sábado, 16 de janeiro de 2010

Um tremor de terra na Maia

Craig Mello e família na igreja do Divino Espírito Santo, Maia
(fotografia gentilmente cedida por Veraçor)

Ninguém tem memória de mortos ou feridos na freguesia por causa de terramotos, e há muros velhos com décadas ou séculos, casas feitas de pedras pequenas, muitas trazidas do calhau da Gorreana ou de outros lugares da costa, e coladas umas às outras com barro, que se mantêm de pé apesar dos tremeliques do chão. Mas um tremor de terra apavora. Se é mais forte do que o costume, uns momentos antes de acontecer os cães põem-se a ganir e a correr desorientados, ou as vacas procuram fugir, sem saberem de quê e para um lugar que não sabem onde. Os ultra-sons que precedem a agitação sensível da terra ferem os seus ouvidos, de modo semelhante a como são feridos os nossos por unhas a raspar numa parede de cal ou uma navalha a alisar um folhelho, e esse arrepio provoca-lhes uma sensação de mal-estar inquietante ou um medo irracional. Um tremor mais forte podia fazer também com que se abrissem as portas das tabernas, fosse a que horas fosse da noite adormecida violentamente desperta, para que os homens, com a desculpa de matar o bicho do medo, acorressem a matar o outro, o da sede sempre pronta a emborcar um calzinho de aguardente.

Talvez nada como um tremor de terra devolva aos homens, se a têm esquecida, a consciência da sua fragilidade. O tremor de terra é breve enquanto acontece, mas tarda muito a passar depois de ter acontecido, e é a memória que o faz longo. Uns segundos apenas (dez... doze... catorze...), mas ficam as suas sensações recordadas, revividas: o chão que se sacode debaixo dos pés, as portas e as janelas que rangem, a armação da casa que ameaça desmoronar-se como ossos de um monstro gigantesco a estalarem, o tecto que se move em ondas invertidas, as chávenas que se balançam com o som de campainhas, uma leve vertigem, o urro final em que se julga que tudo vai desabar sobre a gente e que a gente se vai misturar aos escombros de um mundo desfeito. E, de repente, a quietude total, enquanto se vão calando as campainhas, como se um tropel de cavalos enlouquecidos se tivesse aproximado num galope subitamente interrompido. A memória revê cada vibração por sua vez, ouve de novo cada som em separado e não como uma sinfonia fantástica, de tubas e contrabaixos diabolicamente desafinados à mistura com pequenos címbalos que escarnecem num riso sincopado e sem ritmo, ao mesmo tempo que sabe-se lá quantas batutas de cristal se partem sucessivamente. E o temor verdadeiro, maior que o perigo quase sempre, é entre dois tremores, o que pode demorar muitos anos.

Vendo os picos altivos, os sólidos rochedos, a ilha que resiste a todas as fúrias marítimas, de ondas que mudam penedos do seu lugar, e de ventos que espatifam milharais, que queimam todas as culturas, que tornam castanhas as folhas das árvores; a ilha que não se esboroa com os dilúvios que fazem germinar os trigos antes da ceifa – ninguém entende como pode haver forças capazes de a sacudirem como se ela fosse uma peneira de coar o farelo para fazer pão da rala. Só Deus, acredita-se. E, por isso, um outro nome do tremor de terra é castigo, com a explicação popular de que nas profundezas da Terra há cavernas imensas onde se desprendem enormes rochas, fazendo estremecer tudo de tal maneira que o solo estremece também quando acontecem tão descomunais derrocadas. Embora modificada, dizendo rochas que se soltam em vez de espíritos de ventos que correm de um lado a outro em busca de uma saída, a lição de Aristóteles permanece de geração em geração há vinte e três séculos, e não será esquecida por muito tempo ainda.

Fez anos nessa mesma noite que António sentiu o maior tremor da sua vida, estava ele na igreja, uns minutos antes de começar o Te-Deum. Acabara de entrar com a mãe e as irmãs e ainda rezava saudando o Santíssimo exposto. Percebeu primeiro uma vibração das tábuas do estrado debaixo dos joelhos, como a de um sobrado quando alguém, sentado numa cadeira e com a ponta do pé assente no chão, agita a perna de cima para baixo em movimentos muito rápidos. Não entendeu de imediato do que se tratava e, olhando à volta, notou o mesmo ar de admiração em rostos que se viravam também para um lado e outro à procura de explicação. Então as grossas pilastras, que dois homens mal conseguem abraçar, foram sacudidas violentamente, com a nave da direita a parecer que tombava para sul e a da esquerda para norte. Os lustros, com as velas todas acesas, balançaram num chocalhar de pingentes, deixando rastos de fumo e fogo a riscar o ar. Um ronco tremendo subiu, como se o chão estivesse a abrir-se, as pilastras foram sacudidas com mais violência para fora e para dentro, o arco da capela-mor torceu-se como roupa molhada a ser batida pelas lavadeiras, os escarradores chocalharam nas lajes, o petróleo respingou dentro dos candeeiros, e um estrondo abalou a igreja desde os fundamentos, provocando um estoiro no tecto, ao mesmo tempo que uma nuvem de cal, que pareceu por momentos ser a abóbada a desabar, caía sobre o povo em pânico, que gritava aterrorizado, com algumas mulheres a saltarem para cima das grades do cruzeiro ou a subirem para as cadeiras ainda vazias que pertenciam às senhoras de estatuto e lhes marcavam e reservavam presença e comodidade junto ao altar do Senhor. Fugiam do medo que vinha do chão como se o perigo não estivesse no alto. António continuava de joelhos, sem tempo ainda para ter medo, e, quando viu cair a cal, julgando que era o tecto, apenas pensou: “agora é que eu vou saber como se morre num tremor de terra.” Dito isto para si mesmo, verificou que a nuvem branca fora apenas cal e que tudo permanecia tão seguro e quieto como se nada de anormal se tivesse passado. Mas as pessoas que vinham na rua a caminho da igreja mal se aperceberam do tremor. Houve quem se lembrasse de ter ouvido ranger uma cancela ou de um qualquer outro ruído estranho, mas sem ligar tais sons à sua causa. E não mais do que isso.

(Texto extraído do romance A Terra Permitida)

13 comentários:

Mafalda disse...

Daniel,

Os tremores da Terra lembrando-nos o seu passado, presente e futuro telúrico. Ao mesmo tempo, recordando-nos a nossa pequenez, perante a voz grave e quente que vem do chão que se aparta, e nos aperta alma.

Beijinho

Francisca e Mafalda

Ibel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
lia disse...

Ibel disse...
Depois desta catrástofe no Haiti que nos faz pensar sobre a fragilidade do "pequeno bicho da terra", o teu texto impressionou-me pela descrição pormenorizada e pela sempre riqueza de imagens que vais buscar, já não sei onde.E tão verdadeira, que me fez recordar o terramoto de 1969.Ainda hoje ouço o barulho da terra e o móvel do quarto a ameaçar cair sobre a cama. Foi um horror! E tu? Já passaste por essa experiência?

Daniel disse...

Francisca e Mafalda
Pois é, somos plumas no vendaval da Natureza. Mas, no geral, ela só nos permite contemplações de grande beleza.
Isabel
Pus na memória do António o que eu vivi rigorosamente. A única diferença foi as senhoras terem saltado para cima dos bancos, que não existiam no tempo dele. E a minha avó materna e a minha tia foram duas das pessoas que, vindo pela rua a caminho da igreja, não se aperceberam de nada. Ouviram apenas ranger a cancela de um vizinho. No outro dia, em casa da minha avó, onde eu vivia, uma réplica provocou o tal chocalhar de chávenas que pareceu de campainhas.

samuel disse...

Aqui em casa há quem tenha vivido o último grande, na Terceira...
Fui lá muito pouco tempo depois... ainda com tudo partido, ou mesmo no chão. Fica-se minúsculo...

Abraço.

mariana disse...

Felizmente nunca passei por nenhuma situação destas.Cada vez gosto mais dos seus textos.

jv disse...

«E o temor verdadeiro, maior que o perigo quase sempre, é entre dois tremores, o que pode demorar muitos anos.» É precisamente assim que, nós açorianos, nos sentimos, desde sempre, presos a esta fatalidade, que quando bate a portas alheias,íntimamente sentimos, que nos poderia ter acontecido a nós, por sabermos bem, que estamos sujeitos regularmente a estes fenómenos.
Neste texto, o Daniel mais uma vez demonstra que a verossimilhança da sua escrita, é muito mais do que ficção.
Um abraço.
José fernando

Daniel disse...

Samuel, o de 1980 Foi tragédia. E pensar que aquelas casas que ruíram teriam ficado de pé se ao menos tivessem um reboco de cimento...
Mariana, e eu cada vez gosto mais da tua presença aqui.
José Fernando, a crer no mapa de risco sísmico de São Miguel, a Maia está muma das zonas mais seguras, não se prevendo que aconteçam sismos comm intensidade superior a cinco.

Eduarda disse...

«Os tsunamis são os castigos das águas.Os furacões,os castigos dos ventos.Os terramotos,os castigos do solo.As erupções vulcânicas,os castigos do fogo.Porque a terra assim decidiu.»
Filipa Germano
Que dizer?
Pai Nosso que estais no céu...
(E nós,na terra!)

jv disse...

Cara Eduarda, já imaginou, o castigo que é para para a Igreja ter um bispo destes?
«O truculento bispo de San Sebastián, monsenhor José Ignacio Munilla (n.1961) está nas bocas do Mundo depois das suas infelizes declarações sobre os mortos do Haiti: «es mas grave la situación espiritual de España que la tragédia que viven los haitianos».»
José Fernando

Eduarda disse...

Mais grave,JV,é a «situação espiritual» desse POBRE,MISERÁVEL,MOFINO e INQUISIDOR monsenhor.
Precisava de ouvir «quatro à pressa» do nosso mestre Vieira.
Grata pela informação.
Eduarda

Daniel disse...

Eduarda e José Fernando
Obrigado pelo que acrescentaram em valor a este texto.
Além de Vieira, o bispo de San Sebastián bem que poderia ler a carta de Gil Vicente negando que o terramoto de Santarém tivesse sido um castigo divino... o que lhe valeu alguns problemas com a Inquisição.

Mar de Bem disse...

...de longe vem, como as dores de parto, em catadupas, o ronco da terra até se juntar a nós em estertores diabólicos... PAI NOSSO, AVÉ MARIA!!!...

Passou!

...aí se avizinha outro...
será desta que já não escapamos?
PAI NOSSO, AVÉ MARIA!!!!!!...

...ainda estamos...
...aqui.

E eu ainda estou por aqui!
BENZÓ DEUS!!!