segunda-feira, 6 de julho de 2009

Touradas à Corda na Terceira


Se alguém tivesse ajudado o João dos Ovos a ter sorte, assim como Manuel Benítez foi conhecido por “El Cordobés”, talvez ele tivesse ficado na história como “O Angrense”. Durante décadas foi a figura mais popular das touradas à corda. A sua fama terá tanto de mítica quanto de controversa, porque o seu equilíbrio mental parecia precário e a sua figura era de saltimbanco de feira sem consciência de o ser. No entanto, milhares e milhares têm passado pela arte da vida ou dos toiros sem deixar uma frase ou um gesto que sejam recordados. João dos Ovos era capaz de encenar uma “chicuelina” no canto de uma rua com tanto cuidado a desviar o corpo do toiro imaginário como se estivesse mesmo a evitar-lhe a armação. Ou de enfrentar a fera a sério com passes de guarda-sol, num bailado que valia a “faena” de um “diestro” na praça de São João. E chegou a comungar duas vez no mesmo dia, justificando que, nas coisas de Nosso Senhor, quanto mais melhor. Anos mais tarde, esse acto, que então era considerado um sacrilégio, viria a ser autorizado pela Igreja…

Apesar de temer mais o mar do que um toiro bravo, João dos Ovos acompanhou a São Miguel a primeira embaixada taurina que veio a esta ilha, em 1965, para várias touradas à corda e uma de praça. A sua simplicidade, o ser para os outros sem fingimentos aquilo que era no fundo de si mesmo, deixaram um rasto de simpatia e de ternura. Porque o João dos Ovos era uma espécie de criança grande, capaz de expor as pernas ao sol na Avenida Marginal de Ponta Delgada, explicando a todos os que passavam que o senhor doutor lho recomendara por causa das varizes; ou de fazer grandes reverências e uma elaborada oração em voz alta no altar da Virgem, na igreja de São Pedro, antes de deixar na caixa das esmolas os cinquenta escudos que quisera dar ao bondoso padre José Baptista Ferreira, que fora pároco da Conceição de Angra, e o acolheu em sua casa durante esses dias. Chamar “João dos Ovos” ao belo paquete “Angra do Heroísmo”, que a Insulana comprou a um armador israelita por oitenta mil contos em 1966, foi com mais frequência uma homenagem ao famoso capinha do que uma manifestação de desrespeito pelos terceirenses.

A essas touradas em terras de São Miguel, como em outras mais recentes, que atraíram muita gente, não faltou entusiasmo mas abundaram os actos inconscientes e temerários. Mas faltou-lhes o sabor que só a tradição consegue dar e a Terceira cumprir, faltaram os espontâneos que compreendessem os toiros. Por isso é célebre na minha Maia a história de um militar que foi artilheiro em Angra durante a Segunda Guerra Mundial. Estando ele de namoro à janela, numa rua onde havia tourada, a moça disse-lhe que entrasse para evitar algum desgosto com o toiro. Ora, se é verdade, como diz Camões, que, nos perigos grandes, o temor é muitas vezes maior que o próprio perigo, também há momentos em que o medo é bem menor do que requerem as circunstâncias. Foi este o caso. O heróico soldado permaneceu firme no seu posto. Mas o toiro não estava para romantismos, e fez o que lhe cumpria. Arremetendo contra o destemido marialva, mandou-o pelo ar, atirando-o para o quintal. A viagem demorou o suficiente para que o rapaz gritasse enquanto voava: “Adeus, São Miguel, que nunca mais te vejo!”

Cada uma das cerca de duzentas e cinquenta touradas à corda que por ano há na Terceira é um espectáculo em que o toiro se diverte pelo menos tanto como as pessoas. Que muitas vezes passam o tempo tentando conquistar alguma moça namoradeira ou à volta de uma mesa farta, com bons petiscos e cerveja fresca, que destronou o tradicional vinho de cheiro. Por isso muitos voltam para casa sem terem visto a cor ao menos de um dos quatro toiros. E, se calha alguém de fora da ilha ser instado a entrar no convívio, o que com frequência acontece, também correrá o risco de, como qualquer terceirense em iguais circunstâncias, só ver “o quinto toiro”, como eles por graça dizem. O que, como se percebe, é o mesmo que dizer toiro nenhum. Mas uma tourada à corda é sempre uma festa de movimento, cor, convívio, alegria. O suficiente para valer a pena o risco de algum osso maltratado. Sobretudo se for em corpo alheio…

(Do livro em preparação Terceira, Terra de Bravos, a publicar pela Ver Açor)

44 comentários:

Ibel disse...

Nunca gostei de touradas.Lembro-me de, quando era pequena ou mesmo jovem, haver noites televisivas com touros até às tantas e eu corria para o terraço para regar a roupa estendida nos corredouros enormes ou a namorar a noite no silêncio das estrelas. Ou então refugiava-me a ler ou a escrever.Sempre a leitura foi uma companhia diária imprescindível.Gostava mais de ler do que comer.Aliás comia muito pouco, algo de muito preocupante para os meus pais.
Mas voltando às touradas, esta narração delas ou sobre elas deliciou-me pelo motivo habitual-a forma segura e brilhante como dominas a(s) língua(s)e como transformas as «petites choses» em quadros cheios de humor, ao mesmo tempo que estas personagens meio burlescas meio poéticas ganham estatuto de heróis cheios de graça e de simpatia.E fora o resto...

P:S Peço explicação sobre as palavras entre aspas. Abraço.

samuel disse...

Descrição deliciosa!
As touradas à corda, da Terceira, devem ser a única excepção ao que eu penso intimamente sobre as touradas. Exactamente pela brincadeira tresloucada e (quase) sem consequências, tanto para os touros como para os "toureiros".
Ainda não chegou a minha hora de ser arrastado para uma tourada à corda, numa qualquer freguesia terceirence... mas quando chegar, o convívio e os petiscos serão certamente a minha única "festa". E o quinto touro, evidentemente! :-)))

Ibel disse...

Daniel,

Pensei que tinhas respondido ao meu peddo deexplicações, mas afinal era um comentário do Samuel cujo blog também espreito, embora raramente comente.
Aproveitei e reli o meu comentário e vi uma gralha. Escrevi «corredouros» em ves de coradouros(mas onde tinha eu a cabeça?).
Tourada à corda, eu? Só mesmo no Espólio.

Ibel disse...

Bem, hoje não acerto uma. «EM VEZ DE» não vá a ministra do teu partido gostar de leituras.
Abração, querido Daniel!

Daniel disse...

Ibel e Samuel
Estas são também as únicas touradas de que gosto tanto como se fosse terceirense. O touro é um pretexto, e raramente lhe acontece qualquer mal de maior.
Quanto às palavras entre aspas, Ibel, aqui vai.
Manuel Benítez foi um toureiro sem grande arte mas de enorme coragem e muita loucura. Em Valência, chegou a morder o pescoço do toiro, de raiva, por ter sido colhido. Em vez de um toiro, mandaram-lhe a seguir uma galinha para a arena. Ele sacudiu o pó dos sapatos e jurou não voltar lá. Mas voltou. Era chamado "El Cordobés" por razões óbvias.
A "faena", que como quase todos os termos referentes às touradas é uma palavra espanhola, é o mesmo que o português lide, referindo o trabalho do toureiro.
A "chicuelina" é o passe do capote sobre as pontas do toiro, fazendo-o como que escorregar pelo corpo do animal.
O "diestro" é o matador, que em Portugal apenas simula a morte do toiro.
O homem da foto, com o guarda-sol, é o João dos Ovos.
Um par de abraços, meus caros.
Daniel

Mar de Bem disse...

Oh, Lia, andei à procura duns vídeos de "MARRADAS", das touradas à corda na Terceira, p'ra tu perceberes que tipo de festa é esta por cá, salvo seja. Não os encontrei.

Aqui, isto é na Terceira, quem se lixa é o Zé que se mete à frente do toiro. O toiro só corre e marra a torto e a direito. É um fartote de rir!

Daniel, dizem que o João dos Ovos respondeu a alguém, que quis gozar com ele falando-lhe do belíssimo tecido das meias (ele que andava sem elas, porque não as tinha): "tenho umas cuecas do mesmo tecido e só têm um buraquinho".
Quem das "ilhas de baixo" não sabia da fama das suas respostas argutas, rápidas e certeiras?
Pois é...já lá vão mais de 40 anos!!!

Sérgio Lourenço disse...

http://www.malhanga.com/videosflash/parte.1/index.htm

Mesmo quem não goste decerto que não ficará indiferente.

MaesDoc disse...

É esta mistura de festa, de simplicidade e genuína comunhão entre os artistas e os espectadores, no medo e na maestria de uns quantos para superá-lo, que faz com que as touradas, as " picarias", as largadas de touros, continuem a ser aquilo que são. Uma manifestação popular, na tradição e no seu cumprimento, como o Daniel nos conta que ocorre na Terceira.
Mas querer que o já eterno João dos Ovos fosse o Manuel Benítez açoriano, imagem essa que achei bonita e muito adequada, e depois depreciar a arte do " El Cordobés", já não subscrevo. É certo que tinha um andar e trejeitos mais desengonçados que o seu conterrâneo " Manolete", o dono dos naturais de verdade , e sobretudo não morreu na praça para atingir a sublime eternidade, mas pela sua dita coragem conseguiu que o toureio, a arte de tourear, fosse algo mais do que uns passes de repertório. Foi seguramente um dos mais populares, o que fez mais corridas em épocas consecutivas, o que levou mais troféus para casa, o que ousou mais.
Quando se critica a "arte" do " El Cordobés" lembro-me sempre daquele critico literário, português, que ao falar de um livro de um escritor, também português, só conseguiu dizer, arrogantemente, que nunca iria ler um livro já lido por mais de 300 mil portugueses, pois era necessariamente, e à partida, má literatura. O " El Cordobés" também foi "lido" por muita gente.
Abraços
Manel Estrada
Declaração de interesses: Ribatejano, não marialva.

Mar de Bem disse...

Eu lembro-me do "El Cordobés"...

Ninguém lhe ficava indiferente. Ele raiava quase a genialidade com os seus arroubos de gente louca, de quem faz da vida uma obra de arte. Nem tudo lhe corria de feição, mas, quando corria, minha gente, era de mestre!

...mais um que o Tempo levou...

Daniel disse...

Manel
Eu tenho simpatia por "El Cordobés". Era um rapaz miserável, e consta que, quando decidiu entrar na vida de toureiro, terá dito: "Ou glória ou morte!" Saiu-lhe a glória, com alguns momentos de sombra. Já muito controverso enquanto toureou, alguém disse que a sua maneira de tourear haveria de ser reconhecida ou não como arte se dela ficasse um passe, um gesto, que significasse um novo conceito da arte tauromáquica. Parece que não ficou. Como por exemplo a "manoletina", que, contra o que então era entendido como bom gosto de tourerar, Manolete transformou em arte, apesar de aquele passe de muleta ter sido criado como burlesco por Llapisera.

MaesDoc disse...

Daniel

Longe de mim entrar em polémica contigo sobre um dos cinco califas duma Andaluzia que sei que reserva um lugar de primeira fila no teu coração. O El Cordobes é tudo o que disseste mais uma coisa importantíssima que te esqueceste de referir e que só quem, como eu, assistiu ao vivo a uma tarde de toiros com ele em cartaz, pode descrever. Uma entrega indiscritivel da aficion presente e um toureiro que para além de executar com primor o figurino, com uma quietude que ninguém previa, revelava uma coragem , que chamas loucura,nesse tercio da muleta. Com toda a gente a reconhecer que bandarilhava como ninguém até aí tinha executado. E que fez escola , pelo menos em Portugal num José Júlio, Mário Coelho, Amadeu dos Anjos....E que dizem os entendidos, e eu concordo, fez sair do marasmo a fiesta que nos inicios de sessenta estava a perder muito da sua melhor caracteristica. A festa.

Um abraço

Manel

Daniel disse...

Manel
Eu nunca seria capaz de entrar em discussão contigo a respeito de toiros, porque nisso, como em muitas outras coisas, és mestre e eu aprendiz. Além disso, por mais pejorativas que tenham sido as críticas a alguns aspectos do toureio de "El Cordobés", como o seu famoso "salto de la rana", falta-me o saber para ter opinião e sobra-me a simpatia por ele, para me atrever a desrespeitá-lo.
Como nunca desrespeitei o João dos Ovos, o tal que eu vi exibir as pernas na Avenida Marginal de Ponta Delgada, com as "meias" de que falou a Margarida.
O certo é que um e outro fizeram história. E entusiasmaram, cada um a seu modo, multidões de aficonados. E a "festa brava", no dizer do "meu" mais que querido Lorca, é uma festa de cultura.

Manuel Viseu disse...

Essa historieta de "cultura" é como o bacalhau: mil maneiras de o cozinhar, venha ela dum dos maiores poetas espanhóis ou não. Nunca encontro cultura numa toirada à corda. Mas sim, uns petiscos, umas boas cervejadas e uns namoricos que não passam duma frustração sexual anglo-saxónica.
Já é tempo de substituir o toiro pelo homem, com tanto cornudo por aí sem corda.

MaesDoc disse...

Meu Caro Branquinho Núncio

Vamos a isso homem. Vamos resolver as suas sedentas frustrações intelectuais e se precisar de ajuda diga. Mas vá deixando o mais prosaico da vida, para os que ainda vão gostando de historietas.E lembre-se que a corda, ou um simples baraço, sempre pode ser usada para outros fins.
Um abraço

Mar de Bem disse...

Qualquer forma de maniqueísmo é tão rígida, que não permite o prazer duma conversa.
Ou se é pelo homem ou se é pelo toiro? Então, e ser pelos dois? Porque não tirar prazer dumas tonterias que, no caso da tourada à corda, é o homem que anda a toque de caixa da vontade do toiro. É vê-los a tentar mostrar valentia, p'ra depois tropeçarem em si mesmos. Há situações tão hilariantes...

A tourada à corda é como um arraial. Tudo se junta, minha gente, à procura de momentos magníficos, em comunhão com toda a gente. Ali não há ricos nem pobres. Ali há gente se divertindo e, às vezes, arranjando maneira de visitar... o hospital!!!
Poder-se-á dizer que é uma festa bem democrática.

Estão abertas as... discussões!!!!!!!

Carlos Ramos disse...

As toiradas não são medidas da diferença de classes, mas sim a distribuição do Produto Nacional Bruto e a posse dos meios de produção.
Não se idenficam como pobres ou ricos mas que eles são e estão lá, estão sim!
Que classe está interessada em que enquanto se "brinca" aos toiros não se pensa no outro dia como por pão na mesa?

Ibel disse...

Fala-se de cornos e logo a discussão se instala.Até que enfim que começo a gostar de uma tourada.
E como há gente tão conhecedora de cornudos sem corda.Qual será a causa?
Mar de Bem, mana,que bom é sempre ver-te comentar com essa força de quem não tem papas na língua.E do maesdoc já nem falo porque dava um matador exímio.Cortava logo os cornos aos touros que se escondem atrás dos pseudónimos achavascados, em vez das barricadas,não vão impressinar o público com o seu denodo atrevido.

Carlos Ramos disse...

Por favor, não fujem ao tema. Ou será que não há argumentos?

Mar de Bem disse...

Por favor, não FUJAM ao tema, está claro que não!

Eu, quando respiro, não penso quantas vezes inspiro e expiro para que a função respiratória se faça; eu, quando ia trabalhar, não pensava nos filhos da mãe que me chupavam o tutano; eu, quando vou a um espectáculo não penso nos pobres dos técnicos, dos operários, etc, que, sem eles o espectáculo não estaria de pé; eu, quando apanho a lancha para ir ao Pico, não penso que aquelas lanchas não têm tempo para serem reparadas e que o pior pode acontecer; eu, quando vou tomar o pequeno almoço, não penso que aquele pão fresquinho foi feito por gente que trabalha de madrugada...
...ah, o que eu podia dizer de coisas, que eu sei como são, mas, como já estou madura de mais e não me quero estragar, sigo a VIDA duma maneira mais epicurista do que quando era nova. Nada tem a ver com a consciência das coisas...

Agora faço juz a um conselho antigo: "não aprofundes muito, se queres ser feliz". Não é desresponsabilidade. É simplesmente por saber que já não tenho assim tantos anos de vida e não quero desperdiçá-los com apoquentações estéreis. De que serve?

MaesDoc disse...

Daniel

Começou a existir por aqui alguns camaleões de raça duvidosa. Que ainda por cima não gostam do ruido incómodo das festas mas sempre vão atirando os seus foguetes, apanhando as canas, e colocando as medalhas que julgam merecer, nas suas anónimas lapelas.
Não sou moderador de coisa nenhuma , e nem sequer me incomodam como já deu para ver, mas penso ser altura de acabar com esta raça de mutantes sob pena do Espólio, por querer ser um meritório espaço de liberdade, passar a ser também um espaço de indesejáveis e desnecessários incómodos.
Faltou dizer que a foto que encima a descrição desse espectáculo terceirense, encerra por lá quase tudo. Movimento e festa, um João dos Ovos no estilo que lhe deu fama e até talvez nos três ou quatro magalas que se deixaram fotografar imaginar que um deles fosse o artilheiro da Maia. E que até se usava fato e gravata para saltar à " arena". Um primor.

Mar de Bem
A democracia deve começar e procurar ser sempre tudo isso. Uma festa.

Abraços

Manel Estrada

Carlos Ramos disse...

Mas afinal senhor Manel, em que ficamos?! O senhor quer que o Espólio seja uma espaço de liberdade mas quer acabar com esta raça de mutantes......enfim!!!!
Meu amigo, insultei ou provoquei alguém? Chamei alguém de "mutante" ou raça de"?
Ainda julgo que discordar, participar construtivamente e levantar questões ainda não mencionadas não é incomodar. Por outro lado, julgo que o moderador tem as costas mais do que largas e peso pesado para aguentar com os meus insignificantes comentários.
E um abração para você, como dizia Maria Luyza Branquitti, a primeira mulher brasileira que toireou na Baía, nos finais do século 17.

MaesDoc disse...

Meu Caro Carlos Ramos

Engana-se redondamente. Não lhe tinha respondido, ainda, porque achei algo desajustado querer convencer-nos que o "povo" vai a estas festas , muitas delas se não a sua maioria, edificadas por essas populações, para inconscientemente e ingenuamente esquecer-se do pão que falta nas suas mesas para os filhos. Trazendo para esta mesa de discussão a luta de classes e as largadas de toiros como um instrumento. Todos sabemos que as touradas, passados que foram os idos romanos e gregos, vieram para a Iberia tendo sido adoptadas pela nobreza. D. Sebastião foi até quem nelas treinou a sua nevoenta expedição, encerrando-se frequentemente em Xabregas, onde mandou construir a primeira praça de touros em Portugal. Mas quando Filipe V, pensou proibi-las em Espanha, rapidamente esse povo, carente de tudo, mas também de festa, tomou para ele em ruas e praças, afrontando a lei, um espectáculo que ainda hoje lhe pertence. A sua sigla tem toda a razão de ser, mas para dizer simplesmente que o PNB (o Povo Não é Bruto). Quanto aos mutantes e quanto á raça de camaleões penso que percebi que o Carlos Ramos se desmarca duns anónimos frequentadores deste forum que até , quais imbecis brincalhões, usam o nome de habituais comentadores deste espaço para se fazerem ouvir. Portanto nada do que disse lhe poderá importunar e até me leva a pensar que poderá concordar comigo.
Aceito o abração dessa sua Maria Luyza como aceitaria de bom grado o da luso peruana Conchita Cintrón, falecida este ano,e que tanta festa trouxe à festa brava. Conseguindo ultrapassar as barreiras e os constrangimentos que os preconceitos do meio lhe queriam impor. Tornando-se figura bem popular.

Daniel disse...

Meus amigos
Vai um recado especial para o Carlos Ramos, apesar de o Manuel já ter respondido devidamente. Mas ainda aqui pode entrar "El Cordobés". Ele teve o êxito que se sabe talvez por ser capaz de tourear para o povo a quem só importava o espectáculo de ver vencer o toiro. Os puristas não lhe perdoavam certas liberdades ou fugas ao cânone. Pode dizer-se que, de certo modo, foi o povo que impôs "El Cordobés" à fama e à História. E eu gosto de quem gosta do povo e daqueles de quem o povo gosta. Pois "El Cordobés" também foi acusado de ser utilizado como parte do circo para esquecer o pão.
Dizia-se pejorativamente do tempo antes do 25 de Abril que éramos os país dos três "F". (Declaração de interesses: tenho imenso respeito por Fátima, onde passei alguns dos melhores dias da minha vida.) Nunca, porém, se cantou tanto o Fado como agora nem se movimentou tanto dinheiro com o Futebol como nos tempos da democracia... de voto. Ora, se num voto grátis o povo se abstém tanto como se sabe, que valor não terá um "voto" (ou seja, um bilhete para uma toirada)comprado para entrar numa praça de toiros?

Manuel Viseu disse...

Daniel, (tourear para o povo)
O povo não precisa que façam coisas para ele. E como bem disseste, o 25 com o rótulo de ser feito em nome dele, não o serviu, como está visto, porque nasceu duma pequena-burguesia militar.
Na altura própria, o povo saberá fazer a sua própria tourada, desde Santa Maria às Flores, de Washington a Kabul.

MaesDoc disse...

E depois Manuel, e depois

Até concordo com essa da pequeno-burguesia militar, mas ela própria emanada desse povo e até acusada de o representar até tarde no processo dito, em curso.As causas do retrocesso nos modelos económicos e agora sociais foram e são outras, tão profundas como bem perceptíveis e que se prendem com o sufoco do mundo em que nos integramos, que não é tão internacionalista como os seus desejos talvez apontem, com assimetrias socio- politico -religiosas diria que insanáveis. E sujeitos que estamos, isso sim, aos pragmatismos dos que se dizem e querem ser nossos representantes e aos quais ,por vezes, distraidamente lhe colocamos o voto em urna.

Mas depois dessa sua interessante tourada, do Minho a Timor , de Roma a Pavia, passando decerto por Arraiolos, fico com curiosidade. O povo deixava-se( ou seria talvez obrigado, sei lá) de petiscos, cervejadas e de namoricos meio aburguesados e frustrados, embora para mim namoricos sejam sempre namoricos, quando pelo menos existam, dois interessados nesse processo ? E depois dos meios de produção bem orientados iria entregar a liderança do processo a que tipo de lideres, dos que conhecemos da história ? Ou a coisa ficava-se nas bases e só nas bases num processo inovador de liderança proletária acéfala?

Fico com curiosidade em perceber a sua ideia, de quem diz que não se deve exagerar muito nas coisas que se fazem para o povo. Ou em seu nome, presumo.

Daniel disse...

Manuel Viseu,
Vamos ver se nos entendemos. Em Portugal só houve duas revoluções populares. Ambas, no entanto, tiveram de ter um sinal de arranque dado por alguém mais capaz de estar atento. Foram elas a de 1383/85 e a do 25/04/74. Num e noutro caso o povo apropriou-se da revolução quando veio para a rua e se pôs do lado dos revoltosos.
Essa "de Santa Maria às Flores, de Washington a Kabul" faz lembrar o Trotski. Que não era um santo, mas que era melhor do que o monstro "de aço" que mandou matá-lo.
E repara que, quando se diz que o povo não precisa de conselhos, já se está a dar-lhe um...

Mar de Bem disse...

Daniel e Manuel Estrada:

PERFILO-ME!!!.............

Eduarda disse...

Olá tertúlia,

Touradas à corda na Terceira,o capinha Manuel Benítez-«El Cordobés»-(que saudades Córdova!),o João dos Ovos,qual «Cordobés»!:))
Se não fossem os Joões dos Ovos,que sabor teria a vida?!
Belo texto.
Abraço

Brian Silva disse...

Senhor Daniel,
O senhor diz que "o povo apropriou-se da revolução quando veio para a rua e se pôs do lado dos revoltosos." Tenho aqui duas dúvidas.
A primeira, foi revolta ou revolução? O senhor cita revolução mas depois segue com revoltosos.
Segunda, o povo veio para a rua, mas quando foi que ele tomou o poder?
A que podemos chamar revolução popular? Tomada do poder pelo povo ou este apenas vir para a rua?

Mar de Bem disse...

Senhor Silva:

Não venho defender causa alheia, mas quando "tocam" nos meus, eu fico brava.

Quem se preocupa com minudências (revolta pode ou não levar a revolução) é porque não está descontraidamente entrando nesta conversa informal, devida a um texto do nosso anfitrião.

Está preocupado em saber se o POVO foi ou não p'ráqui chamado? Há muita publicação sobre o assunto, para quem, como o Senhor Silva ou é muito novo, ou não está de boa fé. Se é muito novo, não é aqui que vai tirar as suas dúvidas; se, como eu, já era crescido no 25 de Abril, então meu amigo, não sei se as suas dioptrias o enganam.

O POVO FOI QUEM MAIS ORDENOU, mas LIXARAM-NO!!!

Daniel disse...

Não há paciência para essas minudências de linguagem. Mar de Bem, deixa em paz o incógnito duvidoso. Cada um é que sabe se fez uma revolução ou uma revolta. Este, pelos visto, não fez nada.

Carlos Ramos disse...

E se os toiros algum dia se lembram de se revoltarem contra aqueles que os têm abusado, gozado e maltratado?
E se os toiros algum dia se lembram de dizer aos homens para fazerem as suas festas com os seus próprios cornos e deixaram os deles damão?
Se há tanta coragem, heroísmo e arte popular, porque não toiream toiros em vez das vaquinahs da "mata do estado?"

Brian Silva disse...

Mar de Bem,

Se o povo tivesse ordenado, outro galo cantaria presentemente neste jardim à beira-mar plantado.
Quanto à revolta/revolução, vocês sabem muito bem que não é uma questão de linguagem. Não o querem dizer, porque quiseram chamar à revolta revolução, com medo de mudar o sistema.
Quiseram mudar apenas as moscas e acho muito bem! Há quem defenda que este mundo é dos espertos!

Lua de Mel disse...

Brian Silva

O mundo é dos espertos, sim senhor e você está mal na vida.Pode ser que na próxima encarnação voc~e tenha mais sorte, amigo!

Brian Silva disse...

Lua,

O teu elogio lembrou-me uma conversa que tive há dias com um amigo sobre a reencarnação.
Disse-lhe eu: Imagina lá que eu venho como burro na minha reencarnação.
Vira-se ele: Outra vez?!

MaesDoc disse...

Citando CARLOS RAMOS:

Já disse um homem
Que foi toureiro afamado:
"Mais marradas dá a fome
Do que um toiro tresmalhado".

MaesDoc disse...

Senhor Brian

Já imaginou como seria a sua revolta de burros revoltosos, nesta ou na sua próxima existência ?

Atrevo-me a avançar com a ideia que o desembarque seria efectuado na Baia dos Asnos, pela tardinha, com o Sancho Panza a liderar a escaramuça.

Desejo-lhe boa sorte com muita coragem à mistura.

Manuel Estrada

Daniel disse...

Manuel, se os inimigos fossem moinhos, o tipo talvez se safasse. Com revolta ou sem revolta, com revolução ou sem ela, sempre me pareceu vã dialéctica que quem assiste a tudo de mãos nos bolsos venha pregar a libertação das massas. Deixa-as pousar, Manuel, que de certeza não pousarão em ti.

Alzira disse...

Brian

O seu amigo conhece-o bem.Conserve-o porque há poucos assim tão inteligentes.

Anónimo disse...

Brian

Falta 11 para os 50...

Daniel disse...

Alzira
Há gente assim. Se vê alguém sozinho, passa adiante, como disse o Sebastião da Gama da cigarra solitária: "Ninguém pára a saber por que é que canta/ Ninguém lhe dá alento nem conforto." Mas, se vê dois pelo menos em amistosa conversa, mete-se logo pelo meio.
Anónimo
Nâo "falta" nem "faltam" onze já. Mas eu preferiria ter menos vinte ou trinta do que ter de ouvir quem melhor fora estar calado. É que palavras tontas não fazem diálogo.

Manuel Viseu disse...

Daniel,

Quem disse que o povo não precisava de conselhos?!

Eduarda,
Aprecio a sua neutralidade, mas penso que é sublimada. Vamos lá, dá aqui uma ajudinha ao pessoal.
Olha, que pensaria a Alice Moderno duma toirada à corda?

Brian Silva disse...

Anónimo,

Vai chegar aos cinquenta. É só picá-los, e picá-las, dar-se um bocadinho de corda, e é um tal reagir de olhos fechados.
Houve inté quem disse que ficou "brava"...imagina tu! (Vai ver acima)

Anónimo disse...

Só agora li o teu texto. E não fujo a recordar um comentário do João dos Ovos.
Quando D. Manuel Afonse de Carvalho resolveu dar as "suas orientações" às festas do Espirito Santo, toda a gente se revoltou. Foi um tal dizer por essas ilhas todas.
O nosso João dos Ovos, de rosto triste e pesaroso, dizia assim : O nosso Bispor é muito perfeito, mas é pena não ser católico"!!!
Um abraço Para o Daniel- E.Porto.