quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Ahmed Ben Kassin (3)



A minha amada

Quando penso na minha amada:

Os seios da minha amada são como duas romãs maduras;
O seu cabelo tem perfume de alfazema;
Os seus lábios são da cor do açafrão
E a sua boca tem o sabor do damasco;
Os seus olhos são como pedras preciosas
E a sua pele como o oiro da mesquita de Abd-Al-Rahman.

Quando surge a minha amada:

A visão da minha amada é a minha alegria;
As formas do seu corpo, a minha delícia;
O seu amor, a minha felicidade.

Quando estou junto da minha amada:

Nada é comparável à minha amada.

No jardim

A minha amada cantava
Entre as flores do seu horto.
Vinha no canto o perfume dos goivos e do jasmim,
A sua voz trazia a fragrância das rosas e dos cravos.
Parei a escutá-la,
Sem saber se deveria abreviar-lhe o canto,
Correndo para os seus braços,
Ou se melhor seria continuar ouvindo
A música do Paraíso.
Demorei-me um breve instante apenas,
E, quando entrei no jardim,
Ela, triste, perguntou-me
Por que tardara tanto.


Como é breve a vida!

A minha amada
Faz-me a vida mais curta.
Junto dela,
Todo o tempo é breve.

7 comentários:

teresamaremar disse...

Também Salomão venerava as afrodisíacas romãs e com elas decorou as suas colunas em hino à mulher.
Levar-te-ia e introduzir-te-ia em casa de minha mãe, e tu me ensinarias. Eu te daria a beber vinho aromático e mosto das minhas romãs. Salomão. Cantares 8:2

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“A minha amada
Faz-me a vida mais curta.
Junto dela,
Todo o tempo é breve.”

:) proverbial.

Mas que importa se juntos o tempo é breve, quando na memória se alonga até ao fecho dos dias?!
O grande senhor da vida não é, de todo, nem somente, oponente. Ao invés, consente artifícios de ilusão… sendo breve nos instantes vividos, demorado é na perspectiva do sabor da chegada e no rememorar.
O Presente é o mais necessário, mas o mais efémero. Já a antecipação é prazer buliçoso e a lembrança deleite de bonança. E assim, no perpétuo ritual dos ciclos, entre nós e o tempo faz-se um ajuste soluto.

Eduarda disse...

A descrição sensual e onírica d'«A minha amada» consegue trazer-nos à proa os sentidos (essência em nós),as sensações tantas vezes perdidas ou em viagem peregrina até Ben Kassin...

LIA disse...

Daniel

O meu lirismo resume-se a uma banalidade que se estende à Teresamaremar: Lindo!

O abraço de sempre.

Hoje acordei cheia de sol e a memória dos mortos lava-me a alma.
Hoje sou a Lia, "Som de veludo de vela e de véu". Lembras-te?

Gizelda disse...

Boa noite,Daniel...

Cheguei à sua casa, após conhecer um texto imperdível escrito por você e postado no Facebook pela Maria Isabel Fidalgo.

Sempre soube que a Literatura Portuguesa é impar, e conhecê-lo , hoje, só ratifica o que eu sabia.

Voltarei aqui com mais calma, quero saborear mais e melhor seus textos .

Um abraço.

Anónimo disse...

Teresa Mar e (a)mar
Continuo um privilegiado. Não só por este seu comentário, mas pelos outros tambémm que se lhe seguem. Por curiosa coincidência, o próximo poema que penso "traduzir" fala precisamente do efémero que parece eterno.
Eduarda, como sempre leste os meus textos para além deles mesmos!
Se me lembro, Lia, se me lembro! E conheceste-me num jogo semelhante a este, em que às tantas não sabias quem era quem! Sou melhor fingidor que poeta, seu sei.
Gizelda, que bom mais esta visita trazida pela mão (eu deveria dizer coração) da Isabel! Um dos poetas que já tentei imitar foi o Carlos Drummond de Andrade. Num poema que anda aí pela Net, "A Borboleta Negra". Sinto-me feliz com a sua presença. Mais uma preciosidade a juntar às outros cujo privilégio gozo.
Abraços.
Daniel

samuel disse...

Perante o encantamento destes versos mágicos, não posso deixar de pensar no inferno em que os descendentes, deste e dos outros poetas, foram capazes de transformar uma tão fantástica cultura...

Abraço.

Anónimo disse...

Samuel
Absolutamente de acordo, e muito pesaroso por aquilo em que se transformou a esplêndida cultura islâmica ibérica. Os descendentes daquela gente são menos cultos, em valor absoluto, que os que tanto enobreceram Córdova, Granada, Silves... E infinitamente menos civilizados.
Quanto aos filhos e netos deste poeta, são do melhor que há. Acredita.
Um abraço.
Daniel