terça-feira, 8 de setembro de 2009

Vento


Esta viagem fisicamente custou menos, porque não havia baldes de água a transportar...
(fotografia de Ana Loura)

Como eram pobres os pobres naquele tempo! Havia os que nunca se deitavam com fome nem dormiam com frio, e os que muitas vezes não tinham pão para a ceia e vestiam chita e caqui mesmo no Inverno.

Em Santana existiam três fontes: uma perto do poço da ribeira onde as mulheres lavavam a roupa, outra no meio do povoado e uma terceira lá mais para baixo, onde a ribeira começava a despedir-se da gente para completar a viagem até aos Cabrestantes.

Íamos buscar água a qualquer das duas primeiras fontes, porque a distância era a mesma, embora para a que ficava no meio de Santana não fosse preciso saltar quatro ou cinco muros. E era nela que havia o bebedoiro para o gado. A nossa mula era teimosa como sói dizer-se da espécie, dava sempre dois pares de coices no ar quando a montávamos, mas depois obedecia mansamente. E não precisava de ser conduzida até à água, porque ia beber por sua própria conta sem demorar mais que o necessário nalgum tufo de erva inesperado e raro. Mas, se a distância não era muita, o peso da água a chocalhar nos baldes parecia torná-la longa, longa, porque as forças estavam ainda longe de ser de braços adultos e fortes.

Ricardo de Mesquita, brasileiro da ilha de Santa Catarina, imaginou o vento sul, visitante habitual de Florianópolis, a falar assim: “Acho que vou ficar mais um pouco aqui. Talvez arme um redemoinho para encontrar, na esquina do Trajano, as meninas do colégio Coração de Jesus. Saias plissadas, rodadas, que sempre levanto ao passar. Algumas gostam. Disfarçam, mas gostam... // Os garotos que ficam encostados na outra esquina, a de Jerónimo Coelho, // aplaudem minha passagem. Enfim, alguém gosta de mim!” Vem num livro que reúne as crónicas premiadas no concurso Franklin Cascaes, e ofereceu-mo a Lélia Nunes, também ela vagamente insular, porque descende de açorianos de há dois séculos e meio e Santa Catarina está à distância de uma ponte do continente.

O padre Artur queria fazer de cada um de nós um santo à sua imagem e semelhança. Certa vez pregou muito magoado contra as fotografias de bailarinas quase nuas no Carnaval do Rio, mostradas na revista “O Cruzeiro” a páginas meias com imagens de Cristo derramando sangue por causa dos nossos pecados. E, quando havia documentários, ou mesmo algum filme de longa metragem no Atlântida Cine, para os alunos da catequese, ele ficava na cabina de projecção pronto a fazer censura “ad hoc”, tapando com a mão a lente logo que aparecessem umas pernas femininas com vista acima do joelho. Mas nada podia contra o vento...

É juntando tudo isto que fui dizendo, como conversa da tua avó Maria do Carmo, sem fio aparente mas a fazer sentido lá mais para o final, que chego aonde queria chegar.

Mas espera... ouve, meu Amor... Este vento hoje está frio. E eu na fonte, atrás dela, à espera de que acabe de encher a lata. Não lhe sei o nome nem lhe lembro a cara. Mas veste roupa leve, saia talvez de chita, que usou no Verão e há-de usar no Inverno entre uma barrela e outra. Mora mesmo ali ao lado, não tem de ir longe por água. O vento é frio mas bonançoso. E, de repente, dá-lhe na gana um sopro mais forte. Levanta a saia dela até à cintura. As suas mãos, em aflição, não acodem a tempo de impedir que fique à mostra, por instantes, a nudez absoluta por debaixo da saia. Dá meia volta, envergonhada, e foge a correr para casa, deixando a lata na fonte.

Não era uma bailarina daquelas que o padre Artur transformava em sombra. Não era uma sambista carioca que quase se despia por vontade própria no calor tropical. Era uma rapariguinha a quem a roupa escondia mal a sua intimidade, e quase nada protegia do frio que vinha no vento. Se fosse pintor, faria dessa imagem fugaz um quadro sobre a pobreza. Sinto-me triste, neste hoje de há muitos anos e neste hoje de quando escrevo. Estou tão triste na fonte, a encher o meu balde, como ela na sua vergonha.

(Do possível livro de memórias contadas a minha mulher, Maria Alice: A Longa Jornada Até Calie)

23 comentários:

Mar-ia disse...

Outros ventos, ou talvez calmarias de verão, me deixam menos tempo para uma saudação. Mas Daniel, passo sempre por aqui.
E sempre bebo água fresca e gostosa. E que "lindura" de texto e de assunto tão profundo, nos deixas aqui à reflexão!
O vento que nos molda o corpo, e nos leva em viagem, transportou-te para esta narrativa tão sublime, quanto crua, onde retratas o preço da pobreza.
E ainda estás triste a encher o teu balde?
Não porque queiras mais talento, nem pelo desalento de não seres pintor. Eu sei que a tua tristeza não é da falta de jeito para os pincéis. É de inconformismo.
É de saber que há ventos, muitos ventos, que não calam desgraças. E que abrigo, não temos todos.
Deixa-me dizer-te: não é de somenos ter este agasalho de palavras.
Não há passividade que não se agite ao pegar nesta tela.
Estamos à espera de mais memórias. E que sejam “possíveis”

antónio joão disse...

Também havia ventos à saída do liceu,tempo em que havia poucas saias. Uma consolação para os olhos depois de aulas severas.
Agradou-me o texto.

samuel disse...

Grande texto!
Esse tipo de tristeza, pelos outros, é a que nunca mais nos larga... mas como escreves na frase aparentemente tão simples, em que resumes décadas de luta contra o obscurantismo miserável que nos esmagava, coisa alguma nem ninguém "podia nada contra o vento".

Abraço.

Daniel disse...

Mar-ia
Há coisas que se nos pegam à alma e nela ficam para sempre, sem remédio. Por isso a metáfora praticamente não o é, porque, de cada vez que me lembro da cena, fico triste a encher o meu balde, sim.
António João
Um vento atrevido numa saia descuidada pode produzir uma cena agradável ao olhar. Naquele caso, foi triste, triste.
Samuel
Pode não parecer coisa de lutador, mas o sentimento que mais me afligia, e a que me obrigavam os "ventos" que naquele tempo vinham de São Bento, era de vergonha.

CS disse...

"Se fosse pintor, faria dessa imagem fugaz um quadro sobre a pobreza". Também eu.

Cris disse...

Daniel
Se eu fosse pintora,esse texto seria a imagem do quanto é possível ser grande e densa, a alma de um homem.
Não é possível comparar formas e cores no bordado dessas palavras repletas de imagens."Enxerguei o vento".
Um grande beijo nesse coração

Mar de Bem disse...

"Sinto-me triste, neste hoje de há muitos anos e neste hoje de quando escrevo."

Daniel, passaste-me a tristeza...e não há pincelada tão triste como as tuas palavras...Pintaste como ninguém!!!

E triste, triste, daqui o vento te leva um beijo, meu precioso Amigo.

jv disse...

«Não lhe sei o nome nem lhe lembro a cara.»
Porque foram muitos os nomes e as caras «que se nos pegaram à alma e nela ficam para sempre, sem remédio»
Ouve os comentários e vê como estamos todos «tão tristes na fonte».
Pudesse a rapariga saber que nos deste a possibilidade de verdadeiramente partilharmos com ela a sua pobreza.
Um abraço a todos.
José Fernando

Mafalda disse...

Daniel,

O que pensaria a rapariga, cujo nome e rosto desconhece, ao ler tão bem pintado quadro?
Queremos acreditar que talvez a sua vergonha lhe fosse menos pesada, ao saber que alguém ficou solidariamente triste perante o seu embaraço.


Mafalda e Francisca

Mafalda e Francisca

Daniel disse...

Minha boa gente amiga
Apeteceu-me terminar aquele relato, rigorosamente verdadeiro, imaginando a rapariga emigrada e rica nos EUA ou no Canadá.
E, se agradeço os vossos sentidos comentários, confesso que de bom grado trocaria a possibilidade de ter escrito esta história pela minha não ida à fonte àquela hora ou pela ausência da rajada de vento.

Ibel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ibel disse...

Ibel disse...
Tenho o computador de casa avariado desde ontem, motivo pelo qual só hoje faço o meu comentário, num computador da escola. E quero estar incluída nessa "tua boa gente".
Gostaria primeiro de realçar a estrutura do texto.Fabulosa,original, Daniel,impulsionadora de expectativa até ao final.Este é um dos teus melhores textos,tão impregnado de memória pura e sincera, que apetece pedir a um pintor que a perpetue na tela.Só a imagino em pinceladas impressionistas.E que quadro!
A pobreza em dias de vento era também sempre muito triste para os meninos de Milhazes, aldeia onde a minha mãe era professora.
Hoje é um enorme abraço para o menino que ia buscar água, desconhecendo talvez a grandeza que o esperava dentro e por causa dela.E não só.

Eduarda disse...

Meu bom amigo Daniel,

Tens um espólio na alma espantoso...!Sim,espantoso!
Há vários tipos de vergonha:a vergonha mais leve,a mais «deixa lá» e há aquela que nos deixa marcas indeléveis,que o «vento» não conseguiu levar e a água lavar.Eu,como mulher,ao percorrer esta imagem que entranha na alma dos sentidos ,imaginei-me, de repente,na pele da pobre rapariga e da rapariga pobre,indefesa perante o «inimigo»,lívida ou ruborizada ao extremo.É como se um raio nos fulminasse!Imagino também o embaraço dos que observavam a situação ali vivida.
O que as vítimas da pobreza passavam (e ainda passam) quando os ventos teimam em ser frios...

Lua dos Açores disse...

Como eu gosto de te ler apesar ou talvez porque me deixas muda. Obrigada

Beijo, querido amigo

Mar de Bem disse...

Daniel:

Graças a Deus que foste à fonte; graças a Deus que o vento se alevantou quando lá estavas; graças a Deus que foste testemunha deste drama; graças a Deus que tu és um HOMEM BOM; graças a Deus que consegues transmitir em palavras o grande drama que testemunhaste; graças a Deus que aqui estamos, cientes da nossa pequenez, bebendo tudo, tudo o que nos dizes. Porque todos nós sabemos o quanto de pudor é necessário para perceber e sentir o drama desta menina e, além disso, o teu drama Daniel, que guardaste dentro de ti, durante uma eternidade, tudo isto. Exorcisaste esta lembrança tremenda, neste texto extraordinário. Ninguém consegue passar ao lado. Ninguém consegue abstrair-se de toda esta intensidade dramática.

Eu estou de rastos!

Carla Gomes disse...

Acoselhavam-me este blog porque gosto de ler o que tem préstimo.Fui-me fazendo leitora silenciosa do Espólio e só falo hoje porque a comoção da leitura foi superior ao meu silêncio.

Daniel disse...

Queridas amigas Isabel, Eduarda e Ana
Vocês deixam-me sem palavras. Para as três, o meu reconhecimento, embrulhado num forte abraço.
Carla Gomes
Um testemunho como o seu é do mais animador que se pode ter. Oxalá que, se continuar a aparecer por aqui, eu nunca a desiluda.
Posso enviar-lhe também um abraço?
Daniel

antónio fidalgo disse...

Quando eu era pequenino, na minha Murtosa infantil, os pobres vinham à porta dos remediados pedir esmola e rezavam durante o tempo que demorava a chegar o óbulo. Eu era muitas vezes o portador do pequeno alívio para aquelas necessidades! Mantenho um respeito enorme por aqueles que têm que estender a mão para terem direito a algum pão! Um abraço, Daniel, pelas boas memórias que fazes surgirem com os teus textos e pelos bons sentimentos que nos semeias na alma!

Daniel disse...

Ora viva, António Fidalgo! Que bom foi tê-lo tido cá pela Maia (ah, e naquela tarde magnífica na Caloura) e agora neste cantinho da boa gente que aqui se reúne.
Um abraço açoriano, saveiro e minhoto.
Daniel

lia disse...

Daniel,

Aumentei a foto, que considero muito segestiva,porque a postura do corpo e, sobretudo a das mãos, é a de quem carrega baldes. Que interessante.Repara bem.

Mar de Bem disse...

Não é que tens razão?
Eu acho que todos nós temos "rictus" ancestrais. Não há é quem tope!!!
A minha Mãe tinha um porte de rainha. Sabes porquê? De acarretar, à cabeça, vasilhas de leite ou molhos de lenha. Nenhum dos filhos lhe herdou o porte...

Daniel disse...

Lia/Mar
Eu nem tinha pensado nisso, naturalmente. Calhou... Mas vocês têm olhos de... artistas. E de amigas atentas.

Anónimo disse...

Que esse «possível livro de memórias» venha a ser uma realidade. É sempre um gosto enorme lê-lo, caro Daniel. Acabo por ficar a conhecer melhor o povo Açoriano. Faz-nos ficar amigos de quem descreve - embora por aqui os «retratos» sejam idênticos...Tudo depende do autor e de como escreve. O seu caso é exemplar. Fico à espera de mais!

Abraço da Sol