quinta-feira, 17 de setembro de 2009

A vizinha Maria José, o pão



O abraço comovido com o vizinho Manuel Figueiredo, filho da vizinha Maria José, em cuja casa a minha mãe também cozeu o pão. Está paralítico há oito anos, e não nos víamos há vinte e um. (fotografia de Ana Loura)


A primeira vez que vi a vizinha Maria José foi lá pelas bandas de Monserrate, acima de Santana, perto das terras que João Tomé comprou a João da Maia por escritura de 1492, a Roça das Canas, memória que se guarda num dos documentos mais antigos destas ilhas. Só muito mais tarde soube quem foi esse homem, que eu então talvez pensasse que era alguém vivo ou defunto ainda recente, e que dera nome também a uma chã perto da Ribeira do Engenho.

Não sei se minha irmã fazia parte do grupo, mas lembro-me muito bem de estar ao pé de minha Mãe a assistir à conversa com aquela senhora que logo ofereceu o seu forno quando soube para onde íamos morar. Não recordo nenhum outro momento desse dia: nem o nosso espanto, que decerto o tivemos, e grande, ao ver a nossa nova “casa”, nem nada da viagem, antes ou depois. (Nesta espécie de pintura mental observo o cenário aí uma meia dúzia de passos atrás da vizinha Maria José, e vejo-me com a direita agarrada à mão esquerda de minha Mãe.) Do mesmo modo, esqueci a mudança e como foi feita, tal como os primeiros dias de Santana.

Talvez convenha explicar o que era um “vizinho” em Santana. Se a palavra fosse usada com rigor, haveria lá muito poucos porque, além de pequenos grupos de duas ou três casas aqui ou além, eram todas longe umas das outras. Da nossa, que passou a ser a primeira habitada em relação a quem vinha do Aeroporto, até à última havia, para as minhas pernas de criança, coisa de duas léguas, o que, no entanto, deve ser dividido pelo menos por cinco, se se quiser estar perto da verdade. Ainda assim, e alargando-se o povoado por quase outro tanto, umas quatro dezenas de famílias não davam para garantir proximidade que justificasse tratarmo-nos por vizinhos. Mas a amizade justificava. A casa da vizinha Maria José, apesar de ser, num dos tais grupos de três, a mais próxima, tinha a separar-nos um dos nossos pastos e um pedaço de canada. Pelo meio, era preciso passar uma torrente que enchia com as chuvadas fortes, o que, se era o caso quando voltávamos da cozedura, obrigava meu Pai a ter de pegar em minha Mãe ao colo para a atravessar.

Nesses, como nos outros dias, quase sempre nessas noites, vinha connosco o cheiro do pão fresco. E é tão reconfortante recordar este cheiro como o dos nossos filhos acabados de lavar... Mas havia semanas em que, por uma ou outra razão, minha Mãe não chegava a cozer, e então comíamos pão da padaria, o que era para nós, habituados ao outro, o verdadeiro, uma insuperável gulodice. Um luxo maior, no entanto, pois custava por dia pelo menos metade do que meu Pai ganhava.

Creio que até as codornizes se admirariam se por acaso me viam atravessar os pastos sem ser na correria do costume, e os gafanhotos ficariam espantados de não me baterem na testa com a violência habitual. Ou porque ia atrasado para o Externato – o “colégio”, pois era assim que o chamávamos – ou para outro qualquer destino, como o Clube Asas do Atlântico, para ouvir o relato. Mas a cena que vou recordar não foi em tempo de codornizes a fazer ninho nem de gafanhotos a encher o ar de asas e ruídos leves.

Era Inverno no calendário e no tempo que fazia. Eu fora comprar pão à cantina, e trazia-o protegido num saco de lona e, a mim, dentro de uma casaco grosso. Calçava botas de cano, de borracha, para enfrentar os lamaçais de palmo. Vinha a correr, claro, porque ainda tinha o primeiro almoço para tomar, e era preciso mudar de roupa e voltar a tempo da aula mais matinal. Chegando perto do bairro de S. Lourenço, quase a voltar na rua que dava para o primeiro atalho de Santana, encontrei uma jovem para quem se aproximava o dia de ser mãe. Andava a muito custo, com dois sacos nas mãos que pareciam pesar-lhe como uma cruz. Os olhos anunciavam lágrimas prontas a nascer, e ela pediu-me, numa súplica angustiada, que a ajudasse a levar as compras a casa... que depois me dava a esmola, acrescentou, como quem joga a última esperança num grito de socorro. Sem tempo sequer para reduzir muito a corrida, disse-lhe que não podia, que tinha de ir para o colégio. Só instantes depois percebi que ela, pelo traje e pelo saco do pão, me confundira com um pedinte. E, embora aquele pão tivesse sido comprado com o suor de meu Pai, o cansaço de minha Mãe e a ajuda de minha irmã e um pouco a minha também, não fiquei ofendido com a confusão, nem me importou que ela tivesse ou não entendido, pela minha resposta, que eu não andava a pedir esmola. Apenas me pesou imenso que não pudesse valer-lhe, que tivesse tão contados os minutos que um só seria suficiente para me fazer chegar atrasado ao meu encontro com outros caminhos da civilização.

Essa imagem ainda hoje é uma obsessão para mim. Sei que se a jovem senhora tivesse sabido que se enganara decerto ficaria envergonhada e me pediria desculpa. Mas depressa haveria de esquecer o equívoco, ao contrário de mim, que nunca mais deixei de pensar nela. Assim, um sofrimento físico que foi só seu, de que ela com certeza nem se lembra já, passou a fazer parte das minhas memórias, com um sentimento de culpa como se o meu atraso desse dia tivesse sido consciente e um dos piores da minha vida. E nem me conforta pensar que, se fosse mais cedo, eu nem sequer teria visto aqueles passos doridos e ouvido aquela súplica angustiada.

Em dias de grandes chuvadas, meu pai pegava em minha mãe ao colo para passar por aqui.
(fotografia de Ana Loura)

(De A Longa Jornada Até Calie, em preparação)

15 comentários:

Mar-ia disse...

Um gosto é muito especial o meu, andar contigo por Santa Maria.
É um afagar memórias de um tempo, que já não é. Nem o teu, nem o meu.
Digo a verdade e minto, ao afirmar que a ilha é quase uma desconhecida.
Fisicamente, foram dois toques breves, de escala, quando o aeroporto era rota. Outra a presença da Ilha,guardada pela narrativa daquela mulher/senhora, a nossa comum amiga Conceição, que é ainda um sacrário.
Agora a tua respiração perfuma-me os sentidos. É história e memória.
E uma saudade, plena de reconhecimento.

Ibel disse...

As "obsessões" do teu passado, sejam elas com memórias de vento ou de pão,são verdadeiras catarses de um coração que guarda na caixinha do tempo fragmentos da sua pobreza da qual não se envergonha, e que pretextuam estas narrações, exorcismos de demónios que o leitor agradece.

Isabel Biscaia disse...

Caro Daniel,
Uma vez mais consegues expor toda a tua sensibilidade, nas descrições que nos ofereces, sobre os tempos difíceis daqueles anos em Santa Maria.
O ambiente materialmente pobre que se vivia em muitas zonas da Ilha, apesar da sua crueza, tiveram o mérito de te transformar não só numa pessoa riquíssima de sentimentos, mas também altruísta, na maneira de viver e de transmitir as suas emoções: Partilhas com uma grande simplicidade e transparência as tuas vivências, quer as de antigamente, quer aquelas que foste recolhendo nesse teu caminhar que fizeste recentemente pelos lugares que tanto te marcaram e que ainda hoje te inspiram.
É por teres esse dom, essa sensibilidade e generosidade que consegues rodear-te cada vez mais de tantos amigos que te admiram e veneram.
Bem hajas Daniel.
Continuarei sempre presente por estas paragens à procura do rasto da tua luz.
Um beijo
Isabel

Francisca disse...

Daniel,

Todos temos os nossos fantasmas, no nosso "sotão". Uns conseguimos "arrumá-los" melhor que outros, mas o certo é que não desaparecem das memórias de que somos feitos...

Mafalda e Francisca

Ibel disse...

Mafalda e Francisca,

E que tal um texto do Daniel para ser objecto de análise na aula?
Beijos, minhas queridas.

Cris disse...

Ao menino Daniel que mora dentro do meu escritor...Ao atraso que marcou aquele instante,ao instante que marcou o homem.A ilha de tantas instantes e desertos que povoam uma vida de histórias,que de forma fascinante ficam registradas numa história de vida...Reverencio e faço silêncio.
Beijos no coração Daniel.

Daniel disse...

Boa gente amiga
Ontem, falando com o artista que dá luz e brilho aos meus (e outros) trabalhos na minha editora, o Helder Segadães, ele destacou a qualidade dos comentários deste cantinho de amigos. Eu mesmo já o tinha dito. Tenho a sorte de se fazer aqui a continuação do texto da "página", que sai muito beneficiado.
À boa maneira antiga, só digo: Deus vos pague!
Abraços.
Daniel

samuel disse...

Serão mais felizes aqueles que esquecem... ou bem aventurados os de coração doído?
Para onde avança quem olha para trás e não sente nada... nem um leve cheiro de pão fresco?

Abraço.

Mafalda disse...

Consideramos a ideia excelente, Professora do Coração.

Beijos grandes


Mafalda e Francisca

CS disse...

Não são relatos de vida sofrimentos de alma. Mais uma vez obrigado.

CS disse...

"são sofrimentos de alma"

carochinha disse...

O senhor esreve muito bem.

Daniel disse...

Samuel
Pior do que não ter memória é tê-la e não saber pôr cada coisa no seu lugar.
Mafalda e Francisca
Tenho-vos cada vez mais no número dos meus afectos.
CS
Não será bom sofrer com o sofrimento dos outros?
Carochinha
Obrigado. (E não sou "senhor", boa amiga.)

Lua dos Açores disse...

Depois que estive contigo nos momento possíveis durante o teu regresso à Ilha-mãe e te leio aqui (re)vivo ainda com mais intensidade cada momento. Naqueles instantes "ficava feio" deixar que as lágrimas me viessem aos olhos.

Abraço bem apertado, querido AMIGO, é uma benção ter-te assim por perto

Francisca disse...

Daniel,

Obrigada pelas palavras e pelo carinho.


Francisca e Mafalda