quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Manuel Vavô

Manuel “Vavô” não casara, era pouca cabeça para chefe de família, não tinha aqueles carinhos de mulher que ajudam um homem a viver com mais decência: comida a tempo e horas, o calor de uma caminha aquecida por outro corpo também, uns cuidados de águas quentinhas, para lavar as pernas doridas de trabalhar, e álcool aquentado numa lata de lustro posta sobre o candeeiro, como a mãe fazia ao pai em dias de mais estafa; umas sêmeas de emplastro ou pão em vinagre quente, para mazelas de estômago; roupa lavada e corrida para vestir ao Domingo. Nada, andava aos tombos da fortuna e da aguardente, que lhe era sustento e remédio mais que tudo, que lhe enganava tristezas e sossegava desejos. Por isso trabalhava conforme o apetite, mas, se estava em maré de o fazer, era homem de se contar com ele todo. Só não era de fiar para tarefas aprazadas com rigor. Se lhe dava a moleza da solidão, ficava-se por ruas e tabernas enquanto houvesse uns vinténs para aquecer o estômago, que só quando a fome era de mais ele entendia que lhe doía de fome. Numa noite em que ficara sem ceia, Manuel “Vavô” sentiu cheiro de petisco no “café”do José Virgínio, que tresandava a temperos de violentar paladares, apesar de a porta estar fechada por recato dos convivas. Lá dentro só homens de respeito, ainda que capazes de perder tanto o tino na pinga quanto o Manuel que os ouvia nas risadas da festança. Bateu à porta com algum receio e certa expectativa. Veio abrir o guarda Silva, que espalhava bazófias em disfarce de sabido e voz de vogais abertas e sílabas inteiras. Era uma figura que se pretendia imponente, incapaz de um desalinho, rigoroso no cumprir das leis. Viu quem era e mandou que desaparecesse.

(O café do José Virgínio era na primeira casa à direita)

Manuel “Vavô” insistiu. Teimou uma segunda e uma terceira vez, ao menos uma isca e um copinho de vinho. O guarda cansou-se da teima, e para que o outro não porfiasse agarrou num cabo de vassoura e foi-se contra ele. Era mesmo para bater! Manuel “Vavô” fugiu com todas as forças, e o guarda abalou no seu encalço. Subiram a rua da Igreja em correria de fúria e de medo, voltaram à esquerda no Caminho do Concelho, arfaram pelo Penedo fora até à Fonte Velha.

(Troço do Caminho do Concelho referido na história)

Aí, ao entrar a canada, o carro de bois do Guilherme avivou a coragem do perseguido e deu-lhe uma razão mais forte: um fueiro! Pegou nele e voltou-se contra o guarda que não desistia de querer zurzi-lo. O perseguidor deu meia volta, mais veloz que Veloso a fugir do bando negro. Desceram o Penedo num ai, o Caminho do Concelho como dois foguetes, a rua da Igreja como se tivessem lume no rabo. E foi nesse imprevisto de se ter voltado o feitiço contra o feiticeiro que os amigos dessa noite de farra, que esperavam à porta a solução do combate, receberam a salvo, e com chacota dissimulada de um espanto divertido, o soldado vencido pelo argumento da força.

(Penedo)

(Fonte Velha ao fundo no centro)


Do livro Sobre a Verdade das Coisas (esgotado)

Fotografias de Sérgio Lourenço (Setembro de 2009)

16 comentários:

CS disse...

Leitura sempre agradável.Saúde!

Mar de Bem disse...

Ah, como isto me faz lembrar Mestre José "Grilo", no Cais do Mourato, concelho da Madalena do Pico.

Mestre José "Grilo", não sei se foi sapateiro ou carpinteiro. Quando o conheci, rondava os 70 anos e a função dele era pescar para trocar por aguardente. Aguentava-se de pé à custa de tanta aguardente... Devia comer. Talvez comesse...

Tinha a língua afiada. Cantava ao desafio magistralmente e não poupava ninguém, mesmo quem o ajudasse. " Se eu tivesse posses tinha ido para Coimbra estudar, seria um doutor e punha vocês todos num canto" (retirando os palavrões...), dizia ele.

Mestre José "Grilo" era o nosso Manuel "Vavô" . Não sei em quantas tropelias ele se meteu, mas a sua fama cruzou gerações.

Acreditam que tenho saudades daqueles olhos piscos, matreiros, à cata do momento certo para desferir cada arraial de "verdades" incontáveis...? Esperto como ele, não havia!

Ficou-nos a sua imagem brejeira e ridente. Paz à sua alma.

Ibel disse...

Li o primeiro período e fiquei logo com pena do Manuel “Vavô”, privado dos aconhegos de uma família e de uma companhia.Falas de coisas "que ajudam um homem a viver com mais decência",e sente-se a estrutura de um homem/escritor que é um marido e um pai que ama muito e é apaparicado como o "filho mais novo da casa.
Ah, Daniel, que bem atiras a vida para o papel, sem te perderes com banalidades que a ela nada aproveitam.
Beijo, "poeta de Deus"

Anónimo disse...

Daniel,

Um texto com Alma e a Alma num texto, carregado de memórias sempre tão sentidamente reveladas.
Ah, é claro que torcemos pelo Manuel "Vavô" ladeira abaixo...

Mafalda e Francisca

PS Parabéns ao fotógrafo de tão belas fotos, todas elas dão a sensação de 3D.

jv disse...

Ao menos aqui Manuel Vavô, tem alguém a torcer por ele, coisa que ao longo de toda a sua vida,raramente aconteceu.
A atitude do guarda, uma autoridade, demonstra, a verdadeira condição como Manuel Vavô («pouca cabeça») era considerado, como se fosse outra coisa, que não um ser humano, o que também lhe valeu não ter sido punido, por ter enfrentado um guarda.
O Daniel apresenta-nos aqui, mais uma das suas personagens tipo, de carne e osso,claro,das muitas que sempre andaram «aos tombos» na vida, que não devido à aguardente.
A dimensão do Daniel, torna-nos únicos pela possibilidade que nos dá de partilharmos estas vivências com o mundo, elevando a Maia à condição de especial.
Mas realmente «especiais» foram todos os outros lugares...
Um abraço.
José Fernando.

samuel disse...

Estas memórias são como canteiros de flores do passado que vão desabrochando à nossa frente...
Politizando, "os que lutam podem não vencer... mas os que não lutam, perdem sempre."

Abraço.

Daniel disse...

CS
E vale sempre a pena saber que apareces por aqui.
Mar
Em todas as terras há um Manuel "Vavô" com a sua filosofia de vida muito própria. Há alguns que nos dão lições de sabedoria que nem sonhávamos serem possíveis.
Ibel
Pois esse lado triste da vida do Manuel "Vavô" e de muitos outros é que é mesmo... triste e nada poético.
Mafalda e Francisca
Se o Manuel "Vavô" ainda fosse vivo, eu iria de imediato dizer que vocês tiraram parte por ele. Como nós todos, creio eu. E ele iria ficar feliz.
JV
Que bom que é ter-te por testemunha destas histórias. Com um testemunho indirecto, muitas vezes, porque apenas de ouvir contar, como eu, mas muito importante embora exagerado na apreciação.
Samuel
O Manuel "Vavô" tinha uma faceta curiosa: não tinha dono! Uma vez fora contratado para trabalhar por conta do Sr. Augusto (ou Agostinho) Quental. Mas este acabou por lhe dizer que ele iria era dar o dia com outra pessoa. O Manuel Vavô entendeu que não estava certo, que iria se quisesse. O Sr. Agostinho tinha uma taberna, e foi lá o diálogo. O Manuel pediu um "calzins" de cachaça para pensar melhor. Indeciso depois de o beber, pediu outro. Continuou a meditar no assunto. E decidiu-se por um terceiro. Depois deste, bem pensada a questão, disse que não ia e pronto.
Foi para casa e fez muito bem. Ah, e não pagou a aguardente.

nela disse...

Costumo vir ao Espólio mas não comento mas como a prof diz que devemos perder o medo quero apenas dizer que gosto muito das sua escrita e das suas personagens e que gostei do seu poema de Natal.

Mar de Bem disse...

...tás a ver, Daniel, como eles são espertos?

(adoro a maneira como escreves o cálicezinho!!!)

Daniel disse...

Nela
Esteja à vontade. É um grande prazer saber que não se escreve para ninguém, que há gente atenta do outro lado do ecrã.
Um abraço, com o meu reconhecimento.
Mar de bem
Estes tipos assim, descomprometidos, sem convenções a respeitar, tinham, ou têm, cada uma!

Cris disse...

Meu querido Daniel
Que delícia!
Amei as cores e a melodia que destes ao Manuel vavô,e a candura com que descrevestes sua solidão.
Ah como é gostoso ver as fotos da Maia,e desenhar naquelas passagens que tanto amo,os passos ligeiros de Manuel vavô fugindo de uma forma divertida com sua solidão,por ter roubado a tolerância do guarda.
Fantástico Daniel.

Ibel disse...

Cris, que bom ver-te por aqui.Já estava a ficar preocupada.Esta é a grande vantagem dos blogs.As pessoas podem-se juntar e conversar como numa sala de visitas de uma enorme casa.
Fico á espera de novidades.
Entretanto toma lá um beijo.

Anónimo disse...

Adoro ler estas histórias. Com gente verdadeira. No estilo escorreito,de grande qualidade literária a que o Daniel nos habituou. Lembra-me «O Pastor das Casas Mortas». Já agora, sempre lhe conto que, sendo o meu filho muito exigente nas leituras, referiu-se a este livro com os maiores elogios.Conte com ele como um leitor para obras futuras - ou para as que já foram publicadas...

Grande abraço.

Sol

Daniel disse...

Cristina, Isabel, Soledade
As vossas palavras, diria mesmo os vossos afectos, são um bálsamo refrescante que vos agradeço sensibilizado.
Abraço-vos, reconhecidamente.
Daniel

mizé disse...

Desconhecia o seu blog.A rádio e a net são um mundo.escrita suprema como referi no blog da Ibel/Lia/Isabel

Daniel disse...

Mizé
Bem-vinda, amiga. E digo amiga porque os amigos dos amigos são nossos amigos. E, por intermédio da Lia, todos os que vêm são boa gente, sem dúvida, como aliás se prova pela sua mensagem.
Posso deixar um abraço?
Daniel