!! Nós somos ilhéus, mas não somos tolos!!!

Daniel disse...

Lia, estou deliciado com a conversa. O Carmélio já explicou o fundamental, e todos vocês fizeram florir este canteiro de amigos.
Com que então, Samuel, tens um irmão "corisco"! Gostei de saber.
A história de mestre Luís "Perneta" é real. Com as pilhérias que ele fez, e as de mestre Jaime "Caneta", outro sapateiro, escrevia-se um livro. Este chegou a fazer uns sapatos para um rato e passeou-o à trela pelo Carnaval. De uma outra vez, o homem mais rico da Maia mandou um empregado perguntar se estavam prontos e quanto custara o conserto de uns sapatos. Ele disse que eram 12$00. O empegado foi dar a resposta ao patrão, e voltou com o recado de que era caro. Disse mestre Jaime: "Ai, é caro? Catorze patacas!" Recado para cima, empregado para baixo. Muito caro, pior ainda, claro. "Ai, catorze escudos é caro?... Dezasseis patacas!" Para baixo e para cima ia o pobre empregado, só o preço subia sempre a escudo cada sapato. Atingidos os 20$00, o patrão deu ao empregado 22#00 e disse que trouxesse os sapatos, que mestre Jaime ainda lhe punha um preço que não podia pagar. (Mestre Jaime acabara de fazer sozinho a sua pequena revolução do proletariado.)

jv disse...

Daniel, o homem conhecia bem o sentido de humor do mestre Jaime e entrou no seu jogo.As revoluções nunca foram permitidas muito menos as do proletariado apesar da irreverência e talvez por isso mesmo do mestre Jaime, que em muitos casos como no do sr padre Miguel ele não tinha receio de usar a linguagem mais vernácula(aquela que tens dificuldade de usar em literatura) diante de ninguém.

samuel disse...

Lia,

É rigorosamente verdade. O meu pai foi um dos fundadores em Portugal, da "Assembleia de Deus Pentecostal", Igreja em que militei até aos 14 anos... e de onde saí com estrondo, dado ser filho do pastor.
Depois de servir na guerra, como contei, o meu pai teve a "inspiração" de que a coisa certa a fazer era voltar para S. Miguel e, do nada, fundar ali uma igreja protestante, nos idos de 1946.

Daniel disse...

Mar de Bem
Olha que aqueles que mestre Luís ludibriou muitas vezes eram, na sua absoluta maioria, açorianos... Como aconteceu com uma perua que um tio do JV, Manuel, lhe pediu para enterrar a troco de um quartilho de vinho. (Ele enganou foi outros, com a perua morta, não o Sr. Manuel Valério.)
JV
Talvez tenhas razão.
Samuel
Terá sido o teu pai que fundou a igreja protestante da Lomba de S. Pedro, limite oriental do meu concelho da Ribeira Grande?

LIA disse...

Este blog cada vez é mais surpreendente.
Tenham um bom-dia, amigos! Vou vigiar exames nacionais.Tudo para bem da nação e da cultura deste país...

carmélio disse...

Lia,

Já não se pode dizer uma mentira?!
Mas essa de a "bem da nação" trouxe-me à memória uma alergia que tive noutros tempos.
Forçaaaaaaa!!!!!!

samuel disse...

Daniel,

Isso já eu não sei de todo. Sei que moraram nos Arrifes. Talvez a primeira congregação tenha sido lá...

Abraço.

carmélio disse...

Lia,
"foram simples inventos necessários à ficção e não tinham nem têm qualquer correspondência na vida real." José Saramago no seu caderno, a 17 de Junho de 2009.

Daniel disse...

Carmélio
Vê lá se mentes menos vezes, então, para não nos confundires. A bem da nação. (Olha, antes do 25 de Abril, como sabes, todos os ofícios deveriam acabar com isso mesmo: "A bem da Nação". Ora eu entendia que comunicar uma falta, por exemplo, não era um acto a bem da Nação. Muito cedo deixei de usar essa fórmula obrigatória. E para todos os ofícios. Nunca me foi devolvido nenhum. Depois, veio o "A bem da República". Nunca o usei, tão-pouco. Depois veio "Com os melhores cumprimentos". Eu cumprimentava como me apetecia. Nunca me incomodaram, nem no tempo do Salazar nem pelos outros adiante.
Samuel
Vou verificar a origem do protestantismo na Lomba de S. Pedro. É uma comunidade que vive sem problemas com a maioria católica. A Misericórdia aqui da Maia, que tem uma acção que se estende por toda esta zona, é a única em Portugal cujos estatutos prevêem a participação de crentes de qualquer igreja cristã, inclusive em cargos de direcção. E com aprovação episcopal. Fiz parte dos corpos sociais que redigiram esses estatutos.

carmélio disse...

Daniel,

Onde eu trabalhava, já tínhamos em papel timbrado, "Tudo Pela Nação; Nada Contra a Nação"
Interessante essa história da igreja protestante na Lomba. Incrível como fui criado e "educado" a odiar qualquer religião ou grupo religioso a não ser a católica.

Marques Paz disse...

"Fiz parte dos corpos sociais que redigiram esses estatutos."
Presunção e água benta...

Lá longe disse...

Caro Daniel e comentadores do Espólio.
É como interesse e alegria que tenho seguido o seu blogue, e agradeço os momentos de boa leitura que me tem proporcionado na blogosfera.
Quanto à questão da Igreja Protestante da Lomba de São Pedro, é de denominação Prebiteriana, também conhecida por igreja dos Ingleses pois foi fundada por este, penso que no tempo da laranja, quando várias famílias inglesas vieram para S.Miguel, fundando a Igreja Presbitiana, e penso que a Casa de Oração também foi fundada por ingleses, mas não tenho a certeza, sei que tiveram Pastores Ingleses.Quanto à igreja, cujo pai do Samuel é de denominação Pentecostal, uma denominação mais recente tanto a nível da sua fundação como da sua implantação em São Miguel.
Um abraço e obrigada pelos seus magnificos textos .

lia disse...

ó carmélio, isso é lá história que se invente, seu malandro.Mas que isto está divertido, lá isso está.E tudo por causa de um par de botas.Olha se o Daniel se lembra de contar outros enredos...
Vai ser lindo, vai...

Daniel disse...

Carmélio
A igrejinha da minha infância e primeiros anos de juventude foi a capela de Nossa Senhora do Ar, no Aerporto, em Santa Maria. Já não a apanhei na fase em que todos os cultos (Protestente -creio que presbiteriano, judeu e católico) lá se praticavam, mas foi assim que começou a servir, sem nenhum símbolo que a identificasse.
Mesmo de "Lá Longe" apareceu aqui uma informação importante. Obviamente que fiz confusão. O pai do Samuel é o Pastor José Lopes Quedas, pentecostal.
Creio, no entanto, que só nos finais da II Guerra Mundial o culto da Presbiteriana chegou à Lomba de S. Pedro. Mas vou tentar informar-me melhor.

jv disse...

Caro Marques Paz, eu não sei o que quer dizer com a sua frase da «presunção e água benta».
Mas gostaria de realçar que qualquer estatuto, fosse lá do que fosse, ou outras coisas do género, e foram muitas, que tiveram a participação do Daniel só ganharam com isto, porque o que ele acrescentou áquilo que era o mais comum, foi sempre qualidade, e ao mesmo preço, que foi sempre a sua disponibilidade para servir os outros.
Não sei se conhece, bem o Daniel, pois eu tive a sorte, desde adolescente, de conviver de muito perto com ele e seus familiares e isto reflectiu-s muito positivamente naquilo que sou hoje, pela sua forma exemplar de cidadão.
Vou-lhe dar um exemplo, que me marcou, como uma lição de vida, das muitas que dele recebi, que eu assisti pessoalmente, quando jovem, que prova que a sua cidadania e dever cívico se encontra acima de qualquer suspeita, «de presunção e de água benta».
O Daniel tinha concorrido por uma lista, à Junta da sua Freguesia e na campanha, não foi «bem tratado» por alguém duma outra lista oponente que acabou por vencer as eleições.
Eu tinha participado na campanha e não gostei que o tivessm tratado assim, porque ele não o merecia.
Poucos dias depois ao entrar na casa dele, espaço que habitualmente frequentava, perguntei à Alice, sua esposa, por ele, ao que ela um bocado transtornada, me respondeu;
-Vês, depois do que lhe chamaram, está ali a elaborar ofícios e documentação para enviar a entidades a pedido da Junta de Freguesia.
Ao questioná-lo, respondeu-me simplesmente, que a Maia estava acima daquilo tudo.
Aí eu percebi o que era, verdadeiramente cidania.
Espero que compreenda esta minha reacção ao seu comentário, pela injustiça do mesmo,que só pode ser possível por não o conhecer muito bem.

samuel disse...

Daniel,
Bela pesquisa! Nome completo e tudo...
Dentro de muito poucos segundos já saberás mais do que eu sobre a permanência dos meus pais em S. Miguel, o que, convenhamos, não será de estranhar. Eu não sei nada! :-)))

Abraço.

mar-ia disse...

...ora se estas "botas" deram origem a tantas coisas, desde a ficção, a outras verdadeiramente interessantes, mormente sobre a existência de outros cultos em S. Miguel, e a propósito deles e das regras de civilidade e de convívio entre pares, lanço aqui ao debate uma questão, a de saber se será correcto usar a denominação em toponimicos de "nossa", como por exemplo Nossa Senhora da Conceição/ Nossa Senhora de Fátima (freguesia)?
Nunca tinha pensado nisso, mas uma amiga minha, filha de Pastor Baptista, (que tomou idêntica atitude à do Samuel), dizia que a avó, que vivia numa rua com a designação de Nossa Senhora de Fátima, militantemente se indignava e retirava sempre que podia o uso do possessivo, quando referenciava a sua morada!
Lembro que recentemente a freguesia da Conceição em Angra, passou à denominação de Nossa Senhora da Conceição.
Se não for a debate, pode ser que o Daniel retire do seu baú alguma coisa de mestre Perneta, que lançe outros.
Vou ao sono, que se não é vosso, é meu...
e vos deixo com "os melhores cumprimentos". Talvez oficialmente, cumprimentos, fosse o suficiente

Daniel disse...

JV
Obrigado.
Samuel
Gosto de saber alguma coisa acerca dos amigos.
Mar-ia
Há que distinguir entre as designações antigas e as modernas. O próprio conceito teológico de "Senhora da Conceiçao" não pertence ao domínio do protestantismo. E penso que não podemos pensar em todas as minorias ou maiorias e fazer-lhes o gosto. Eu não teria qualquer problema em escrever um endereço que fosse, por exemplo, Rua Martinho Lutero. A Misericórdia da Maia tem uma capela mortuária que pode servir eventualmente para algum irmão protestante da Lomba de S. Pedro. Quando se a construiu, pensou pôr-se um quadro de Nossa Senhora das Misericórdias. Mas o provedor perguntou a opinião a um protestante (Daniel Camilo de Oliveira), que fazia parte da direcção, e ele respondeu que não havia qualquer problema.
Claro que há que ter uma justificação para dar nomes a ruas. Na Assembleia Municipal da Ribeira Grande escandalizei alguns por me opor ao nome de João Paulo II proposto para uma rua daquela cidade. Não esperavam isso de mim, como católico. Mas eu expliquei que, pelo facto de sermos maioritariamente católicos, não teríamos de dar o nome de João Paulo II, que muito amdirei, a uma rua em cada povoação portuguesa. Teria de haver uma justificação forte. Para piorar, na mesma ocasião mostrei-me contra o nome de um industrial, compadre do Américo Tomás, para um fim semelhante.

Mar-ia disse...

Daniel
Uma coisa é o uso, e porventura algum "abuso" que decorre muitas vezes de boas intenções, que convoca ao uso de simbologias religiosas para coisas civis, outra, é o de avaliar o respeito pelas pessoas, que ou não tendo militância religiosa, ou a tê-la, a seguem de forma diversificada. Ora o "Nossa" Senhora da Conceição, ou "Nossa" Senhora de Fátima, é de quem? Nossa, obviamente é dos católicos e só deles.
Era essa a questão que colocava em concreto.

Daniel disse...

Mar-ia
Tens e não tens razão...Explico, minha querida amiga. "Nossa" é um adjectivo possessivo que deixou de ter exclusivamente esse sentido de posse para passar a fazer parte do próprio nome. Por isso é comum escrever "Nossa Sehora" e não "nossa Senhora". Portanto, "Nossa Senhora" é, segundo a gramática do nosso tempo, uma locução substantiva.

Mar de Bem disse...

Boa, nosso Daniel!!!

jv disse...

Daniel, pela explicação que dás, parece-me que se deveria simplesmente chamar, substantivo próprio,como na gramática «antiga» embora perceba, que locução subsantiva seja perfeitamente aceitável.
Eu estou completamente,desactualizado na gramática do nosso tempo, aliás só há pouco tempo, soube o que era um oração completiva, pois só conhecia o termo integrante.

jv disse...

Desculpa lá, fazer parte do nome não é a mesma coisa que ser o nome?

Anónimo disse...

JV
Provavelmente tens razão. E digo "provavelmente" porque, embora haja quem use a mesma classificação que eu usei, o Ciber Dúvidas diz que há locuções adjectivas, adverbiais, etc., e substantivas não.
Podes verificar isso mesmo numa consulta ao Google.
Desculpa, bem como quem mais eu tenha induzido em erro, a minha falha.
Um abraço.
Daniel

carmélio disse...

Se bem percebo, a Mar-ia não levantou uma questão gramatical, mas sim de religião única; ou talvez de exclusão e rebeldia sócio-religiosa.
Pelo que li acima, "Nossa" é o primeiro nome da santinha, "Senhora" é o segundo e "Fátima" é o último nome, de família.
(Julgo que quem inventou este nome nunca imaginou que um século depois ele fosse uma questão na rede electrónica)

Cris disse...

Daniel e amigos
É maravilhosa a interação que anda ocorrendo no Espólio.
Uma luz com pares.
Um espaço para ser.
Uma rede eletrônica sem vozes metálicas.
A voz de Daniel encanta e provoca emoções esquecidas no cotidiano. Consciente ele devolve o tom. No tempo certo, como a construção de uma sonata.
E a emoção baila e sobrevive a falta da fala olhando nos olhos, e as palavras até parecem desconhecer essa necessidade humana.
Revela-se nesse espaço o exercício dos grandes escritores, almas sem rosto, derramadas em palavras carregadas de personalidade.
Grande Daniel, parabéns por cativar tão bons amigos e por iluminar nossos dias.
Beijos

Daniel disse...

Não esperava que “O Espólio” viesse a ter discussões teológicas, muito menos a partir das botas de mestre Luís de Sousa, “Perneta”.
Carmélio, a tua ironia justifica uma explicação. Há quem considere o termo “Senhora” como um acto de idolatria, pois isso seria fazer a Virgem igual a Deus (Senhor). Ora não se trata de nada disso. “Senhor” é a tradução possível do hebraico “Adonai”, e “Senhora” não é, neste caso, o feminino daquela palavra. Tem o significado apenas de mulher. Os franceses e os italianos, por exemplo, têm esse problema resolvido com Notre-Dame e Madonna, enquanto que a nossa língua não deu para mais.
Outra questão relacionada com Fátima. O chamado milagre do Sol foi um fenómeno meteorológico raríssimo, mas natural. Nem o melhor meteorologista consegue prevê-lo um minuto que seja antes, pelo que se torna difícil ou impossível de compreender como foi que as crianças anunciaram, com dias de antecedência, que algo absolutamente extraordinário iria acontecer na Cova da Iria, que eles não sabiam o que seria. E o que aconteceu foi uma repentina mudança de densidade nas camadas do ar, o que provocou reflexões de luz de efeitos espantosos. Devido à diferença de comprimento de onda das cores do espectro, aquelas sofreram refracções como se de repente gigantescos prismas de Newton se tivessem interposto no seu caminho.

carmélio disse...

Daniel,

Acabaste de explicar a razão de "Senhora" e "Fátima", mas a questão que a Mar-ia colocou foi de "Nossa". Qual é a razão/origem de "Nossa"? Por é que é "Nossa" e não "Vossa"?

samuel disse...

Se é para ser "possessivo", então prefiro o brasileiríssimo "Minha Nossa Senhora!" (resulta melhor com sotaque) :-)))

Daniel disse...

Carmélio
Aí há de facto uma influência de "Nosso" Senhor. Trata-se de uma adaptação popular que depois passou à Igreja Católica em geral. Aliás, os dogmas referentes a Maria não foram mais do que a aceitação pelo Papa de tradições seculares. Por exemplo, em Arronches a igreja paroquial é dedicada a Nossa Senhora da Assunção, invocação que vem desde o século XII, enquanto que o dogma só foi definido em 1950.
Samuel
Também gosto muito dessa forma brasileira. Nela o "Nossa" perde o sentido de possessivo, transferindo-o para o "minha".
(Por coincidência, a próxima história, que talvez apareça aqui logo à noite, intitula-se "O senhor de tudo".)

carmélio disse...

Então se passou à Igreja Católica, "será correcto usar a denominação em toponimicos de "nossa", como por exemplo Nossa Senhora da Conceição/ Nossa Senhora de Fátima (freguesia)?" como perguntava a Mar-ia?
Será que temos aqui uma questão de separação entre igreja/estado?

Ibel disse...

Ai, valha-me Nossa Senhora, que o Daniel sabe tudo!!!!
Cris, no Brasil qual é a "Nossa" mais poderosa?

Daniel disse...

Carmélio
Em Portugal é que há esses pruridos de separação entre Igreja e Estado que mais parecem, por vezes, uma marginalização pura e simples. Repara que, por exemplo na Alemanha, o Parlamento abre com uma sessão ecuménica na Catedral de Berlim. Eu não gostaria de morar numa rua que se chamasse Sá Carneiro, mas, se me calhasse, paciência. Além disso, as freguesias tomaram, depois da reforma de Passos Manuel, o nome das paróquias, e ele nem sequer era um homem religioso. Quer dizer que os nomes já cá estavam e ninguém se preocupava com isso. Agora é que tanto se quer ter cuidado de agradar a todos que se cometem disparates como dizer "portugueses e portuguesas" (em gramática o masculino vale pelos dois géneros, só devendo especificar-se ambos quando for um caso de dúvida) ou chamar género ao sexo, apesar de género ser linguagem gramatical. (Com esta não sei quem é que não se quer ofender...)
Ibel
Não exageres, por favor.
Abraços.

carmélio disse...

Tudo muito bem, mas ainda não sei quem são os possuidores da "Senhora".

Cris disse...

Lia minha flor
Minha Nossa Senhora e agora???
Por aqui temos muitas Nossas Senhoras.
Mas, creio que Nossa Senhora Aparecida seja a mais popular em todo território brasileiro.
Entretanto, temos algo interessante: “Nossa Senhora do Brasil”. O pouco que sei é que existem alguns registros de que a imagem era venerada pelos índios de Pernambuco (nordeste brasileiro) e que um Frei devoto a remeteu a um convento em Nápoles (secretamente), a fim de protegê-la dos ataques as igrejas na época, das profanações, lá foi recebida com honras e batizada com o nome de: "Madonna del Brasile"
A imagem foi esculpida em madeira, representando a Virgem com feições indígenas, tendo no colo um menino mestiço. A representação da mistura das três raças.O culto a Nossa Senhora do Brasil ainda não é muito conhecido a nível nacional. Concentra-se no Rio de Janeiro onde há a Paróquia da Urca, e São Paulo onde há a paróquia do Jardim América.
beijos.
Ps.José Augusto Soares agradeço a visita em Pasárgada,e as ternas palavras.Beijos.

Cris disse...

Meu Nosso Daniel
O Mestre Luís por acaso não confeccionava chapéu?
Estou aqui pensando, se com as botas nos levou tão longe cobrindo os pés, o que não faria se abrigasse aquele compartimento onde nascem as idéias, nenhuma fronteira resistiria.
Beijos meu querido.

Daniel disse...

Carmélio
Ó homem, deixa-te lá de rodeios. Ela é "nossa" para quem quer que ela assim seja. Como "senhora" sê-lo-á dos mesmos. Mas Maria não é chamada "Nossa Senhora" em nenhuma oração "oficial" da Igreja. Já disse que isto é uma forma tipicamente portuguesa e espanhola.
Cristina
Belíssima lição!
Não sei se mestre Luís chamava por Nossa Senhora ou pelo Santíssimo Sacramento quando estava de carraspana. Mas deve estar a divertir-se imenso.
A invocação da Virgem de que mais gosto, tal como a imagemm que lhe corresponde, é a de Nuestra Señora de la Esperanza Macarena (morena). De Sevilha, claro.

lia disse...

Eu adoro dançar a Macarena(morena).
Dancei-a em Maillorca, sobre a praia, com o mar à frente e a lua a espelhar-se na água.Lindo, minha nossa... senhora!!!
Cris, há uma música lindíssima( não me recordo quem a canta) sobre Nossa Senhora da Aparecida.Até arrepia.Penso que é cantada pela Maria Betânia.Ora investiga, por favor.

Daniel disse...

Lia
A essa até eu respondo. É uma das minhas canções preferidas. Canta-a (cantava-a...) a Elis Regina, e chama-se "Romaria". Aqui tens a letra.
É de sonho e de pó
O destino de um só
Feito eu perdido
Em pensamentos
Sobre o meu cavalo

É de laço e de nó
De jibeira o jiló
Dessa vida
Cumprida a só

Sou caipira, pirapora
Nossa Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida (2x)

O meu pai foi peão
Minha mãe solidão
Meus irmãos
Perderam-se na vida
À custa de aventuras

Descasei, joguei
Investi, desisti
Se há sorte
Eu não sei, nunca vi

Sou caipira, Pirapora
Nossa Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida (2x)

Me disseram, porém
Que eu viesse aqui
Prá pedir de
Romaria e prece
Paz nos desaventos

Como eu não sei rezar
Só queria mostrar
Meu olhar, meu olhar
Meu olhar

Sou caipira, pirapora
Nossa Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida (2x)

carmélio disse...

http://www.youtube.com/watch?v=eOZh0zpZolw

lia disse...

Daniel e Carmélio, vocês puseram-me a chorar.Eu tinha saudades desta música e desta letra. Como me pude esquecer da Elis Regina, do melhor que houve/há?
Obrigada.

Cris disse...

Daniel
Será difícil colocar um ponto final na história de Nossa Senhora.
Cabra qundo chegou por aqui trazia consigo a imgem d Nossa Senhora de Esperança.
Sua referência é fantástica e não poderia ser diferente,para uma alma de historiador.Sempre nos remete ao princípio.Isso é muito bom.
Penso que A Nossa Senhora Brasileira tenha sido eculpida repleta de significados educativos e estratégias evangelizadoras.
E asim Nossa Senhora da Esprança passou a espelhar um outro povo...

Eduarda disse...

Grandes dissertações!
«Minha Nossa Senhora!»-(do Sameiro)digo eu agora.
Das botas de Mestre Luís até «Nossa Senhora»,chamando a «Romaria» de Elis Regina(Lia!!!),com direito a relembrar a letra-(só o Daniel)-,«minha nossa»!
Sabes,Daniel,fizeste-me recuar aos anos 80.Cantávamos muito a «Romaria» e vi-me,aqui,de novo,a relembrar esses tempos (que não esqueço)e a cantá-la de novo,com a imagem da Elis a passar diante de mim.Que voz,que mulher!
Obrigada,amigos!
Daniel,queres ajudar-me a corrigir 45 provas de exame de Português 12º? Que sete dias me esperam!
Beijos

Mar de Bem disse...

Força, Dica!!!

Daniel disse...

Dica, pede à Nossa Senhora da Cristina e recebe também um grito meu de "força!"

mar-ia disse...

nossa!!!
De (re)provações, gostos e sabores, nos vamos completando... senhora(e)s, portuguese(a)s e brasileira(o)s!!!
Cada uns com suas provas nos vamos empurrando.
Até que o mui nobre Senhor Daniel nos ature.

Daniel disse...

Mar-ia
É um prazer grande e uma grande honra a vossa companhia. De todos.
À vossa disposição,
Daniel

Eduarda disse...

Obrigada pela «Força».Bem preciso dela.
Mar-ia,o Daniel não nos atura.Sabes/sabemos que não.
Beijos

CS disse...

E uma gargalhada brotou sem pedir licença.

Mar de Bem disse...

Menino, que bom! Gargalhar é bom!?!

"E uma gargalhada brotou sem pedir licença." - até que "tá" bonito, mas não foi bonito.

Quando se entra em casa de alguém, Menino, é necessário um certo respeito, um certo decoro. Você não está a comportar-se. Seja mais delicado. Mostre ser bem educado.

Minha Mãe dizia: "se nada de bom tens para dizer, é melhor que te cales". Aqui está uma coisa que a "finura" de Vexa, não enxerga. E não enxerga porque Vexa só vê e pensa a uma dimensão. Nem enxerga outras formas de sentir e pensar.

Você consegue ter amigos?

jv disse...

Nem a gargalhada, nem a estupidez.
A gargalhada parece copiada mas a estupidez, não engana de tão natural.

Mar de Bem disse...

"… O negro da tinta foi-se diluindo, o coiro encolheu e dobrou-se todo..."

A tinta e/ou o verniz, isto é qualquer acabamento, sendo de má qualidade, não permanece, nada faz, não existe!
E aí, a verdade ou a realidade do material exposto na sua verdadeira dimensão de inacabado ou de somenos qualidade, poderá redundar em fiasco, para quem tenha olhos de ver.
Normalmente, a realidade exposta é tão singela que qualquer olho menos habilitado tem a capacidade de a enxergar. O mais interessante é, quando se quer ludibriar com argúcia, revestir todo e qualquer conteúdo com uma fina camada brilhantemente acabada, de molde a que o elemento reverbatório possa tornar-se grandiloquente aos olhos dos que pensam que vêem, mas não sabem que não vêem.
Isto sim, é o supremo gozo!!!

Cid Simões disse...

“Garoto! Aldrabão!” “Mestre” Luís empertigou-se na perna sã, apontou-lhe o dedo acusador com fúria igual à da afronta que lhe era feita, e defendeu-se de pronto no mesmo tom de falar: “Garoto e aldrabão é o senhor, que disse que se ia embora ontem e não foi!”

Ri, ri a bom rir. Recuso-me a perder o sentido de humor, chamem-lhe o que chamar.

jv disse...

Caro CS, peço deslculpa por aquilo que afirmei, julguei ser outra pessoa, a autora do comentário, que não usando a inteligência,por a não ter, usa aquilo que tem, a sua estupidez natural para tentar aparecer aqui no blogue.
No seu caso, depois de devidamente enquadrado, nota-se que a gargalhada deve ter brotato realmente, sem pedir licença, pois a sua causa, a justifica muito bem.

Mar de Bem disse...

TÃO ENGRAÇADOS QUE ELES SÃO!!! E RIEM-SE SÒZINHOS!!! (mas só isso, porque Deus não os dotou de mais nada!)

Aguentem mais 8 dias, que vou ao Pico e já volto. Cá vos espero, que isto está ficar interessante!

Rui Vasco Neto disse...

meus amigos,
que bem que se está nesta ilha, para mais cheia de ilhéus... conversa da boa, informações preciosas, troca de galhardetes, pulinhos ao passado e, de base, os textos únicos deste Sá irresistível! Ah, grande Daniel! Abraço-te com um tão grande que lá cabem quase todos, Sam, jv, cris e os demais que valem a pena.
vivó espólio, pois então!!!