sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Suor Alheio


Paisagem com canas (fotografia retirada do blog Bis Bis)

Ficaram os dois no canto sem que ninguém os contratasse. António, porque era muito novo, o José “Pinta a Pulga”, porque já era velho.

Aquela era a primeira vez que António oferecera o corpo para ser avaliado músculo a músculo, tinha muito tempo ainda para esperar que as coisas mudassem. Mas ao outro já iam recusando a oferta de vez quando, dias de ganho a menos a somar aos de chuva e de nada haver nas terras para ser feito.

– Um velho também come... – Foi o lamento do “Pinta a Pulga”. E meteu pela rua abaixo enquanto António ficava no canto a olhar os últimos homens que partiam para mais um dia de pão garantido. Vinte passos dados, se tanto, o “Pinta a Pulga” voltou para trás.

– Vou falar com o senhor Vicente. Pode ser que ele tenha a caridade de me dar trabalho hoje.

António debatia-se com a velha raiva que sentia contra o senhor Vicente. Via o pai trazido numa padiola, mal limpo o sangue da cabeça, e, uns dias mais tarde, a mãe, que não parara de o chorar ainda, toda vestida da cor da casa, a agradecer como grande esmola as últimas três maquias de milho que ele ganhara antes de cair pela Rocha do Tamujo. Mas o orgulho é um luxo para os pobres. A mãe e as irmãs tinham bocas para alimentar e corpos para cobrir, e António não era menos apressado na hora de ter fome, embora menos exigente no ano de vestir. Cuspiu o orgulho com a saliva e disse que sim.

– Não tenhas vergonha, rapaz, nem esmoreças. Tens a vida toda pela frente, ainda vais ser dos primeiros a serem escolhidos, não tarda nada. Eu é que vou cada vez para pior.

Fora isso que pensara, mas, quanto à vergonha, não era por ela que ia acabrunhado. Era por aquele orgulho sempre cuspido ou engolido, no silêncio dos pobres, sabendo que o senhor Vicente lhe contaria as horas uma a uma, os quartos de hora, até a noite preparar a cama onde havia de deitar-se o Sol. Tentou por isso uma desculpa para evitar a humilhação a que estava quase resignado a submeter-se.

- Mas o tio João já não pegou nos homens de que o senhor Vicente precisa?...

Referia-se ao capataz do senhor Vicente, que era sempre o primeiro a escolher os trabalhadores.
– Pois pegou. Mas o senhor Vicente é capaz de nos dar um jeito.

... E disposto a dar um jeito estava, mas só a um, ao rapaz, impondo a sentença de mandar o velho embora. António pensou que talvez o fizesse por remorso antigo, e lutou na indecisão de acompanhar o “Pinta a Pulga” no regresso triste, enfrentando o orgulho da sua raiva arrimado ao pensamento da necessidade da mãe, das irmãs e dele mesmo, e à vergonha de voltar para casa sem ter sujado o sacho nem derramado uma pinga de suor. O senhor Vicente tinha o cerrado das Canas Vieiras para cavar, mas tinha de ser bem cavado, fundo, e sentenciou que o “Pinta a Pulga” não podia fazer o serviço como ele queria. E, apesar de saber que António estava muito acostumado a trabalhar com o padrinho desde que o pai morrera, mostrou-se um pouco desconfiado também a seu respeito. António disse:
– Se o senhor Vicente quiser, cavo-lhe esta terra a trato.

– Olha que cinco homens cavam esta terra num dia. Podes levar sete ou oito que só te pago cinco, entendeste?

Entendeu e aceitou. E esfalfou-se de crepúsculo a crepúsculo, com a velha raiva sempre no fio do sacho, como se a cada cavadela pudesse atingir a alma do senhor Vicente.

Quatro dias bastaram para fazer o serviço que era feito por cinco homens num dia.

Na hora de pagar, o senhor Vicente mediu alqueire e meio de milho.

– E as outras seis maquias?

O senhor Vicente, em tom de justiça definitiva, bem lembrado de que aquele era serviço de cinco homens num dia, respondeu:

– Pensas que eu sou tolo ou quê? Não foi só quatro dias que trabalhaste? Aí tens.

António não encontrou modo de dizer a sua revolta, o seu desprezo. E foi o senhor Vicente que lhe despejou em cima:

– O que essa canalha me tem roubado! Um fedelho como tu cava-me a terra em quatro dias, e andavam para aí sempre cinco malandros a fazer ronha para aguentarem até às trindades!

António sentiu vontade de o esganar. Ainda disse, a medo:

– Mas o trato não era de me pagar como se fosse cinco dias?

– Isso era se levasses mais tempo a cavar. Ou querias ganhar cinco dias em quatro? Ou amanhã ganhavas o dia sem trabalhar porque eu já tinha pago adiantado?

António foi-se embora sem ter dito mais nada porque tinha as esponjas das lágrimas quase a rebentar-lhe nos olhos.

(Adaptado do capítulo VII de A Terra Permitida)

9 comentários:

jv disse...

Claro que este texto é ficcional,mas poderia perfeitamente não o ser, porque perfeitamente verosímil e perfeitamente enquadrado numa realidade, de quem tinha o poder, podia manipular, a seu belo prazer, a miséria do outro,que na luta pela sua sobrevivência se sujeitava a todas as indignidades ou ser totalmente ostracizado e como consequência ficar por sua conta e risco, às agruras do destino, sem que mais alguém lhe desse a mão. Quem se ousasse insurgir minimamente, contra um senhor,o preço a pagar seria, muito elevado, cruel e impiedoso.
O Daniel conta-nos muito bem isto, numa personagem, com quem convivi, muito de perto e por quem tinha um carinho muito especial, estou falar do «Tio Alfredo», do seu livro «Sobre A Verdade Das Coisas».
Os escritos do Daniel, são duma importância muito significativa para mim,funcionam quase como catarse, porque repõem alguma justiça, a quem nunca teve em vida,a possibilidade de ser ressarcido das injustas indignidades a que forem sujeitos.
Ao menos, hoje são heróis da nossa memória...
Um grande abraço.
José Fernando.

Mar de Bem disse...

AI, QUE RAIVA!!!

Anónimo disse...

Olá Daniel,
Esta frase nunca iremos esquecer "Mas o orgulho é um luxo para os pobres", não só porque já tinhamos constatado que assim é, ainda hoje, mas porque nunca teríamos encontrado forma tão "certeira" de dizer esta verdade.


O que escreve continua a ser, infelizmente, a realidade dura e humihante de muitos. E o que mais magoa é saber que tantos, apesar de terem trabalhado uma vida inteira, continuam pobres e nas mãos dos Senhores Vicentes desta vida.

Beijinho


Francisca e Mafalda

lia disse...

Conheci e conheço tantos Vicentes,Deus meu!
"Mas o orgulho é um luxo para os pobres".Como conheces bem eese mundo , Daniel e como a tua escrita se faz quase palavra bíblica.E sem interpretações simbólicas.É o real, é a vida, é o mundo dos homens de boa e de má vontade retratada a nu.
Estas são as histórias que devem continuar a ser contadas, até que os demónios sejam esconjurados da face dos Vicentes.

Luís Peixoto disse...

Caro Daniel

O seu conto faz-me recordar um Leitão, não dos que se comem ,mas dos que gostam de comer a carne dos pobres e de lhes beber o suor.

samuel disse...

Este teu texto é uma extraordinária denúncia do que, ainda hoje, o patronato quer realmente quando fala de aumentos de produtividade. Para além, obviamente, de encher os bolsos, é a criação de novos tectos de exploração que, primeiro disfarçados de níveis de excelência, rapidamente passam a ser a média exigida. Há sempre quem, por ingenuidade ou absoluta necessidade, acabe por cair nessa armadilha.
Bela estória!

Daniel disse...

Gente amiga
Obrigado pela amizade e pelos comentários. E seja-me permitido responder com uma citação da epístola de São Tiago, escrita há quase dois milénios.
"A jorna dos operários que ceifaram os vossos campos, defraudada por vós, clama, e os gritos dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor."
Abraços.
Daniel

Mariana disse...

Uma história muito triste e tanta exploração.Há gente muito má.Por causa dela é que os meus pais emigraram.
Beijinho

Daniel disse...

Mariana, que bom ver-te por aqui. O meu pai também emigrou, no final da II Guerra Mundial, mas para muito mais perto, para a Ilha-Mãe dos Açores, Santa Maria. E no ano seguinte a minha mãe, a minha irmã e eu fomos juntar-nos a ele.
Beijinho recebido, beijinho retribuído. Deixo aqui o meu também.
Daniel