domingo, 1 de novembro de 2009

Abraão

Deserto de Wadi Rum (fotografia retirada de AtlasTours.Net)

Os Hebreus. “Homens poeirentos”, o que talvez seja o significado irónico da palavra com que eram conhecidos. Caminhavam no pó, surgiam do meio dele, desapareciam entre nuvens de poeira. Nómadas, não tinham morada certa. A sua casa era uma tenda, a sua pátria era o deserto. Como outros povos que ainda não tinham encontrado um pedaço de terra que pudesse ser seu. Onde crescesse erva em abundância e a água jorrasse em permanência. Onde pudessem semear umas lentilhas ou uns grãos de trigo. Homens sem pátria, sem casa e sem Deus. Talvez prestassem culto aos deuses dos altares que encontravam no seu caminho de vagabundos.

Um povo sem deuses seus, sem um ao menos, era um povo incompleto. Como uma família sem pai ou sem mãe. Poderiam fazer um ídolo. Mas com que nome? Com que poderes? Para os proteger de quê e em quê, se de tanto eram necessitados? E seria mais um empecilho a transportar nas longas jornadas. De qualquer modo, saberiam sempre que ele teria sido fabricado pelas suas próprias mãos, que teria sido uma invenção sua. E compreendiam que a imaginação não faz a realidade.

Mas um dia, ou ao longo de vários dias, ou até durante anos sucessivos, por palavras ouvidas ou apenas no íntimo da sua mente, Abraão percebeu que alguém se lhe revelava. Alguém que se dizia o seu Deus e o Deus do seu povo. Um Deus sem imagem física, que nem sequer tinha um nome nem um rosto. Que caminharia com ele e com o seu povo, que estaria sempre com eles.

Os Hebreus foram-se afeiçoando a esse Deus desconhecido. Dele só sabiam que era o seu, e isso lhes bastava. Já eram, agora, uma família completa. Os outros povos talvez continuassem a escarnecer deles, mais ainda do que antes, por estarem convencidos de que tinham um Deus que não precisava de corpo nem de feições.

Deus tivera o cuidado de não dizer muito de Si mesmo. Nem sequer que era o único. Porque Abraão, e sobretudo a sua gente, dificilmente acreditariam nisso. Vivendo entre povos que prestavam culto a muitos deuses, ninguém poderia imaginar que afinal nenhum deles fosse verdadeiro, e que o único era aquele que Abraão dizia ter-lhe falado. Um Deus menor, sem dúvida, como menor era o povo que o proclamava seu.

A fé de Abraão foi aumentando. E a sua confiança tornou-se ilimitada quando Deus cumpriu a promessa de Sara, sua mulher, lhe dar um filho apesar da idade já muito avançada. Ela chegara a compadecer-se tanto do marido que até lhe oferecera Agar, sua escrava egípcia, para nela gerar descendência.

Entretanto, Abraão já percorrera um longo caminho. Partindo de Ur, sua terra natal, e tendo passado por Babilónia e Mari, chegara a Haran. E fora aqui, onde, tal como em Ur, se adorava a mesma deusa que habitava a Lua, que começara a receber a revelação divina. Depois seguira para sul, porque Canaã era o seu destino. Terá passado por Karkemish, Alepo e Damasco, fixando-se em Siquém. Mais tarde, em tempo de uma grande fome, procurou refúgio no Egipto, que era o sonho de todos os famintos por causa da abundância de colheitas que cresciam nos aluviões do Nilo.

Quando regressou do Egipto, montou as suas tendas perto dos carvalhos de Mambré, junto ao Hebron. E aí ergueu um altar ao Senhor, como antes fizera num monte a oriente de Betel. Um altar vazio. E já então Melquisedec, sacerdote e rei de Salém, celebrara com pão e vinho uma vitória de Abraão contra os inimigos que tinham feito prisioneiro seu sobrinho Lot. E saudara o patriarca dizendo: “Bendito seja Abraão pelo Deus Altíssimo que criou os Céus e a Terra.”

Abraão terá percebido que o seu Deus de algum modo também se ia revelando à inteligência de outros homens de boa vontade. O Deus que lhe manifestara a existência e prometera a protecção do seu povo era, afinal, Senhor de toda a humanidade.

5 comentários:

jv disse...

Daniel, ler o teu belo texto é perceber que abusca de Deus por Abrão, não é mais do qua a nossa busca universal de Deus que não se pode encontrar verdadeiramente nos altares dos outros, mas sim naquele que nos é revelado à nossa inteligência e com o qual nos idendificamos plenamente e nos «completa» como pessoas.
Uma maneira formidável que encontraste, para nos dizer como sentiste a criação do Deus que acreditas e como é de supor de todos os cristãos.
Há no entanto um elemento fundamental, em Abraão,comum a todos os outros deuses, que é o da sua fé que no seu caso, foi aumentando, tornando-se ilimitada com o cumprimento da promessa de Deus. A questão da fé, não atinge de maneira igual todas as pessoas, e no meu caso pessoal,confesso que entra em conflito com uma «suposta» racionalidade que perante factos que me transcendem tão completamente, questionam-me a fragilidade da minha posição no universo e se realmente possa ter alguma importância e significação cósmica, levando-me à consciência da minha superlimitação e até a uma injusta «discriminação.»
Pensar na desproporcionalidade que o extraordinário processo da evolução que fez com que a natureza ao trancender-se criasse da matéria, vida, a qual nos levou ao milagre da consciência que levou o homem a autocompreender-se como pessoa e abrir-se à trancendência de si mesmo,não transformasse essa mesma consciência, numa ilusão total e quase meramente expeculativa, ao percebermos que a sua perda total nos devolve à nossa condição primordial de não sermos, e de que realmente nunca sequer o termos sido alguma vez. Desejar Ser, é sentir esta necessidade de absoluto, «de encontrar um altar no nosso caminho» e de desejar verdadeiramente que «alguém se nos revelasse» e que tivesse« o cuidado de nos dizer de Si» o suficiente para não termos de o questionarmos e de não sentirmos no nosso íntimo, como dizia Alvaro de Campos que «se os deuses têm verdade, guardem-na.»
«O meu Deus» está muito próximo do de Spinoza e a sua possível
racionalização ou algum sentido racional, está como Jean Guitton O relaciona numa entrevista com os Irmãos Bogdanov, cientistas russos, no campo da Física Quantica.
Estas coisas nunca saem como inicialmente, pensamos as escrever e muito menos quando uma quebra de electricidade nos leva um texto já quase todo concebido se vai e o tempo restante não dá mais para o que acima foi dito.
Muito obrigado pelo texto.
Um abraço
José Fernando

jv disse...

Daniel, ao reler o meu comentário , percebo alguns erros como por exemplo especulativa, escrito como expeculativa, foi realmente resultado do já anteriormente explicado. O texto inicial estava um bocado diferente e era um pouco mais linear e mais ligado mas depois com a falta de algum tempo,e querendo dar a minha opinião, escrevi-o um pouco à pressa saindo com ma linguagem mais descuidada.
As minhas desculpas.
José Ferenando

Anónimo disse...

Daniel,

As coisas que se apre(e)ndem neste blog, embaladas pela musicalidade das palavras de um magistral contador de histórias, fazem-nos sempre voltar.

Beijinho

Francisca e Mafalda

Lua dos Açores disse...

Daniel, será este texto que fará a catequese dos meus meninos do quarto ano na próxima Quinta-Feira, espero que não te importes.

Abraço desta que busca Deus nos pintainhos que nasceram há dias, em dois passarinhos pequeninos que pousam e cantam numa árvore mesmo aqui defronte, num pôr de sol fantástico que vi hoje numa nesga entre duas das casas dos meus vizinhos, no gesto dos membros da Fraterna Ajuda que se recusaram a ser fotografados para o Mulheres de Atenas enquanto preparavam a distribuição dos alimentos enviados pelo banco Alimentar, no gesto de partilha da senhora que vem cá ajudar-me a manter a casa limpa e recebeu o seu quinhão de ajuda e repartiu com a vizinha que também reparte com ela coisas que recebe no bidão da América...desta que por vezes anda distraída e não repara que Deus está aqui mesmo à mão de semear cumprindo a promessa de ficar comigo, connosco até ao fim dos tempos.

Daniel disse...

José Fernando
Como é hábito, belíssima reflexão a completar o meu texto. É isso mesmo, amigo, cada pessoa procura um modo de Deus à sua semelhança. Mas, como dizia Berbanos, a fé é a capacidade de resistir às dúvidas.
Mafalda e Francisca
Este espaço fica sempre mais bonito com a presença de vocês. E a minha alma mais alegre.
Ana
...Ou nesta oração do caçador dos índios Choctaw: "Veado, perdoa-me por magoar-te, mas o meu povo tem fome."
Será uma honra para mim, obviamente, usares o texto.
Abraços.
Daniel