sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Pai Natal sem reforma

Fotografia encontrada no blog Por Entre Montes e Vales


Os anjos estavam muito admirados com a excitação nervosa do Pai Natal. Nunca o tinham visto assim. O velho chamou por um deles: “Lucílio!” O anjinho veio prontamente: “Estou aqui, senhor Pai Natal. Que deseja?” “O Mercurino já chegou?” “Está chegando agora mesmo.” E, vendo aparecer o querubim de quem falara, perguntou: “Qual foi a resposta de Deus ao meu pedido de aposentação?” “Nosso Senhor disse – respondeu Mercurino – que nem pensar.” “Nem pensar?... – Resmungou o Pai Natal – Isso é que penso. Não tenho outro remédio senão aceitar, mas pensar é cá comigo.” Mercurino tentou acalmá-lo: “O senhor Pai Natal fala sempre em aposentar-se quando chega a vez de despachar os presentes para as crianças portuguesas. Mas depois isso passa-lhe.” “Passa-me? Desta vez não passa. Isto é demais. Tudo torto. A começar por vocês. Eu pedi cento e quarenta e quatro mil anjos para me ajudarem, e que é que Nosso Senhor me mandou? Vocês, querubins, que não querem senão brincadeira.” “Somos anjos da primeira jerarquia, não somos?” “Vocês são da primeira jerarquia, mas não é para trabalhar.” “A gente faz o que pode, o senhor não tem razão de queixa, senhor Pai Natal, julgo eu.” Disse Lucílio. “Ai não, que não tenho. E nem sequer vieram todos. Além do pouco que vocês fazem, ainda faltaram à chamada sete mil setecentos e setenta e sete.” “Devem andar por aí perdidos no meio da algazarra da festa.” Era Mercurino a tentar desculpar os amigos. Mas o Pai Natal não estava com paciência para ter paciência. “Festa, festa, mas é para os outros. Já estou nisto há mais de cem anos, e Deus não me dá a reforma.” Depois quase gritou: “Mercurino!” O anjinho assustou-se: “Senhor? Que foi que eu fiz agora?” “Não fizeste, mas vais fazer.” O querubim respondeu: “Estou às suas ordens.” O Pai Natal disse: “Antes, o Menino Jesus dava uma ajuda bem grande em Portugal. Era ele que fazia quase tudo. Agora passa toda a santa noite refastelado no calor da manjedoura.” “E quem é que tem culpa disso? Não é nada connosco, as crianças é que lhe escrevem a si, não há nada a fazer.” “Há. Vai ter com José e pede-lhe que pelo menos empreste o burrinho para ajudar a transportar algumas coisas. Mas depressa! Vai numa asa e vem na outra, percebeste” “Sim, senhor, senhor Pai Natal.” E desapareceu voando à velocidade da luz.

“Querubins, querubins e mais querubins. Para onde quer que me volte só vejo querubins e querubins e querubins.” “Tenha paciência, senhor”, disse Lucílio. “A gente há-de fazer tudo como sempre tem feito.” “Paciência?” O Pai Natal voltava a falar alto. “Para suportar vocês era preciso ter paciência de santo, e eu não sou santo. Santo é o Nicolau. E nem sei se ele aguentava esta barafunda toda.” “Vai dar tudo certo, há-de ver.”

“Hei-de ver, hei-de ver… Querubins, é o que eu vejo. Que só querem é brincadeira. E onde estão os anjos a sério? Onde estão os serafins, as potestades, os principados, as dominações, as virtudes e os outros todos? Estão na gruta, cantando «Gló…ó…ó…ó… lá-lá-lará-lá-lá…» É o que fazem.” “Mas eu já disse que a gente faz o trabalho. Tenha calma.” “Lá estás com a calma…” “Não estou lá, estou aqui, senhor Pai Natal.” “Deixa de desconversar. A calma… sempre a calma. E os arcanjos?... Que é que eles fazem? Miguel deu uma sova em Satanás, e pronto. Ficou com fama e descanso para o resto da eternidade. E Gabriel?.. Levou um recado à Terra, uma vez, e reformou-se. Do Rafael nunca percebi sequer qual é o seu trabalho.” “Olhe, o Mercurino já chegou.” Informou Lucílio.

“Mercurino!” Gritou o Pai Natal. “Onde é que está o burrinho?” “São José não quis emprestá-lo.”“Também ele?... E eu é que tenho de resolver tudo, não é?” Mercurino explicou: “São José diz que o burrinho estás muito cansado da viagem.” “Ai está, coitado?... Ainda se eu pudesse contar com os camelos dos Magos… Mas estes ao menos tiram-me o trabalho de Espanha, o que é uma boa ajuda, valha-me Deus.”

Chegou outro anjinho, Almito, com os pedidos de última hora. “Estão aqui os atrasados, como de costume”, disse. “E donde vem isso?” Perguntou o Pai Natal. “Um é da Turquia.” “Da Turquia?!” O Pai Natal gritou outra vez. “Isso aí é da responsabilidade de Nicolau. Não tenho nada que ver com essa zona.” “Mas a menina é portuguesa. E é a si que faz o pedido.” “A mim? A Turquia fica em Cascos de Rolha. Indeferido.”

“Mas está em caminho para Samarcanda.” “Samarcanda?... Onde é isso?” “No Uzbequistão.” “No Uz quê cristão?” “Não, não é assim. É Uzbequistão. Quase não há cristãos lá.” “Quase não há, não é? E logo haveria de calhar um que fosse português… Essa gente anda por toda a parte.” “Pois é, senhor… Os portugueses são assim. Morrem de saudades mas vivem anos sem fim longe de casa. E há aqui outra carta que veio de Portugal.”

“E que é que me pedem nessa?” “É para pagar o IVA dos presentes.” “IVA, que é isso agora?” “É o imposto de valor acrescentado.” O Pai Natal deu o maior grito do dia. “Imposto? A essa gente já não bastam os impostos na Terra, querem vir buscá-los ao Céu também? MERCURINO! MERCURINO! Vem cá, Mercurino.” “Estou aqui, senhor Pai Natal. Que deseja?” “Vai depressa procurar Francisco.” “Que Francisco?... Não faltam Franciscos no Céu.” “Aquele meio louco, de Assis.” “Ah, o que está sempre a brincar com lobos e passarinhos.” “Esse mesmo. Ele que vá lá a Portugal tratar do assunto. Mas diga que eu não pago, não pago, não pago. Então temos aí milhões de euros de presentes para levar para eles, e ainda vamos pagar imposto? Isto aqui não é a União Europeia. Francisco que diga isso, e não se ponha com cara de santo. Pode ir de sandálias.” Mercurino partiu em mais esta missão.

“Que pedidos fazem essas crianças da Turquia e do Uzbomcristão?” “Uzbequistão, Uzbequistão.” “Como queiras. E eles que querem?” “A menina que vive na Turquia quer uma boneca que chore.” “Uma boneca que chore?... Já não basta o choro de verdade, ainda hei-de dar uma boneca que chore? Nem pensar! Vai dar-se uma boneca, mas calada como uma pedra. Ainda mando alguma coisa, ou não?” “Como queira, senhor.” “E o menino do Uz… Uz… pronto, essa terra que fica em Cascos de Rolha de Cascos de Rolha?” “Pede uma metralhadora.” O pai Natal deu uns gritos ainda maiores que o grito de antes. “Uma metralhadora?... Não dou metralhadoras, não dou metralhadoras, não dou metralhadoras. E não se fala mais nisso.” “Mas é uma metralhadora de brincar.” “Não dou, não dou e não dou.” “E fica sem oferta, o pequeno?” “Vai ter uma lira.” “Uma lira? Onde é que vamos comprar uma lira a esta hora? “Desenrasca-te. Se não encontrares nenhuma damos a tua.” “Isso é uma oferta muito cara, não lhe parece?” “Não íamos tão longe, até esse Uz… Uz… para dar um traste qualquer, não é?”

O Pai Natal acalmou, e deu ordens em tom meigo, como era normal. “E agora nada de conversas. Vamos ao trabalho.”

A publicar na imprensa regional e a emitir como teatro radiofónico na Antena 1 Açores.

12 comentários:

Anónimo disse...

Daniel,

Que Pai Natal tão divertido este, que nos apresenta na azáfama do Natal. E com colaboradores tão pouco diligentes não há quem tenha paciência, nem o Pai Natal.

A "nega" do S. José foi no mínimo pouco caridosa. Custava lá alguma coisa emprestar o burrinho, para uns quantos carretos? Mas isto há asnos que já nascem cansados...


Beijinho


Mafalda e Francisca

mariana disse...

Também me diverti muito com esta história, as aspas é que ma tornam mais difícil de ler porque estou habituada aos dois pontos e travessão.
Hoje chegam os meus pais e estou muito feliz.
Um beijinho muito grande.

lia disse...

Felicito-te pela imagem que escolheste e pelo conto que espero ouvir através de gravação para passar aos meus alunos.
O conto é lindo e a ideia da lira como presente é um bom prenúncio de paz.Que pena não haver um Pai Natal de verdade que a colocasse no sapatinho de toda a gente.
Olha que rica ideia para um conto de Natal!
Beijinhos para ti e para as minhas meninas.

Daniel disse...

Mafalda e Francisca
O burrinho estava cansado. A viagem de Nazaré a Belém é mais ou menos como de Braga a Coimbra...
Mariana
Desculpa o recurso às aspas, mas, para fazer com travessão, tinha de ser cada fala numa linha, o que, com o afastamento entre parágrafos a que o sistema obriga, tornaria muito longo o espaço ocupado pelo texto.
Lia
Com certeza não haverá dificuldade em arranjar uma cópia. Os nossos bons amigos da rádio certamente no-lo porâo à disposição.
Vão abraços e beijos.
Daniel

jv disse...

Daniel, eu tenho um problema em relação ao teu texto, que me deixa algo desconfortável ao deixar aqui o meu comentário, é que eu não gosto do Pai Natal e peço-te segredo por esta minha confissão e que isto fique só entre nós, pois não quero desiludir meio mundo, porque a outra metade, já bem desiludida anda, ainda que por outros motivos e mesmo podendo saber da sua existência nunca o viram, até porque com as roupas que ele usa, morreria lá de calor, Também não seria lá muito necessário porque lá é habitual, as crianças possuirem metralhadoras, das verdadeiras e dos últimos modelos, e usarem-nas mesmo de verdade, porque nunca lhes deram a oportunidade de terem um lira, e até penso que nem sabem sequer o que isto é, ou para o que serve.
Peço desculpa pelo meu azedume e pela falta do meu espírito natalício, mas sinto-me traído por aquilo que o Pai Natal fez ao meu Menino jesus e tenho a certeza que ele não está «refastelado no calor da manjedoura.”, pois o Menino que eu conheci, não era nada dado a isto, porque por mais insignificante que fosse, o brinquedo que nos deixava no sapatinho, era sempre demasiado verdadeiro, por ser único, muito desejado e de realmente só poder ser de origem divina.
Confesso-te que ainda hoje lá ponho o meu sapatinho, não na chaminé, mas num lugar que secretamente guardo, mas ano após ano,cada vez mais triste, encontro-o sempre vazio,porque o brinquedo que ainda hoje peço é o que me habituei a receber em criança, isto é, o mesmo brinquedo divino e a criança que ainda existe em mim «cresceu» demasiado...
Desculpa este desabafo de amigo e mais uma vez muito obrigado pelo belo texto que nos ofereces, desta vez a todos, crianças e adultos, que ao o leram, têm uma oportunidade única de se sentirem por momentos outra vez crianças.
Um Bom Natal para todos.
Um abraço.
José Fernando.

samuel disse...

O delírio que é toda a quadra... merecia uma estória assim... delirante e divertida.
Duvido que se tenham safo do pagamento do IVA! :-)))

Abraço.

L.F. disse...

“Uma metralhadora?... Não dou metralhadoras, não dou metralhadoras, não dou metralhadoras. E não se fala mais nisso.” “Mas é uma metralhadora de brincar.” “Não dou, não dou e não dou.” Com muito humor se educam crianças".

Muitos Parabéns

Daniel disse...

José Fernando
A tua angústia é semelhante à minha. Mas há quem esteja tentando recuperar a mitologia infantil do Menino Jesus a dar os presentes.
Samuel
Será da idade ou da realidade? O Natal tornou-se sobretudo a festa da felicidade suprema para todos os Belmiros deste mundo.
L.F.
Obrigado pelos parabéns. E por ter entendido a iritação do Pai Natal por causa dos brinquedos de guerra.
Abraços.
Daniel

mizé disse...

Um Pai Natal bonacheirão e resmungão com uns anjos engraçadíssimos numa história bonita e cheia de conteúdo para contar às crianças e aos adultos, pois então.

Daniel disse...

Mizé, bem-vinda! E que bom que é ver que há adultos que gostam de histórias simples, sem sangueira nem paixões corruptas!
Obrigado.
Um abraço.
Bom Natal.

Lua dos Açores disse...

Eu nunca dei uma pistola ao meu filho, não dei, não dei, não dei...e prontus, não dei...só muito mais tarde alguém lhe comprou um revólver de fulminantes (maternicas?) já o moço era adolescente. Sabes quando será, se é que ainda não foi, transmitido na Antena 1?

Beijos e Santo Natal do Menino

Daniel disse...

Não deste e fizeste muito bem. Mas deste-lhe amor, que nunca é demais.
Não sei quando a Antena1 Açores passará a história. Dir-to-ei, se Deus quiser.
Um abraço.
Daniel