quarta-feira, 4 de março de 2009

Escrever na Alma

(El Espolio - El Greco)
Um livro escreve-se palavra a palavra, linha a linha. No rascunho risca-se, apaga-se, experimenta-se o ritmo da frase, volta-se à palavra abandonada, troca-se-a por outra, indefinidas vezes, até que se encontre uma que pareça perfeita. Cada folha consente ser rasgada, usada de ambos os lados, rabiscada à toa enquanto se ensaiam as ideias. Um livro pode ter segunda edição, revista e aumentada.

A alma é feita de uma só folha. Que não tem verso, que nasce branca, imaculada, sem uma letra ou um rabisco. Escrever nela é como uma pintura a fresco, não pode errar-se. Não admite rasuras, que deixam marcas indeléveis. Não terá nunca uma segunda edição.

O Rodrigo nasceu assim, como todas as crianças. Ajudei a escrever-lhe na alma o roteiro da vida. Co-autor de uma obra em que Maria Alice, sua mãe, teve a responsabilidade do argumento principal. E em que muitos outros colaboraram. O resto da família, os amigos, a Sinfonia N.º 40 de Mozart, o primeiro livro, a música de Beethoven, os sapatos que “duraram 30 quilómetros”, o primeiro harmónio.

Por esse tempo escrevia eu O Espólio, uma novela breve. Punha sobre os joelhos umas capas grossas, que tinham dentro folhas daquelas que admitem tudo. Tinham sido antes cópias de actas das reuniões da Câmara ou das sessões da Assembleia Regional. Tinham sido qualquer outra coisa, com o verso em branco. E era aí que, enquanto a família via um programa de TV que eu espreitava de vez em quando, e ouvia, baixinho, o relato do futebol, ia escrevendo sem deixar de participar nos diálogos.

Tantos anos depois, o Rodrigo devolve-me o título como oferta de aniversário. Inesperada como é hábito desde que ele teve idade de festejar um ano mais de vida minha. E é assim, ou por estas e por outras, que ele se tornou também co-autor do que vai sendo escrito na minha alma. Porque a folha em branco com que nascemos não se esgota nunca.

16 comentários:

A ilha dentro de mim disse...

Com uma alma assim, este espólio já promete. Lindo texto!

Anónimo disse...

Meu amado escritor.
É isso... viver é escrever sem borracha,não cabe rasuras.E a alma uma imensa folha em branco sedenta de histórias.
Rodrigo é um precioso presente merecido.
Beijo no coração dos dois.
Cris

Daniel disse...

Obrigado pelas palavras de ambas. Tentarei estar à altura das expectativas do Rodrigo e de quem eventualmente por aqui apareça.
Cristina, fiquei com os beijos que enviaste e retriubuo com outros.
Daniel

carmélio disse...

Aparecerei de certeza, o mais que eu puder.
Parabéns pelo blogue e muita força!

Ibel disse...

Ai Daniel, que me matas de emoção!
Eu a ler, eu a chorar.Eu a limpar os olhos e as lágrimas teimosas a espreitarem sequiosas este texto (mais um!)tão simples e tão lindo.
Sabes? Eu tenho uma filha cuja alma se assemelha à do teu Rodrigo.Nessa alma tentei gravar o branco, com a mesma pureza inicial com que a recebi nos meus braços, num dia dominical de sol de Maio radioso, quando o papa João Paulo II veio a Braga, à basílica do Sameiro.
Este "Espólio" será mais um espaço de deleite e de afecto.
Um grande beijo para esse filho maravilhoso, porque, para ti, os abraços são sempre poucos.

Daniel disse...

Carmélio e Ibel
Tentarei não vos desiludir totalmente. Não prometo, nem convém fazê-o, vir aqui todos os dias. Mas, entre uma vinda e outra, irei saboreando a vossa amizade.
Acabo de escrever mais um pequeno texto que o Rodrigo, o meu "editor", porá quando puder.
Abraço-vos reconhecido.
Daniel

Mar-ia disse...

Daniel
Interroguei-me do porquê do título do blog, mas a tua resposta veio logo, e poderosa.
Mas que rico ideia essa de criar este "espólio" e que grato presente te ofereceu o teu filho! É desses presentes, de coisas simples e personalizadas, que a alma se enche de cores.
Parabéns e cuida sempre de ti. Por ti, tua família e para nos deliciares.
Beijo gracioso

Daniel disse...

Ó Minha querida Mercês, tentarei cuidar de mim, si, mas tu não te esqueces de o fazeres com tão bons sentimentos.
Um beijo branco.
Daniel

Elisabete disse...

Muito lindo e bem ao seu estilo inconfundível.
Obrigada!

Mar de Bem disse...

Ah, só agora entrei neste texto. Enchi-me com os outros...

Quero dizer-te, Daniel que tu mereces o teu filho e o teu filho merece-te, tal como a Lia merece a Estrelinha e vice-versa.

Há uns dias dizia à minha filha que me sentia muito honrada e orgulhosa por toda a sua sabedoria e sensatez (o oposto de mim). Sabes o que me respondeu? Que era fruto meu!...

Eu fico deslumbrada com tudo isto e acho que Deus nos compensa sempre com a maravilha dos nossos frutos. Talvez a gente mereça...

Daniel disse...

Mar de querer Bem
Só posso dizer-te que os meus filhos (duas filhas e um filho) são, como muitos outros, os melhores do Mundo. Mas eu não teria feito outra escolha.

samuel disse...

Chama-se a isto uma gloriosa entrada.

Abraço

Daniel disse...

Que, se de facto em algo se pareceu a ter sido gloriosa, foi porque a completou com gente como tu.

Mar de Bem disse...

Tás a ver Daniel, como congregas neste teu blog, criaturas tamanhas? É bonito, sim senhor!
Eu gosto deste andar, de gente que pensa, que sente, que está viva e ainda quer estar. Somos a tribo dos acólitos da tua PALAVRA, Daniel. E isto consola!

Sente esta força tamanha, meu precioso Amigo!!!

once disse...

chego via "sete vidas como os gatos" e fiquei presa nesta última linha. :) Parabéns.

Daniel disse...

Já não contava que ainda aparecesse gente por aqui. Por isso mais agradável foi a surpesa de ver a minha Mar de Bem e a amiga Once, das cavaqueiras com o Rui.
Obrigado.