domingo, 6 de dezembro de 2009

Pedido de Casamento


Os Comedores de Batatas, Vincent Van Gogh

Bateu à porta com a inquietação como fronteira entre o receio e a esperança. Não se importou que os últimos olhares curiosos à luz dos restos do crepúsculo se dirigissem para si, estranhando a visita, ou talvez não, porque muita gente já teria com certeza ouvido e contado tão improvável amor.

Foi recebido com pouca surpresa, bem menos do que imaginara. Helena mexeu-se na cadeira, inquieta, enquanto ele caminhava em direcção à cozinha, mal iluminada pela luz minúscula da lamparina, que tinha a torcida, acabada de acender, reduzida ao mínimo. Para a cega eram iguais os dias e as noites, e a mãe sabia também os cantos da casa palmo a palmo sem precisar de luz ou de olhos abertos, pelo que poupava no petróleo o mais que podia. Distraíra-se, no entanto, ao recebê-lo com tão vaga claridade e, por isso, pediu desculpa e deu um pouco mais na torcida.

– Ainda está praticamente de dia. – Disse António, apenas para mostrar que nada havia a ser desculpado.

Estava resolvida a dificuldade de começar a conversa. Cumprimentou Helena com um simples “olá”, a que ela correspondeu, envergonhada, dizendo “olá, António”. No prato de Helena havia duas batatas cortadas ao meio, no de Elvira nenhuma.

– Quando dei por mim, só tinha quatro batatinhas em casa. A gente amanha-se assim mesmo. – Deu sinal a António para que não fizesse comentários, e convidou por delicadeza: – És servido?

Aquela mulher era muito diferente do seu retrato falado.

– Interessa é encher a barriga. – Disse António com um nó na garganta.

Elvira pareceu querer sossegar nele a compaixão pressentida.

– Daqui a dias, não me há-de faltar trabalho a ceifar, se Deus quiser, e a respigar, que sempre trago uns braçadinhos de trigo para casa.

Depois de os ceifeiros porem em descanso as foices e o corpo, às vezes já noite alta se era de lua cheia, ela ficaria ainda colhendo as espigas esquecidas, mais abundantes nas searas segadas por mãos habituadas à caridade, no cumprimento de uma recomendação bíblica que talvez ninguém conhecesse mas que era cumprida como um mandamento divino.

Elas iam comendo em silêncio, devagar, naquele silêncio e naquele vagar habituais de quando a refeição é de iguarias raras ou de sustento insípido. António, que continuava sem saber o que dizer, e nem sequer sabia se convinha dizer alguma coisa, decidiu falar de outro modo. Pegou na guitarra e tocou o “Fado da meia-noite”. Quando acabou, as duas mulheres disseram que tinham gostado muito.

– É muito bonito. – Disse Helena.

– Tu és tão bonita como ele. A tua cara é tão bonita como ele. – Atreveu-se António.

– E é triste, também, não é?

Ter-se-ia referido à música ou à sua cara?...

Passados uns instantes, Elvira disse:

– Talvez te admires de eu não ter perguntado o que vieste aqui fazer. Acho que deves mudar de ideias.

António percebeu quanto lhe custou dizer aquilo.

– Mudar de ideias, não mudo.

Elvira enrolou na boca as couves e engoliu-as com dificuldade.

– Pois então ela que diga. Pergunta-lhe.

Ele pensava que era inútil perguntar. Mas fez a cena como pôde.

– Helena, tu queres casar comigo?

Helena baixou a cabeça, como se os seus olhos pudessem ver e ela não quisesse que eles vissem. E disse duas vezes “não”, com o nome de António pelo meio. Estranhou não se sentir atingido na alma ou no coração, ou lá onde é que essas coisas doem. O certo é que não o surpreendera aquela resposta, sem dúvida ensaiada pela mãe. Helena levantou-se logo a seguir, para se refugiar no quarto onde a sua noite era a mesma mas não podia ser vista por ninguém. Sem tempo para pensar no que fazia, António segurou-a pela mão direita. Ela não se esforçou muito para se libertar, e Elvira, apanhada de surpresa, ficou calada a olhar para os dois. Quando ela ia falar, António disse muito calmamente:

– Ó senhora Elvira, pela alma dos seus e pelo amor de Deus, mande-a sentar-se e acabar de comer. Não se fala mais nisso agora.

Condescenderam ambas, e acabaram a ceia em silêncio. Estavam os dois frente a frente. Dois pares de olhos que se viam muito bem. E foi nos dela que leu o tamanho da mentira que Helena dissera sem querer. Mas não estava disposto a negociar Helena.

– A senhora Elvira pensa que eu sou capaz de fazer algum mal a Helena!?...

Ela levantou os olhos. Eram tão bonitos como os de Helena e, se as suas lágrimas não causassem pena, seriam mais bonitos assim.

– Eu acredito em ti, não desconfio das tuas boas intenções, mas sei que vocês iam ser dois desgraçados.

Protestou com convicção mas serenamente.

– A desgraça fica por minha conta. E com a ajuda de Deus há-de ser a desgraça mais feliz do Mundo.

Elvira sorriu.

– Bem dizem que palavreado não te falta...

Elvira falou em tom de elogio.

– Eu sei que Helena gosta de mim. Então por que teima contra a gente?

Elvira olhou-o com a sua tristeza resignada.

– Não teimo contra vocês. Não teimo contra ti, porque és bom rapaz, e oxalá que Nosso Senhor te faça muito feliz como mereces. E não teimo contra a minha rica filha que, se pudesse, até lhe dava os meus olhos para ela deixar de ser uma infeliz.

António percebeu que era essa a oportunidade para um novo argumento.

– É disso mesmo que Helena precisa. A senhora não vai ficar a viver sozinha, há-de viver com a gente, não é? Há-de ajudar a tomar conta da casa e dos filhos que Nosso Senhor nos quiser dar.

– Se isso desse para fazer vocês felizes, eu fazia isso e muito mais. Mas olha, António, eu digo-te para teu bem... Pensa no que fazes. Mereces melhor do que Helena.

– Quanto tempo pensa que é preciso para poder acreditar em mim?

– Muito!...

– De vez em quando hei-de vir perguntar se já passou muito tempo.

Teriam uma maneira diferente de medir esse tempo, mas Elvira acedeu.

(Adaptado do capítulo V de A Terra Permitida)

16 comentários:

Miguel disse...

Que relação existe entre esta Elvira e a do Pão Permitido? Pode dizer-me se o livro está à venda e onde posso encontrá-lo?

Francisca disse...

Olá Daniel,

Como sempre, fica-nos a vontade de dizer "hoje soube-me a pouco", pois gostaríamos que a história continuasse. Gostaríamos de saber se o "muito tempo" foi favorável ao pedido genuíno da Alma Grande de António.
Belíssimo texto.

Mafalda e Francisca

Cris disse...

Daniel
De vez em quando hei de vir perguntar se já passou muito tempo...
Beijo

jv disse...

Cara Mar-ia,
as personagens do Daniel, nalguns dos seus escritos, como este em Sobre a Verdade das Coisas, podiam ser exemplificadas, por esta transcrição,que para mim define aquilo que eu vislumbro na sua escrita, que é a desproporcionalidade, entre a violência dos seus conteúdos, essencialmente por serem relatos de algo que realmente aconteceu, e a genialidade da beleza como isto nos é transmitido na sua escrita, onde o belo desdramatiza, de certa maneira, algo que é profundamente trágico que é a luta entre a sobrevivência e a morte.
« os que não morriam agarravam-se à vida como os incensos ou as faias que,com raízes de sede,se pegam à pedra queimada e vivem como um mistério.»
« Raízes de sede,se pegam à pedra queimada» é uma expressão genial para definir as dificuldades e os escassos meios de sobrevivência, tornando realmente a vida num «mistério».
Escrito desta maneira, tem toda a aparência dum eufemismo, lido na sua real dimensão, é um testemunho cruel duma realidade que alguns de nós ainda participámos quer directamente ou a conhecemos mais esbatida através da oralidade dos nossos pais e avós.
Foi assim que anteriormente, comentei este texto do Daniel, e foi desta maneira que agora comentei, O anterior:
Como já referenciei, algumas vezes, a tragicidade das tuas histórias, porque reais e demasiados verdadeiras,dilui-se na beleza da tua escrita e apesar da sua real evidência, a desgraça e a crueza da miserável condição de vida das tuas personagens perdem algum impacto, numa leitura menos atenta, de quem não presenciou, ou pouco contactos teve com essa dura realidade, onde se morria de fome,«ou dos maus tratos dela».
Talvez seja este o meu problema, estar, demasiado ligado afectivamente, a estas personagens e também a quem as escreveu, que de uma maneira ou doutra, foram fundamentais para a construção do carácter daquilo que sou hoje.
Um abraço.
José Fernando

lia disse...

Daniel,

Tu sabes que eu comprei este livro quando estive aí nos Açores, no Centro Cultural da Caloura, numa tarde magnífica de sol,onde uma árvore testemunhou a alegria de duas meninas, coniventes na alegria de o serem, embora uma em forma de anjo e outra de estrela.Foi linda essa tarde porque pude realizar o sonho de te conhecer.
Gostei tanto do livro que anda de mão em mão.
A minha avó materna era cega como a Helena,por isso esta personagem me comove. Cegou muito criança quando brincava com a irmã que, sem querer, lhe espetou um garfo nos olhos.Já tinha uma visão muito débil, por isso cegou de vez.Quando a irmã casou(minha tia avó), levou-a com ela e foi a mana cega que criou os seus quatro fihos, sendo madrinha de todos.Curiosamente, o destino levou a que era saudável dos olhos, mas esta, antes de partir, pediu ao meu avó que casassse com a cunhada porque ela amava muito os meninos.E assim aconteceu. A minha avó Amélia teve cinco filhos e a minha mãe era a mais nova de todos.Era da Serra da Estrela e tinha um brilho que nunca se extinguiu.Quando ela morreu, a minha mãe fechou-se no quarto durante dois meses.Tinha saudades das mãos misteriosas que lhe acariciavam o rosto e que lhe diziam" estás cada vez mais linda, minha filha".E como ela bordava!

samuel disse...

Ainda há pessoas que estranham porque tudo é tão profundo nessas ilhas de bruma, até a música popular...

Grande abraço.

Mar-ia disse...

A Mar de Bem pintou uma Mater Dolorosa para a Igreja das Angústias, o ano passado, e naquele olhar profundo, e em transmitir aquela profunda dor de Mãe que perde um filho, se deteve com pincéis a nossa amiga, indecisa, até lhe encontrar a expressão. Uma amiga, professora dela, com a generosidade dos anos mais crescidos do que os da nossa pintora, aconselhou-a:
- Margarida, não deixes a Senhora com o sofrimento, que nos deixe mais tristes do que a tristeza dela!
Eu percebo o seu ponto de vista,José Fernando, que é respeitável e lúcido, mas acho que o olhar do Daniel é mais profundo e inebriante, do que se fosse queixoso.
Tal como o da amiga Lia, que soube contar de experiência feita, uma realidade próxima.
Todas temos histórias a contar, mas nem todos somos dotados para o fazer. O Daniel sabe. Todos concordamos que ele sabe e como nos impressiona essa delicadeza com que especialmente trata as suas personagens femininas.

Daniel disse...

Miguel, como faz uma pergunta, devo responder. Não uso este blog, nem aqueles que leio ou em que comento, para fazer publicidade dos meus livros. Só tenho trazido aqui estes textos de livros meus porque estão esgotados. De qualquer maneira, agradeço muito o seu interesse.
Estes comentários belíssimos confirmam o que eu já disse: alguns dos melhores capítulos do Espólio estão na caixa de comentários.
Abraços.
Daniel

MaesDoc disse...

Caro Miguel

Tente no meu habitual fornecedor.
http://livraria-esperanca.pt/loja/
E apresse-se.

Um Abraço

Manel Estrada

Mar ilhéu disse...

Que superficial "profundidade".

mariana disse...

Por favor, ponha mais textos destes que fazem recordar-me dos tempos em que vivia no estrangeiro e que a minha mãe contava histórias destas.
Um beijinho, posso?

Daniel disse...

Manuel, obrigado por dares essa informação ao Miguel.
Mar Ilhéu, é à superfície da alma, os olhos, que se percebe o que se passa no mais profundo do ser humano.
Mariana, farei com muito gosto o que pedes. E claro que aceito com muito prazer o sabor do teu beijo. Que retribuo, sim?
Daniel

Mar de Bem disse...

Ah, como me custa falar quando me debruço sobre sentimentos magoados, resignados e, acima de tudo, quando se fala de quem apenas tem os olhos da alma...

Imaginar a vida sem o dom da visão física é coisa que me alucina. Como? Como viver sem ver? Como viver sem olhar?
Eu, que pintei o olhar, não imagino o que é não olhar...
Haverá outros olhares, sem visão?
Se eu às vezes olho e não vejo, porque o meu olhar se perde em minudências que me fazem sonhar e me perco da realidade física, como será a realidade de quem apenas vê com os olhos da alma, vê, mas não olha? Como se pode ver, sem olhar? Como se pode olhar, sem ver?

Eu já nem sei se quero ver... mas olhar, quero sempre!!!

Beijos, p'ra quem é de beijos, quer veja, quer não veja, mas que olhe, p'ra que eu possa ver e sentir a sua alma..., não é, LIA, DICA, MAR-IA??? MANAS!!!

Daniel disse...

Esta é a nossa artista muito amada, ideal para ver... e ser vista.
Obrigado, com um abraço.
Daniel

Ibel disse...

Que belo comentário,mana de Bem! Tão espontâneo,tão verdadeiro, tão com alma e olhar!!!!

Mar de Bem disse...

São vocês que me fazem assim...De bem fico coa vida!!!
E.V.A. (eu vos amo)