terça-feira, 20 de abril de 2010

Rita Gorda




Rita da Silva não era a noiva que Frank Lewis desejara. Quando ele deixou o Faial a caminho dos Estados Unidos, prometeu a sua irmã Carolina que a chamaria logo que tivesse dinheiro suficiente. Os anos passaram sem uma palavra de Frank. Cansada de esperar, Carolina emigrou por sua conta e risco e casou-se com outro.

Inesperadamente, Frank mandou cinquenta dólares para pagar a viagem da noiva para os Estados Unidos. A resposta foi a de que ela estava casada. A única que restava era a irmã chamada “Rita Gorda”. Com 1,77m de altura e 90 kg de peso, essa última irmã solteira não era bonita, mas, como Frank tinha enviado já o dinheiro, concordou em que ela deveria ir.

A viagem foi um horror. No barco, Rita esteve sempre enjoada e custou-lhe muito arranjar um lugar reservado que servisse de quarto de banho. A família prevenira-a para não comer a comida de bordo porque o barco era muito sujo, e assim ela alimentou-se de pedacinhos de pão e queijo que levara de casa. Só falava Português, e não teve ninguém com quem conversar durante a longa jornada. A sua única companhia era um livrinho de orações.

Desembarcou em Boston, mas tinha ainda um longo caminho a percorrer. A etiqueta da mala pequenina que era toda a sua bagagem dizia Frisco, USA. Agora ia dirigir-se para Ventura, Califórnia, centenas de milhas a sul, mas era sempre o mesmo caminho para os viajantes de Leste. A única coisa que conduzia Rita pelo país fora era o bilhete pregado no casaco, que explicava quem ela era e para onde ia. Quando alguém lhe perguntava, apenas o mostrava. Teve medo também de comer no comboio. Apesar de os revisores terem sido simpáticos quando lhe ofereciam das suas sanduíches, ela pensou que estavam a tentar envenená-la. “Não comas nada, se não souberes o que é”, havia sido prevenida muitas vezes. Sacudia a cabeça e dizia: “No, no, no.” Os desconcertados revisores insistiam: “É bom. Come.” Mas Rita continuava a negar.

Comida de estranhos não foi a única perturbação da viagem. O comboio parou em Chicago antes da mudança para um linha que atravessaria o sul dos Estados Unidos. Os passageiros deveriam sair, mas Rita desesperadamente teimava em ir para a sala de espera. Agarrando-se à mala e andando cuidadosamente com o primeiro par de sapatos que tivera, apressou-se a ir para o depósito de bagagens. Aí, um negro que tocava banjo “saltou na sua direcção”, contava aos filhos mais tarde. “Ele era como um macaco pequeno.” Aos ouvidos de hoje, isto soa como um terrível preconceito, mas Rita nunca vira um negro. Estava tão assustada que molhou as cuecas.

Quando finalmente saiu do quarto de banho, agarrando ainda as suas coisas com medo de ser roubada, não sabia que caminho tomar para voltar ao comboio. Ficou de pé chorando, aterrorizada por poder ser deixada atrás. O comboio estava prestes a partir quando o revisor reconheceu a portuguesa perdida e a trouxe de volta.

Certamente que as suas tribulações deveriam ter acabado quando alcançou a Califórnia, pensou ela, mas ia apanhar outra desilusão. A grande e humilde mulher foi recebida por um homem pequeno com um casaco de couro. Tinha 1,65m e ficava-lhe pouco acima do ombro. Fumava e conduzia uma mota. Ela olhou-o de relance e explodiu em lágrimas. Mas não tinha escolha. Ele pagara-lhe para vir, portanto tinha de tornar-se sua mulher.

(Excerto do livro Stories Gandma Never Told, de Sue Fagald Lick, escritora americana de ascendência açoriana. A tradução correu por minha conta. Esta escritora tem uma página pessoal com o endereço http://www.suelick.com/)

13 comentários:

Suelick disse...

Obrigada, Daniel. I want you to know two things: My maiden name is spelled Fagalde with an "e" on the end, and Stories Grandma Never Told has been out in English for three years in a new edition with a different cover. Information available on my website.
Sue Fagalde Lick

IBEL disse...

E o resto é comprar e ler, não é amigo? Deve ser uma história bem interessante. Mesmo assim prefiro as tuas.
Abraço.

jv disse...

Daniel, depois desta, quantas e quantas outras Ritas se «imolaram aos dollars».

samuel disse...

O tecido da emigração fez-se (também) destes fios...

Abraço.

Jose Augusto Soares disse...

São histórias que a História de muitas famílias regista.

Se pensarmos bem, casamentos por conveniência são bem mais remotos.
E muito mais nobres, pois era a própria realeza que dava o mau exemplo.

A pobre (depois rica?) Rita penou a viagem, a fome e a desilusão.

Quantas Ritas açorianas existiram?

Daniel disse...

Meus bons amigos, meus amigos bons, o tempo parece estar cada vez mais breve, como se o Inverno que nos entrou pela Primavera dentro o fizesse encolher. Por isso tenho este Espólio um pouco descuidado.
Ontem, no final de uma bela representação de jograis da Pontilha, grupo cultural da Ribeira Grande, a propósito do 25 de Abril, o Luís Simas (que o José Fernando conhece muito bem) leu um poema meu e veio entregar-me um cravo. Um cravo com as pétalas em desalinho, meio arrancadas, como que precocemente envelhecido. Depois, quando, acabada a representação, ia explicar-me o significado daquele cravo, eu disse-lhe: "Luís, conheço-te muito bem. Sei o que querias dizer."
Penso que vocês, Isabel, Samuel, José Fernando e José Augusto também o percebem. Por todas as Ritas Gordas, emigradas ou não, deste país.
Abraços.
Daniel

Mar de Bem disse...

A minha tia, MARY DE BEM PERRY (Maria de Bem Pereira), irmã de minha mãe, nos anos 20 de 1900, fez esta mesma viagem: terrível. Fora desbravar terras da "novíssima" Califórnia.
Casou com um faialense que se mostrou um alcoólico intratável. Tiveram 2 filhas e uma quinta que os enriqueceu...

...e seus netos não falam português!

Ibel disse...

Daniel, que bela leitura se faz das palavras do teu comentário. Beijinho

Paulo Assim disse...

E eu que estava a seu lado, Caro Daniel, mesmo sem ouvir a conversa, percebi muito bem que esse cravo esfrangalhado (diria moribundo) escondia uma metáfora confrangedora.

Um Abraço
(já com saudades dos Açores...)

Daniel disse...

Quem é o Paulo Assim?
Tenho de explicar aos meus amigos quem é este Paulo Assim, que assim nos aparece de vez em quando. É o autor de um romance maravilhoso, uma metáfora sobre o final da ditadura que é, ao mesmo tempo, um dos mais belos livros acerca da infância que se terão publicado em Língua Portuguesa. Ganhou com ele o Prémio Gaspar Frutuoso, da Câmara da Ribeira Grande. Fiz parte do júri e fui encarregado de apresentar a obra, no seu lançamento, que precedeu o tal espectáculo da Pontilha.
O Paulo é tão boa pessoa que o mau tempo fez uma pausa rigorosamente desde o momento em que ele pôs os pés em São Miguel até ao Domingo, em que voltou para a Batalha, onde reside.
Tem um blog que vivamente recomendo, e não fico com "ciúmes" se perder alguns leitores em seu favor:
livrodeanuncios.blogspot.com/
Ah, Isabel, este livro tens mesmo de comprá-lo. Vai estar à venda nas livrarias Bertrand e na FNAC. Chama-se "A Quinta-Feira dos Pássaros".
Abraços a todos.
Daniel

Paulo Assim disse...

Obrigado, Caro Daniel, pela publicidade.
(Depois mando-lhe o cheque na volta do correio...)
:)
Mas agora a sério: assim que cheguei, comecei logo a ler o seu Pastor das Casas Mortas: uma maravilha, cheio de recordações e muito irónico. Muito bom. Apetece lê-lo de uma vez só, mas não quero, impus a mim próprio o difícil compromisso de saborear um capítulo de cada vez, com todo o vagar das aldeias.
Agora compreendo quando me fala de semelhanças entre os dois livros. Sim, senhor: é uma coisa espantosa!
Um abraço,
Paulo

Daniel disse...

Paulo
Num mundo tão cheio de banalidades e de perversidade como é o da literatura, dá gosto saborerar um livro como a sua Quinta-feira dos Pássaros. E, como gosto que os amigos passem bons momentos, por isso o recomendei a quem aqui vem.
Como disse no lançamento, Portugal era muito semelhante em cada cantinho rural. E pouco mudou entre o tempo da infância do meu Manuel Cordovão e do seu Nicolau.
Um abraço.
Daniel

Daniel disse...

Paulo
Num mundo tão cheio de banalidades e de perversidade como é o da literatura, dá gosto saborerar um livro como a sua Quinta-feira dos Pássaros. E, como gosto que os amigos passem bons momentos, por isso o recomendei a quem aqui vem.
Como disse no lançamento, Portugal era muito semelhante em cada cantinho rural. E pouco mudou entre o tempo da infância do meu Manuel Cordovão e do seu Nicolau.
Um abraço.
Daniel