quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Os junquilhos de Monserrate


(Meio século depois, a árvore crescera muito, mas ainda havia junquilhos no mesmo lugar. Foto Pepe)


Não me confundo na ilusão de claramente ter visto num Natal o que vi  porque muito desejava ver. Sei como o sonho entra livremente pela verdade dentro, naquela idade em que a fronteira entre a imaginação e os olhos não tem fiscais. Mas nesse Natal eu vi. Terá sido o dos meus quatro anos, e o Menino acabara de deixar junto à lareira um pequeno Dakota de plástico, em cujas asas haveria de voar todas as distâncias. Olhei pela chaminé ainda a tempo de um vislumbre de maravilha: a sua perninha esquerda, rechonchuda como a de um ingénuo Murillo, escapava-se rapidamente, na pressa de atender outras crianças. Ninguém foi capaz de me dizer que era mentira. E ainda hoje, apesar de saber que não podia ter visto nada mais do que as paredes negras da chaminé, tenho na memória, nítida como a das coisas mais reais, a forma e a cor exactas dessa imagem fugaz.


Mas, quando comprei um pião ao Leonardo por cinquenta centavos – valor que ele me fiou, fiando-me eu em que meu Pai mo daria –, aconteceram coincidências que ainda me parecem demasiadas para não terem resultado daquele acaso de que alguém disse ser o nome que às vezes damos a Deus. Tão outros tempos eram esses que meio escudo, para uma criança, era uma pequena fortuna. E mesmo para os adultos, que nem sempre o tinham. Por isso não te admires de eu ter receado não arranjar com que pagasse ao Leonardo. 


Quando meu Pai me deu o dinheiro, guardei-o na algibeira, sabendo que podiam passar-se vários dias, mesmo semanas, sem que encontrasse o meu credor, um amigo que eu raramente via. Fui à cantina do Aeroporto fazer compras e, já perto da capela de Nossa Senhora do Ar, dei com um mendigo da Vila sentado no murinho de protecção do aqueduto que atravessava a estrada vindo da mata da Secretaria. Não hesitei um segundo na intenção de lhe fazer esmola com a tal minha pequena fortuna que, na verdade, nem sequer me pertencia. E o curioso é que eu tive a certeza de que o problema criado por tão espontânea boa vontade se haveria de resolver... Não sei porquê, nem sei esperando o quê, mas tive-a. Se fosse meu feitio jurar, jurava isto por ti, Calie.


Ao passar na casa desse santo que foi o padre Artur, a irmã, que estava em roupa imprópria para sair à rua, pediu-me para lhe comprar uma caixa de fósforos, que custava quarenta centavos, na cantina, que era do outro lado do caminho. Trinta, trinta e cinco passos não apressados, talvez, de porta a porta. E deu-me, como recompensa pelo insignificante favor, exactamente cinquenta centavos, que era o dinheiro branco mais pequenino e que sempre gostávamos de ter, pelo menos esse, para deitar na bandeja quando se beijava o Menino no fim da Missa do Galo. Em outras circunstâncias provavelmente teria recusado, e não me lembro de ninguém me ter dado nunca uns dez centavos sequer por um recado, durante os treze anos que vivi na Ilha-Mãe. Regressei a casa pelo caminho menos habitual, que era o mais longo antes da sucessão de atalhos que levavam a Santana, e que normalmente só escolhia quando ia pedir o Cavaleiro Andante ao José Guilherme. Contra as minhas expectativas, porque não era habitual vê-lo por essas bandas, encontrei o Leonardo e paguei a dívida.


Menor importância terá tido para mim um outro caso, mas que pode até ser de mais poética ingenuidade. Numa tarde de vinte e quatro de Dezembro, entrei na capela e vi que ainda ninguém tinha trazido flores para enfeitar o altar. Disse à irmã do padre Artur que sabia onde encontrar daqueles junquilhos amarelos que cheiram mesmo a Natal, e fui a correr para a mata de Monserrate, porque tinha visto uma moitazinha deles em frente da ermida. Que desilusão, meu Amor... Não havia nem um. E sabes o que fiz? Ajoelhei-me a rezar à porta de Nossa Senhora para que alguém encontrasse flores e as fosse levar para a festa do nascimento do Seu Filho. Quando voltei, havia já, ao lado do altar, um braçado de junquilhos mais ou menos como o que eu pensara poder trazer de Monserrate.


(Os junquilhos de Monserrate seriam para o altar que havia no lugar deste, antes do incêndio que destruiu a capela de Nossa Senhora do Ar. Fotografia de Ana Loura)


Não penses que recordo estas coisas como actos de bondade ou de uma fé admirável e simples, a fé dos pequeninos, que eu mesmo tenha praticado. Foi há tanto tempo, que essa criança inspira-me mais ternura que saudade. Vejo-a como se não fosse eu, acompanho-a nestas recordações como se a seguisse de perto ou estivesse parado atrás dela. Neste preciso momento acabo de voltar da mata de Monserrate sem lhe ter visto a cara. Mas reconheço, Calie, que se alguma coisa boa ficou em mim foi porque dela aprendi. E se é certo, meu Amor, que terei o cuidado de dizer-te o mais possível coisas boas, não é para que pareça a teus olhos que fui sempre um puro, mas para que o penses do mundo onde vivi, porque a literatura já tem demasiadas páginas cheias com o mais feio que há em nós. Mas, se em algum momento imaginares que andei triste – e talvez seja verdade – lembra-te de que esta história tem um final feliz.


(Ficou linda, a ermida, mas os meus junquilhos não voltarão a florir. Fotografia de Ana Loura)


(De A Longa Jornada Até Calie, em preparação)

20 comentários:

samuel disse...

A jornada até Calie pode ter sido longa... mas vê-se que valeu cada passo...

Abraço.

Lua dos Açores disse...

Daniel, os teus junquilhos são lindos e cheiram ao Natal que deveriamos ter e fazer a cada dia. O Menino já não nasce, nasce a Coca-cola e o consumismo na figura de um São Nicolau de centro comercial, coitado do santo, o que sentirá na eternidade ao ver-se na figra em que o tornaram. A fotografia do interior da nossa capela está torta, não pensei que a usasses senão tinha-a endireitado (risos).

Abraço com o carinho da nossa amizade.

Francisca disse...

Daniel,

O valor que tinham "cinco tostões", naquele tempo... e mesmo assim não hesitou em presentear um desconhecido, com a firme certeza que tudo se haveria de resolver, como aliás acabou por acontecer.
Ajuda divina ou pura coincidência?

Um abraço, ao menino de coração de ouro

Francisca e Mafalda

Daniel disse...

Samuel, podes crer que sim, meu Caro. E continua a valer.

Ana, deixa lá. É pior quando a Igreja está torta, e não uma igreja ou uma ermida.

Francisca e Mafalda, confesso que não me atrevo a pensar que Deus Se tenha preocupado comigo a esse ponto. O certo é que a gente muitas vezes se revolta contra a Sua aparente ausência do Mundo, mas nem repara quando Ele talvez dê um jeitinho.
Abraços.
Daniel

jv disse...

Daniel, acredito perfeitamente que vislumbraste o Menino e para isso se necessário fosse serviria de tua testemunha sem levantar falsos testemunhos, pois também para mim foi Ele a coisa que mais verdadeiramente acreditei em toda a minha vida e a prova para isso é irrefutável, pois naquele tempo,este tipo de brinquedo só poderia mesmo ser de origem divina...
Um abraço.
José Fernando

lia disse...

Daniel,

Há um equívoco naquilo que afirmas.É que tu não estás atrás da criança, nem estás parado atrás dela.Ela é que está dentro de ti e eu pude confirmar isso no pouco que presenciei quando estivemos juntos.
Há uma inocência e bondade naturais nos teus gestos e na tua voz.Por isso é que a «sestinha» é tão importante, por isso é que as visões do menino de pé rechonchudo a sair pela chaminé não são ficção,mas pura realidade de quem viveu intensamente uma infância em que as coincidências de tostões não foram por acaso.
"E fé admirável" são estes textos que nos fazem acreditar na trancendência do homem que não abdica do espírito para respirar.
OBRIGADA.

Isabel Biscaia disse...

(1ª. de 2 partes)

Daniel,
Uma vez mais, vim ao teu encontro, para, através das tuas palavras, redescobrir também as minhas memórias de Santa Maria. Reencontrei-me, novamente, através da luz com que imprimes sempre as tuas descrições, tão nítidas e pormenorizadas. Foi, como sempre tem acontecido quando leio os teus textos, com uma enorme facilidade que consegui transpôr as já longínquas décadas que nos separam desses tempos que, apesar de terem sido nesse momento tão difíceis de superar, permitiram que essas vivências, com a força do nosso querer, ficassem solidamente registados no nosso âmago.

Daniel, vou-te confessar um segredo: Fui comprar poejo (aqui é preciso comprá-lo) para fazer um chá e voltar a ler estes teus últimos registos. Com o sabor e o cheiro do poejo, a minha viagem sensorial a Santa Maria desses anos verdes, foi bem mais completa e nítida. Faltou-me fechar os olhos. Acho que se os tivesse fechado, o meu regresso se teria concretizado no sonho, de tão verdadeiro que se tornara.

Falas nos nossos Natais... eram fantásticos. Eu não consegui ver o Menino, como tu, nem sequer de fugida, se bem que o esperasse com uma enorme ansiedade, tal como tu, ou as outras crianças de então. Com uns dias de antecedência, quando começávamos a preparar o presépio que deveria ficar pronto no dia 13 de Dezembro, dia de Santa Luzia, já a azáfama era grande. Todos os anos íamos coma minha Mãe, a Santana, através dos pastos, pelos carreiros que partiam mesmo por detrás da minha casa, para apanhar o musgo com que iríamos fazer o presépio, para que este pudesse ter o requinte necessário para receber o Menino com as honras a Ele devidas.

Nesses tempos, paralelamente ao Natal religioso, já existia a figura do Pai Natal que tantas vezes foi representado pelo Sr. João Pimentel, que nas manhãs do dia 24 de Dezembro, chegava ao Aeroporto de Santa Maria, no Sata, onde era esperado por tantos meninos em alegre algazarra e excitação. Esta festa era preparada por nós, personagens desses episódios fantásticos que hoje recordamos, até ao ínfimo detalhe, pois tínhamos que escrever uma carta que seria entregue em mão ao Pai Natall, com o pedido dos presentes tão desejados.

(continua)

Isabel Biscaia disse...

(2ª. de 2 partes)

...
Tal como tu, eu guardo uma memória especial que até hoje me parece verdadeira. Os anos que passaram não conseguiram desmentir o que eu “vi”: A minha Mãe costumava deixar (a título de cenário) na noite da véspera de Natal, uma bandeja com uma garrafa de Vinho do Porto e um cálice, em cima da mesa da casa de jantar, não fosse o Pai Natal apetecer-lhe um gole reconfortante para o ajudar nessa caminhada enorme por todas as chaminés, quando visitasse a minha casa...

Numa manhã de Natal, depois de ter ido à chaminé ver os meus presentes, reparei que na bandeja estava um cálice sujo de Vinho do Porto e ao lado, um bocadinho de papel que tinha pertencido ao envelope da carta que eu tinha dado ao Pai Natal na véspera. Fiquei em êxtase! Ele tinha lá estado, tinha lido ali a minha carta! Ninguém me tirou da ideia que era verdade. Ele afinal existia.

É fantástico termos podido ser crianças nesse tempo e termos podido viver plenamente a nossa ingenuidade e as nossas fantasias. Ainda hoje, ao recordar essas vivências, me delicio.

Mas tu, Daniel, para além daquele menino que nesse dia de Natal queria ter os seus brinquedos tal como nós, os outros meninos de Santa Maria (tu tiveste o teu Dakota e eu o meu pequeno piano de madeira pintado de azul), foste também aquele Daniel que muito cedo já mostrava a boa alma, a simplicidade e a generosidade que ainda hoje te caracterizam e que tão bem nos mostras na tua obra.

Com os teus cinquenta centavos, preferiste ajudar quem deles necessitava, sem sequer hesitar e pensar duas vezes que também eles te eram precisos. No teu íntimo, já sabias que Deus, ou neste caso o teu Menino Jesus, não te iriam faltar quando chegasse a tua vez de precisares de ser ajudado.

Bem hajas, Daniel, por seres quem és e existires no mesmo mundo que eu.
Um abraço para ti, meu amigo. Gostei de viajar no tempo contigo e com o “teu” chá de poejo.

Até breve,
Isabel

Daniel disse...

José Fernando
Nesse Menino continua a valer a pena acreditar, sem dúvida.
Lia, é a sério que digo que lembro essas cenas quase como se não tivessem acontecido comigo. E o que mais estranho é a convicção praticamente absoluta de que depressa iria "reaver" aqueles $50 que me dispus a "emprestar" a Deus. Não sei como, mas foi isso que senti. Pura coincidência, terá sido, mas às vezes precisamos de acreditar que há algo mais que acasos e coincidências.
Isabel (Biscaia)
Sinto tudo isso, querida amiga. E o atalho que passava por trás da tua casa passava quase colado às paredes da minha. A Durana, a nossa cadela, não abria a boca nem se mexia contra quem por lá passasse, ou por um outro atalho que vinha dos lados do Asas e da Bela Vista. Mas bastava alguém saltar um muro fora do atalho ou desviar-se dele nem que fosse meio metro, e ela fazia um baruhão levado da breca. Nas nunca mordeu ninguém nem ameaçou fazê-lo.
(Tornou-se quase lendária, esta cadela... Ainda nesta minha visita a Santa Maria, meio século depois da morte de meu Pai, houve quem me falasse dela!)

António João disse...

Curiosa a maneira simples como escreve sobre coisas aparentemente triviais.Gosto bastante.

Cris disse...

As interrupções na leitura do texto são por conta das vezes que os olhos não conseguiram conter a emoção.

Daniel disse...

António João
Bm disse o Miguel Torga: "A vida é feita de nadas..."
Cristina
Pois é, com esse teu coração de alma...

Lua dos Açores disse...

Cruzei na rua há dias com o filho do Leonardo. Falámos de ti.

Beijo, querido AMIGO

MaesDoc disse...

Daniel
Sabes bem que me perco no Torga e é para ele que regresso sempre, quando quero compreender melhor o meu país e as suas gentes.
Há dias li dele " Sei que não há palavras para certas horas.Que só o puro silêncio pode estar à altura dos puros sentimentos".
É assim que fico ao ir lendo esta tua Jornada até Calie.
Manel Estrada

Mar de Bem disse...

Daniel, tu viste mesmo a perninha rechoncuda do Menino Jesus e afianço-te que é verdade.

Naquele Domingo eu e minhas irmãs não fomos à missa. Meu irmão, não me lembro. Era tanto o vento que, ficar na cama, era um luxo a não desperdiçar. De repente eu vejo na parede do quarto a minha Mãe e meu Pai saindo da Igreja. Eu vi! Eu vi!
Disseram-me que eu estava sonhando...
De vez em quando, já mulherzinha, falava do assunto, auscultando as sugestões e opiniões de várias pessoas. Até que alguém um dia me explicou o que era. Parece que eu queria tanto que os meus Pais viessem para casa, que o meu sub-consciente (inconsciente?) projectou a imagem que eu tanto queria: a imagem de meus Pais!

Eu não podia supôr o grande poder da mente. O poder de conseguir projectar imagens, como se de um filme se tratasse. E parece que é explicado cientificamente, como a telepatia. Extraordinário!!!

Por isso, Daniel, tu viste mesmo a perninha rechonchuda do Menino Jesus! Tu querias tanto...

Daniel disse...

Ana, só há pouco tempo é que eu soube que o Sérgio era filho do Leonardo. Ele esteve aqui na Maia, e disse-me que era de Santa Maria. Perguntei-lhe de quem era filho, e ele respondeu-me que eu com certeza não tinha conhecido o pai. Imagina a sua surpresa (e a minha ao ouvir a sua resposta) quando lhe disse da amizade com o Leonardo e lhe contei esta história, que prometi enviar-lhe, o que já cumpri.
Manel, o Torga! Basta-me ter um leve cheirinho dele, e sinto-me realizado.
Margarida, é isso, sim. Se eu fosse pintor, seria capaz de pintar a cena rigorosamente como a "vi".
Abraços.
Daniel

Anónimo disse...

Caro Sr. Prof. Daniel,
(Pai do meu amigo Rodrigo – é como lhe vejo! Foi ele que me falou ontem deste blog)

Neste caso da sua história só me faz confusão que a “perninha do Menino Jesus” seja “rechonchuda”… Como pode um Deus, que nos fez à Sua imagem e semelhança, atrever-Se a ter “perninha rechonchuda” quando os Seus semelhantes não a tinham?
Eu acho que se tinha “perninha rechonchuda” não era o Menino Jesus… pelo menos naquele tempo, naquele lugar, naquelas adversidades… O Menino Jesus – sendo Menino Jesus – teria necessariamente “perninha magrinha”!

Era só uma provocação de um amigo que gosta muito de si e da sua família… que adorou este soberbo texto e os outros! Tão soberbo, tão real, que me pôs a meditar sobre a magreza de Deus… uma magreza que felizmente não conheci e que quero erradicada dos semelhantes de Deus.

Um abraço amigo,
José Couto

Daniel disse...

Que surpresa agradável, meu Caro Zé!
É o que faz tar bons filhos... e bons amigos.
Um abraço.
Daniel

Eduarda disse...

Dos «retalhos da vida» aqui trazidos pelo narrador,vou deter-me no d'«Os Junquilhos de Monserrate».Muito forte.Ilusão e desilusão são dois pólos que nos beijam e nos apertam no decorrer desta jornada a que chamamos vida.
A primeira,de tão boa que é,leva-nos a acreditar que tudo é possível e passível de acontecer,mesmo que não aconteça.E às vezes acontece mesmo.Milagre?Porque não?

Daniel disse...

Não será que o teu bom coração vê o mundo como gostaria de que ele fosse?
Um abraço, amiga.