domingo, 8 de Novembro de 2009

Isaac, a vítima perfeita

(Não pretendo transformar este espaço numa catequese bíblica ou algo que se lhe pareça. Deixo, no entanto, mais esta breve reflexão que pode ajudar a compreender a diferença entre o real e o narrado na Bíblia. E isto sem prejuízo de a história de Abraão e Isaac não ser mais do que uma mera parábola acerca da Fé, o que é a hipótese mais provável.)

Muito crescia o respeito de Abraão pelo Deus que adorava. De Quem ele percebera um dia a declaração de que era o Deus supremo. E terá chegado um momento em que se convenceu de que eram muitos mais os favores que ele e o seu povo haviam recebido de Deus do que aquilo que faziam para Sua maior glória. Era certo que também Lhe prestavam culto e ofereciam sacrifícios. Seria isso suficiente? E se não fosse?... E se Deus julgasse que não recebia de Abraão e da sua casa e do seu povo a veneração que merecia? Que não Lhe eram gratos como deviam por tantos benefícios – pelo sol e pela chuva, pelos pastos e pela saúde, pelos filhos e pelos netos?

Os outros povos sacrificavam aos seus deuses de maneiras variadas. Mas havia um sacrifício acima de todos os sacrifícios. Aquele que decerto amoleceria até o coração mais duro do mais inflexível de todos os deuses. Era o sacrifício de um próprio filho. Abraão pensou que Deus lhe exigia esse limite imenso do sofrimento. Como prova de amor, como pedido de auxílio e de clemência para si e para os pecados do seu povo. Daria desta forma testemunho máximo não apenas desse seu amor, mas também da sua fé. E que seria da sua descendência, que Deus prometera mais difícil de contar do que a areia do mar?... Talvez lhe viesse por Ismael, que Sara quisera ver expulso, com Agar, sua mãe, para que ele não herdasse um quinhão igual ao do filho das suas entranhas.

Abraão chamou Isaac para o acompanhar até aos montes de Moriá. Iria ali oferecer um sacrifício ao Senhor. O menino estranha que levem fogo e lenha mas nenhuma vítima para ser sacrificada. Abraão disfarça como pode a falta da vítima e a dor infinita que lhe esmaga o coração. Decerto que durante toda a caminhada se debate a respeito de aquela ser a vontade de Deus. Se fosse possível, seria ele mesmo que se ofereceria em sacrifício. Pelo bem do seu povo.

Já está pronto o altar para o holocausto. Depois disso, só restarão as cinzas de Isaac. Abraão contempla o filho vivo pela última vez. Dói-lhe mais a visão do cutelo do que se este lhe trespassasse a própria garganta. Então percebe uma voz interior que o manda suster o gesto que seria o último que Isaac veria na sua curta vida. E dá pela presença de um carneiro ali perto, que ficara preso num silvado. Esta vítima bastará ao Senhor. Que não quer nunca sacrifícios humanos. Num momento em que a fé de alguns israelitas se deixará cair na tentação da idolatria, Deus o dirá assim pela boca do profeta Jeremias: “Encheram este lugar com sangue de inocentes, e levantaram o lugar alto a Baal, para, em honra dele, queimarem os seus filhos em holocaustos, coisa que jamais prescrevi, nem falei, nem me veio ao pensamento.”

domingo, 1 de Novembro de 2009

Abraão

Deserto de Wadi Rum (fotografia retirada de AtlasTours.Net)

Os Hebreus. “Homens poeirentos”, o que talvez seja o significado irónico da palavra com que eram conhecidos. Caminhavam no pó, surgiam do meio dele, desapareciam entre nuvens de poeira. Nómadas, não tinham morada certa. A sua casa era uma tenda, a sua pátria era o deserto. Como outros povos que ainda não tinham encontrado um pedaço de terra que pudesse ser seu. Onde crescesse erva em abundância e a água jorrasse em permanência. Onde pudessem semear umas lentilhas ou uns grãos de trigo. Homens sem pátria, sem casa e sem Deus. Talvez prestassem culto aos deuses dos altares que encontravam no seu caminho de vagabundos.

Um povo sem deuses seus, sem um ao menos, era um povo incompleto. Como uma família sem pai ou sem mãe. Poderiam fazer um ídolo. Mas com que nome? Com que poderes? Para os proteger de quê e em quê, se de tanto eram necessitados? E seria mais um empecilho a transportar nas longas jornadas. De qualquer modo, saberiam sempre que ele teria sido fabricado pelas suas próprias mãos, que teria sido uma invenção sua. E compreendiam que a imaginação não faz a realidade.

Mas um dia, ou ao longo de vários dias, ou até durante anos sucessivos, por palavras ouvidas ou apenas no íntimo da sua mente, Abraão percebeu que alguém se lhe revelava. Alguém que se dizia o seu Deus e o Deus do seu povo. Um Deus sem imagem física, que nem sequer tinha um nome nem um rosto. Que caminharia com ele e com o seu povo, que estaria sempre com eles.

Os Hebreus foram-se afeiçoando a esse Deus desconhecido. Dele só sabiam que era o seu, e isso lhes bastava. Já eram, agora, uma família completa. Os outros povos talvez continuassem a escarnecer deles, mais ainda do que antes, por estarem convencidos de que tinham um Deus que não precisava de corpo nem de feições.

Deus tivera o cuidado de não dizer muito de Si mesmo. Nem sequer que era o único. Porque Abraão, e sobretudo a sua gente, dificilmente acreditariam nisso. Vivendo entre povos que prestavam culto a muitos deuses, ninguém poderia imaginar que afinal nenhum deles fosse verdadeiro, e que o único era aquele que Abraão dizia ter-lhe falado. Um Deus menor, sem dúvida, como menor era o povo que o proclamava seu.

A fé de Abraão foi aumentando. E a sua confiança tornou-se ilimitada quando Deus cumpriu a promessa de Sara, sua mulher, lhe dar um filho apesar da idade já muito avançada. Ela chegara a compadecer-se tanto do marido que até lhe oferecera Agar, sua escrava egípcia, para nela gerar descendência.

Entretanto, Abraão já percorrera um longo caminho. Partindo de Ur, sua terra natal, e tendo passado por Babilónia e Mari, chegara a Haran. E fora aqui, onde, tal como em Ur, se adorava a mesma deusa que habitava a Lua, que começara a receber a revelação divina. Depois seguira para sul, porque Canaã era o seu destino. Terá passado por Karkemish, Alepo e Damasco, fixando-se em Siquém. Mais tarde, em tempo de uma grande fome, procurou refúgio no Egipto, que era o sonho de todos os famintos por causa da abundância de colheitas que cresciam nos aluviões do Nilo.

Quando regressou do Egipto, montou as suas tendas perto dos carvalhos de Mambré, junto ao Hebron. E aí ergueu um altar ao Senhor, como antes fizera num monte a oriente de Betel. Um altar vazio. E já então Melquisedec, sacerdote e rei de Salém, celebrara com pão e vinho uma vitória de Abraão contra os inimigos que tinham feito prisioneiro seu sobrinho Lot. E saudara o patriarca dizendo: “Bendito seja Abraão pelo Deus Altíssimo que criou os Céus e a Terra.”

Abraão terá percebido que o seu Deus de algum modo também se ia revelando à inteligência de outros homens de boa vontade. O Deus que lhe manifestara a existência e prometera a protecção do seu povo era, afinal, Senhor de toda a humanidade.

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

Caim e Abel, uma história universal

Caim e Abel (Simon Vouet e Pietro Novelli, 1620)


Os rios Tigre e Eufrates haviam formado a ubérrima planície da Mesopotâmia. E aí se fez Babilónia, uma das primeiras e mais importantes cidades da história humana. No início do século VI a. C., Nabucodonosor atacara Jerusalém, destruíra o Templo e levara prisioneiros muitos milhares de judeus. E foi durante esse doloroso cativeiro, que só haveria de terminar com a libertação de Ciro, em 538 a. C., que grande parte da Bíblia foi composta. O Génesis, que recolhe muitas histórias e mitos do Médio Oriente, foi um dos livros que se escreveram na cidade opressora.


Babilónia representava para os judeus a incarnação do mal. E fora a agricultura a tornar possível a vida sedentária e a criação de cidades. Estas aparecerão em vários momentos do Antigo Testamento como lugares de perdição. Sodoma, Gomorra e Nínive são dos exemplos mais conhecidos. E a própria Jerusalém será com frequência amaldiçoada por profetas que desse modo a acusavam dos pecados que o povo de Deus tantas vezes cometeu.


Em oposição ao mal urbano, estava a vida livre, isolada e vagabunda dos pastores. E os Hebreus haviam sido um povo essencialmente dedicado à pastorícia. É deste contraste que nasce a história de Caim e Abel. O agricultor Caim mata o irmão, pastor, levado em parte pelos ciúmes que sentiu por causa de Deus não ter aceitado o sacrifício que Lhe oferecera. Mas, segundo o autor bíblico, Deus não recebeu a oferenda com agrado porque conhecia o íntimo de Caim, propenso ao pecado. De tal maneira que, depois de fugir da sua terra e dos remorsos do seu crime, ele haveria de fundar uma cidade, precursora de todas as Babilónias do Mundo. Caim é, de certo modo, a incarnação dos babilónios criminosos, e Abel a vítima inocente em quem o autor retrata o seu próprio povo.


Este é o fundamento moral da história de Caim e Abel. Um mito que dura há milhares de anos, e que, embora de um modo inconsciente, Hollywood contou inúmeras vezes nos seus filmes do género “western”. A diferença é que o herói que vem de longe, das imensas pradarias, para fazer justiça na cidade dominada pelo mal, triunfa quase invariavelmente. Ao contrário de Abel. Que fica também como símbolo de que todos os assassínios e todas guerras são fratricidas, porque todos os homens são irmãos.


É curioso o aparente paradoxo de Caim ter fundado uma cidade, apesar de viver nesse mundo bíblico em que só existiriam Adão, Eva e ele mesmo. Os autores do Antigo Testamento mostram-se, com frequência, pouco preocupados com questões lógicas, o que é a melhor indicação do carácter simbólico dos seus escritos. Pouco depois deste episódio de crime fratricida, é-nos apresentada uma fantasiosa genealogia de Adão até Abraão. O que é uma forma de afirmar o povo hebreu como descendente do primeiro casal humano, que, tal como consta em outros mitos do Médio Oriente, fora formado do barro pelas mãos do próprio Deus.

quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

Saramago, a Bíbilia e a minha opinião

Cristo de São João da Cruz, 1951 (Salvador Dalí)


A primeira vez que li Saramago foi no Levantado do Chão. Desde Quando os Lobos Uivam que não tinha havido outro romance português que me fascinasse tanto. Depois, veio o Memorial do Convento, e aí encontrei algumas das mais belas páginas de sempre da literatura portuguesa. Foram-se seguindo outros livros, mas nenhum voltou a entusiasmar-me tanto como aqueles.


Só arranjei tempo para O Evangelho Segundo Jesus Cristo muito depois da polémica gerada à sua volta. Não me impressionou em termos religiosos, sendo quase nulo como investigação histórica. E levei todo o livro até encontrar uma frase literariamente genial: “Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez.” Pouco, para um autor de quem tinha passado a esperar sempre do melhor que pudesse ser escrito em Português ou em qualquer outra língua, e cujo estilo já me parecera um tanto ou quanto cansado em O Ano da Morte de Ricardo Reis. Há anos que não o leio. Não duvido de que tenha perdido alguma boa obra, mas o tempo não dá para tudo e o mundo está cheio de boa literatura.


A propósito de Caim, Pilar, sua mulher, disse que o leitor, no final, sentir-se-á como se tivesse sido apunhalado no estômago. Ora não me apetece ser apunhalado. Nem mesmo literariamente. Para histórias negras, que nos amarfanham a alma, basta a realidade. Não é necessário reinventá-la em coisas como o Ensaio Sobre a Cegueira, por exemplo. Do qual poderia dizer-se, também, que é um manual de maus costumes. Nunca recuei na leitura de livros tétricos, pungentes, mas reais. Ainda que me tenha ficado para toda a vida o sabor amaríssimo do Diário, de Anne Frank, ou da Esperança, de Malraux.


Quanto às declarações de Saramago a respeito da Bíblia, ele pode dizer o que quiser. Mas tem de aceitar que quem julga que ele está errado o diga frontalmente. A liberdade de expressão não é só para dizer, é também para contradizer.


A Bíblia não é um livro, é um conjunto deles. É a literatura e a história de um povo. E também a história da sua fé. Escritos sem preconceitos nem vontade de agradar a ninguém. Há, nos autores bíblicos, uma liberdade de expressão que qualquer amante da liberdade deveria admirar. Porque eles se revoltam contra o poder real abusivo ou contra os ricos à volta dos quais nada medra. Chegam a revoltar-se, até, contra o próprio Deus. E apenas contam a verdade ou aquilo que entendiam como tal. Cheios de imprecisões históricas, geográficas e teológicas. Nenhum deles é um livro de ciência, embora a visão do Mundo segundo a ciência daquele tempo também lá caiba. Quando se acreditava, por exemplo, que havia um oceano superior, inesgotável, de onde vinha toda a água da chuva, e por isso capaz de provocar uma inundação que chegasse a cobrir as mais altas montanhas. Ou que o Sol andava à volta da Terra, ideia que permaneceu durante mais dois milénios. Contra o próprio Galileu poderia ter sido usado um dos seus livros, o Tratado da Esfera, em que ele ainda seguia Ptolomeu.


Na Bíblia, que não é um tratado de Teologia, a imagem de Deus reflecte a necessidade de um povo. Por isso umas vezes Ele é visto como a infinita misericórdia, e outras como um vingador absoluto. Porque os filhos de Israel precisavam de sentir a esperança para o perdão dos seus pecados ou a crença num libertador. E, para os costumes de então, tal como para a realidade de hoje, só um exército mais forte podia vencer a força de um opressor. Ao longo dos séculos em que a Bíblia foi escrita, os Hebreus nunca fizeram uma guerra de conquista. Foram apenas vítimas das maiores sevícias, cativeiros e destruições que nesses tempos aconteceram.

sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

Umas eleições de há mais de um século

Relógio da Igreja do Divino Espírito Santo, Maia (fotografia de Sérgio Lourenço)

O senhor Melo Nunes deixou nome numa rua e memória de ser rico e sabido. Não foi avaro de nada do que teve, fez bem, como entendeu e pôde, a pobres e ignorantes. Como o tempo lhe sobrava e saber tinha o bastante para isso, andou toda a vida metido em política, progressista estreme, único guardião influente do seu partido na zona inteira dos Fenais ao Porto. Foi presidente vitalício da assembleia de voto que funcionava na Maia, aonde vinham votar também os eleitores dos Fenais da Ajuda, Lomba da Maia e Porto Formoso.

Por umas eleições, disse-lhe o governador civil, progressista como ele, que era preciso ganhar na Maia. “Mas como?!...” lamentava Melo Nunes. O padre do Porto Formoso era regenerador; os Câmaras, da Lomba da Maia, igual; os Bettencourt, dos Fenais da Ajuda, iam, interessadamente, pelos mesmos caminhos. Que fazer?... Nem que tenha de anular as eleições…” alvitrou, como recomendação, o governador. Havia de ver-se…

No dia das eleições, oito horas certas, Melo Nunes abriu a assembleia e preparou-se para nomear os restantes membros da mesa. Chamou parece que o regedor dos Fenais da Ajuda para um dos cargos, e ele logo disse que não podia, era incompatível. Melo Nunes sabia-o bem, mas folheou demoradamente o livro dos regulamentos, até que lhe pareceu que era de mais, “encontrou” a lei. “Tem razão, sim senhor.” Entretanto, combinação feita com o padre e o sacristão, dera de olhos a este que disfarçadamente foi adiantar uns minutos ao relógio da igreja. Fez nomeações de incompatibilidades sucessivas, procurou sempre do mesmo modo o artigo de lei respectivo, o sacristão foi sempre, igualmente, viciando as horas do relógio da igreja, o único que marcava o tempo para todos os presentes.

Última nomeação feita, o incompatível a protestar: “O senhor sabe que não posso fazer parte da mesa!” E Melo Nunes, avisado de que o relógio chegara às nove: “E os senhores sabem que, passada uma hora, se não está composta a mesa não há eleições.”

E não houve. Mas, quando os rivais perceberam o logro, quase o matavam, com o padre do Porto Formoso a esgrimir a bengala no comando dos descontentes.

A Melo Nunes tiveram os amigos leais de guardar-lhe a casa durante três dias.
(Do livro Sobre a Verdade das Coisas, esgotado)

quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

O teu nome Calie

Sabes daquele teu retrato que eu costumo dizer que é o dos olhos grandes? O poema para ele, que me daria direito pleno de figurar numa galeria de poetas, tentei-o começando assim:

“A perfeição, quase:

A beleza exausta de tanto o ser.”

Numa tarde de muito sol, em Santa Maria, para as bandas da Flor da Rosa, avistei de longe um homem a trabalhar, do outro lado de um daqueles insólitos e fundos barrancos com que a ilha tantas vezes nos surpreende, numa quinta onde eu sabia que havia dióspiros. Olhei com a força de um desejo infantil que nunca passou fome mas raramente tinha dessas carícias no paladar. E aconteceu o que eu não imaginara que pudesse suceder: o homem chamou-me com um gesto como quem ordena, corri até à beira do muro, e ele deu-me uns dois ou três frutos maduros, deliciosos, um milagre de doce frescura na aridez da paisagem e da minha gulodice.

Santana vista das proximidades do Clube Asas do Atlântico (Fotografia de Ana Loura)

Que tem isto que ver contigo?... Tem que eras, no tempo em que te chamei Calie pela primeira vez, um fruto ainda por amadurecer. Eu teria de enfrentar muitos barrancos antes de te me ofereceres, numa longa jornada que me parece um destino traçado por Alguém que sabe mais do que nós. Fui um Pêro de Alenquer que desconhecia por que rotas se ia à Índia mas lá chegou porque os ventos de uma monção favorável e de favor o conduziram, de cabo a cabo e de porto em porto, até às margens seguras de Calie.

Na primeira ocasião em que reparei em ti eras uma criança ainda. Sabia lá os rumos que as nossas vidas haveriam de percorrer! Eras linda e prometias sê-lo cada vez mais. Além disso, sabia-te inteligente, aluna com média de dezasseis no Liceu. E eu lembrava-me do que sempre me custara passar a barreira dos doze em todas as disciplinas, para ter direito a quadro de honra no Externato de Santa Maria. Nos quatro anos que por lá andei, consegui-o em seis períodos, algumas vezes com uma bênção condescendente na Matemática e no Desenho. Nem imaginas a alegria que isso me dava e o desalento em que os outros seis me deixaram. Daí para cima, quero dizer trepar pela pauta até um catorze ou um quinze, era coisa rara e só podia acontecer em História ou Geografia, em Português ou mesmo Física.

Procurai descobrir a personagem (fotografia de Laudalino Pacheco, Julho de 1974)

Pensarás então, talvez, que gostei de ti porque tinhas uma cara bonita e um corpo airoso... Não, meu Amor, não foi só por isso. Mas, como disse um poeta popular que eu inventei – e toma-o como se fosse eu a dizê-lo de ti –: “Os olhos amam primeiro,/ O coração vê depois.” E o meu, quando pôde ver, gostou do que viu.

(Do tal livro em longa preparação A Longa Jornada Até Calie)

quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

Os junquilhos de Monserrate


(Meio século depois, a árvore crescera muito, mas ainda havia junquilhos no mesmo lugar. Foto Pepe)


Não me confundo na ilusão de claramente ter visto num Natal o que vi  porque muito desejava ver. Sei como o sonho entra livremente pela verdade dentro, naquela idade em que a fronteira entre a imaginação e os olhos não tem fiscais. Mas nesse Natal eu vi. Terá sido o dos meus quatro anos, e o Menino acabara de deixar junto à lareira um pequeno Dakota de plástico, em cujas asas haveria de voar todas as distâncias. Olhei pela chaminé ainda a tempo de um vislumbre de maravilha: a sua perninha esquerda, rechonchuda como a de um ingénuo Murillo, escapava-se rapidamente, na pressa de atender outras crianças. Ninguém foi capaz de me dizer que era mentira. E ainda hoje, apesar de saber que não podia ter visto nada mais do que as paredes negras da chaminé, tenho na memória, nítida como a das coisas mais reais, a forma e a cor exactas dessa imagem fugaz.


Mas, quando comprei um pião ao Leonardo por cinquenta centavos – valor que ele me fiou, fiando-me eu em que meu Pai mo daria –, aconteceram coincidências que ainda me parecem demasiadas para não terem resultado daquele acaso de que alguém disse ser o nome que às vezes damos a Deus. Tão outros tempos eram esses que meio escudo, para uma criança, era uma pequena fortuna. E mesmo para os adultos, que nem sempre o tinham. Por isso não te admires de eu ter receado não arranjar com que pagasse ao Leonardo. 


Quando meu Pai me deu o dinheiro, guardei-o na algibeira, sabendo que podiam passar-se vários dias, mesmo semanas, sem que encontrasse o meu credor, um amigo que eu raramente via. Fui à cantina do Aeroporto fazer compras e, já perto da capela de Nossa Senhora do Ar, dei com um mendigo da Vila sentado no murinho de protecção do aqueduto que atravessava a estrada vindo da mata da Secretaria. Não hesitei um segundo na intenção de lhe fazer esmola com a tal minha pequena fortuna que, na verdade, nem sequer me pertencia. E o curioso é que eu tive a certeza de que o problema criado por tão espontânea boa vontade se haveria de resolver... Não sei porquê, nem sei esperando o quê, mas tive-a. Se fosse meu feitio jurar, jurava isto por ti, Calie.


Ao passar na casa desse santo que foi o padre Artur, a irmã, que estava em roupa imprópria para sair à rua, pediu-me para lhe comprar uma caixa de fósforos, que custava quarenta centavos, na cantina, que era do outro lado do caminho. Trinta, trinta e cinco passos não apressados, talvez, de porta a porta. E deu-me, como recompensa pelo insignificante favor, exactamente cinquenta centavos, que era o dinheiro branco mais pequenino e que sempre gostávamos de ter, pelo menos esse, para deitar na bandeja quando se beijava o Menino no fim da Missa do Galo. Em outras circunstâncias provavelmente teria recusado, e não me lembro de ninguém me ter dado nunca uns dez centavos sequer por um recado, durante os treze anos que vivi na Ilha-Mãe. Regressei a casa pelo caminho menos habitual, que era o mais longo antes da sucessão de atalhos que levavam a Santana, e que normalmente só escolhia quando ia pedir o Cavaleiro Andante ao José Guilherme. Contra as minhas expectativas, porque não era habitual vê-lo por essas bandas, encontrei o Leonardo e paguei a dívida.


Menor importância terá tido para mim um outro caso, mas que pode até ser de mais poética ingenuidade. Numa tarde de vinte e quatro de Dezembro, entrei na capela e vi que ainda ninguém tinha trazido flores para enfeitar o altar. Disse à irmã do padre Artur que sabia onde encontrar daqueles junquilhos amarelos que cheiram mesmo a Natal, e fui a correr para a mata de Monserrate, porque tinha visto uma moitazinha deles em frente da ermida. Que desilusão, meu Amor... Não havia nem um. E sabes o que fiz? Ajoelhei-me a rezar à porta de Nossa Senhora para que alguém encontrasse flores e as fosse levar para a festa do nascimento do Seu Filho. Quando voltei, havia já, ao lado do altar, um braçado de junquilhos mais ou menos como o que eu pensara poder trazer de Monserrate.


(Os junquilhos de Monserrate seriam para o altar que havia no lugar deste, antes do incêndio que destruiu a capela de Nossa Senhora do Ar. Fotografia de Ana Loura)


Não penses que recordo estas coisas como actos de bondade ou de uma fé admirável e simples, a fé dos pequeninos, que eu mesmo tenha praticado. Foi há tanto tempo, que essa criança inspira-me mais ternura que saudade. Vejo-a como se não fosse eu, acompanho-a nestas recordações como se a seguisse de perto ou estivesse parado atrás dela. Neste preciso momento acabo de voltar da mata de Monserrate sem lhe ter visto a cara. Mas reconheço, Calie, que se alguma coisa boa ficou em mim foi porque dela aprendi. E se é certo, meu Amor, que terei o cuidado de dizer-te o mais possível coisas boas, não é para que pareça a teus olhos que fui sempre um puro, mas para que o penses do mundo onde vivi, porque a literatura já tem demasiadas páginas cheias com o mais feio que há em nós. Mas, se em algum momento imaginares que andei triste – e talvez seja verdade – lembra-te de que esta história tem um final feliz.


(Ficou linda, a ermida, mas os meus junquilhos não voltarão a florir. Fotografia de Ana Loura)


(De A Longa Jornada Até Calie, em preparação)