domingo, 8 de novembro de 2009

Isaac, a vítima perfeita

(Não pretendo transformar este espaço numa catequese bíblica ou algo que se lhe pareça. Deixo, no entanto, mais esta breve reflexão que pode ajudar a compreender a diferença entre o real e o narrado na Bíblia. E isto sem prejuízo de a história de Abraão e Isaac não ser mais do que uma mera parábola acerca da Fé, o que é a hipótese mais provável.)

Muito crescia o respeito de Abraão pelo Deus que adorava. De Quem ele percebera um dia a declaração de que era o Deus supremo. E terá chegado um momento em que se convenceu de que eram muitos mais os favores que ele e o seu povo haviam recebido de Deus do que aquilo que faziam para Sua maior glória. Era certo que também Lhe prestavam culto e ofereciam sacrifícios. Seria isso suficiente? E se não fosse?... E se Deus julgasse que não recebia de Abraão e da sua casa e do seu povo a veneração que merecia? Que não Lhe eram gratos como deviam por tantos benefícios – pelo sol e pela chuva, pelos pastos e pela saúde, pelos filhos e pelos netos?

Os outros povos sacrificavam aos seus deuses de maneiras variadas. Mas havia um sacrifício acima de todos os sacrifícios. Aquele que decerto amoleceria até o coração mais duro do mais inflexível de todos os deuses. Era o sacrifício de um próprio filho. Abraão pensou que Deus lhe exigia esse limite imenso do sofrimento. Como prova de amor, como pedido de auxílio e de clemência para si e para os pecados do seu povo. Daria desta forma testemunho máximo não apenas desse seu amor, mas também da sua fé. E que seria da sua descendência, que Deus prometera mais difícil de contar do que a areia do mar?... Talvez lhe viesse por Ismael, que Sara quisera ver expulso, com Agar, sua mãe, para que ele não herdasse um quinhão igual ao do filho das suas entranhas.

Abraão chamou Isaac para o acompanhar até aos montes de Moriá. Iria ali oferecer um sacrifício ao Senhor. O menino estranha que levem fogo e lenha mas nenhuma vítima para ser sacrificada. Abraão disfarça como pode a falta da vítima e a dor infinita que lhe esmaga o coração. Decerto que durante toda a caminhada se debate a respeito de aquela ser a vontade de Deus. Se fosse possível, seria ele mesmo que se ofereceria em sacrifício. Pelo bem do seu povo.

Já está pronto o altar para o holocausto. Depois disso, só restarão as cinzas de Isaac. Abraão contempla o filho vivo pela última vez. Dói-lhe mais a visão do cutelo do que se este lhe trespassasse a própria garganta. Então percebe uma voz interior que o manda suster o gesto que seria o último que Isaac veria na sua curta vida. E dá pela presença de um carneiro ali perto, que ficara preso num silvado. Esta vítima bastará ao Senhor. Que não quer nunca sacrifícios humanos. Num momento em que a fé de alguns israelitas se deixará cair na tentação da idolatria, Deus o dirá assim pela boca do profeta Jeremias: “Encheram este lugar com sangue de inocentes, e levantaram o lugar alto a Baal, para, em honra dele, queimarem os seus filhos em holocaustos, coisa que jamais prescrevi, nem falei, nem me veio ao pensamento.”

10 comentários:

samuel disse...

Mais um belo texto.
De qualquer modo, na minha ateia opinião, o problema de muitos dos textos bíblicos é terem deixado de significar seja o que for para a maioria das pessoas, dado retratarem usos, costumes e uma cultura que não têm a menor ligação com a realidade actual... e serem, portanto, inócuos... ou então serem extramamente perigosos, pois não faltam por esse mundo idiotas dispostos a interpretar literalmente tudo o que lêem (ou pensam que lêem) na Bíblia ou no Corão.

Abraço.

jv disse...

Daniel, percebo o que pretendes nos oferecer com esta parábola sobre a Fé.
Tenho imensa dificuldade em conceber este Deus de Abraão, dos Seus favores, dos sacrificios, da Sua necessidade de glória a não ser como parábola da necessidade íntima que sentimos de querermos interagir e de nos relacionarmos com Deus,e como só O podemos conceber ao nível da nossa condição de humanos,criamo-Lo à nossa imagem, e é nesta condição de limitação, que O questionamos.
As respostas dos outros e as nossas aspirações, são sempre insatisfatórias, dada a Sua condição de absoluto e só ao nível da Fé, realmente nos poderíamos sentir mais perto Dele.
Mas no meu caso, como já o afirmei anteriormente, esta «suposta» racionalidade que me persegue, o absurdo da minha existência e esta manifesta insuficiência de fé, são factores que não me deixam alimentar esta enorme fome de Deus e de absoluto.
Os «Actos de Fé» como este a que Abraão se propunha, podem ser inquestionáveis para quem os pratica, porque na sua essência transportam o que de mais puro e verdadeiro lhes vai na alma, mas para mim a sua «irracionalidade» colide com aquilo que sou, e transformo-os o mais coerente que posso em «Actos Éticos» nas minhas vivências com o outro.
E se a Fé realmente «move montanhas» no meu caso, como eu a sinto, teria de remover muito... muito mais do que isso.
Um grande braço.
José Fernando.
.

Francisco Costa disse...

A prática de sacrifícios quer de animais ou seres humanos são características de povos bárbaros, povos esses existentes nos tempos em que decorre a narração bíblica.
Hoje em dia essas práticas não fazem sentido algum. Na maioria das civilizações latinas procede-se à prática das promessas, que de certa forma não são mais do que a realização de um sacrifício (não tão exagerado) em troco de benesses divinas.
O pensamento de que o sofrimento humano auto infligido pode agradar a Deus ainda se encontra muito enraizado nas nossas civilizações.

Anónimo disse...

Daniel,

Nunca perceberemos o que o sacrifício, de uma vida humana, ou outro que seja têm a ver com o amor a Deus. Sempre achamos que Deus está em tudo o que fazemos, principalmente quando o fazemos por amor ao próximo, seja o próximo da espécie que for.

Beijinho

Francisca e Mafalda

Daniel disse...

Samuel
Prefiro pensar nas pessoas que a Bíblia inspirou para o bem. E que são muitas mais do que as que a invocaram para legitimar a sua própria iniquidade.
JV, FC e MF
Vocês tocaram todos no mesmo ponto, o dos sacrifícios. Estes são opções pessoias que a Igreja tenta combater há muito tempo. Mas, como opções pessoais, ninguém tem o direito de impor a sua opinião a quem os pratica.
Quanto aos sacrifícios no Antigo Testamento, esta história quer dizer isso mesmo, que Deus não aprecia sacrifícios humanos, mesmo que não de sangue. A respeito dos sacrifícios de animais, concretamene no Templo de Jerusalém, o animal oferecido em sacrifíco era aproveitado para a alimentação dos sacerdotes e da família do ofertante. Os sacrifícios em que se destruía pelo fogo o animal morto eram muito raros. E são estes os chamados holocaustos. Por isso chamamos Holocausto à Shoah (aniquilação), o extermínio dos Judeus nos campos nazis.
Daniel

lia disse...

A inteligência humana é uma página em branco.Nada sabemos, pensando saber;nenhuma verdade nos é tangível ou palpável.E a Bíblia não nos dá respostas.Aponta-nos caminhos, alguns fantasiosos, outros irracionais, outros fabulosos, em que Deus se manifesta de forma surpreendente.
Mas só a fé nos pode ajudar a fazer as leituras de aceitação ou de rejeição DELE. Da negação é difícil, mesmo os que dizem categoricamente que não acreditam.
Cheguei a uma idade em que a minha forma de estar comigo, em paz, é amar o mais possível:Filha, marido, outros familiares, amigos e os alunos, sobretude os de boa vontade.Tu estás incluído na lista porque testemunhei o teu enorme coração e isso me basta para te amar também.e como tu amas filhos e netos!!!!

PS.AH,gosto mais da tua viagem até Calie

Mar de Bem disse...

Tudo isto que aqui contas, Daniel, faz lembrar a minha infância, em que as estórias que nos contavam eram e apenas as da Bíblia. Eu gostava mais do Velho Testamento, porque me parecia mais fantasioso. Do Novo Testamento abominava a agonia e morte de Cristo.
Desde pequenina pressentia que estas estórias do Velho Testamento eram mais para se PENSAR nelas e NÃO para ACREDITAR nelas.

Realmente aqui, Deus quis pôr à prova o amor de Abraão por quem? Por Deus, permitindo que Isaac fosse sacrificado? Ou o amor de Abraão por seu filho Isaac, levando-o a sentir desesperadamente toda a tragédia que Deus queria infligir-lhe? Ele estaria de bem com Deus? Ele iria na realidade sacrificar o seu filho? A caminhada para o holocausto seria evitável? Tudo o que ele sentiu e pensou naquela caminhada é que é o busilis desta estória. Que sentimentos contraditórios? Que agonia, Senhor!
Quando da sarça ardente uma voz lhe diz para poupar Isaac e em seu lugar Deus lhe manda o cordeiro, que alívio terá sentido Abraão?

(Daniel, a sarça ardente é neste episódio???!!!)

Anónimo disse...

Lia, ninguém consegue imaginar o infinito, tal como não o conseguimos para o nada.
Mar, a sarça ardente é com Moisés.
Abraços.
Daniel

Mar de Bem disse...

Obrigadinha, Daniel! Como vês a minha fantasia levou-me a imaginar que aqui a sarça ficava a matar!!!
Ora essa, porque são assim os artistas?
Gostamos de inventar!!!
É este o nosso pitafe...

BEIJAÇOS, DANIEL!!!

Anónimo disse...

Seria para assar o borrego, Margarida?...
Abreijos, como diz o Samuel.
Daniel