quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Manuel Vavô

Manuel “Vavô” não casara, era pouca cabeça para chefe de família, não tinha aqueles carinhos de mulher que ajudam um homem a viver com mais decência: comida a tempo e horas, o calor de uma caminha aquecida por outro corpo também, uns cuidados de águas quentinhas, para lavar as pernas doridas de trabalhar, e álcool aquentado numa lata de lustro posta sobre o candeeiro, como a mãe fazia ao pai em dias de mais estafa; umas sêmeas de emplastro ou pão em vinagre quente, para mazelas de estômago; roupa lavada e corrida para vestir ao Domingo. Nada, andava aos tombos da fortuna e da aguardente, que lhe era sustento e remédio mais que tudo, que lhe enganava tristezas e sossegava desejos. Por isso trabalhava conforme o apetite, mas, se estava em maré de o fazer, era homem de se contar com ele todo. Só não era de fiar para tarefas aprazadas com rigor. Se lhe dava a moleza da solidão, ficava-se por ruas e tabernas enquanto houvesse uns vinténs para aquecer o estômago, que só quando a fome era de mais ele entendia que lhe doía de fome. Numa noite em que ficara sem ceia, Manuel “Vavô” sentiu cheiro de petisco no “café”do José Virgínio, que tresandava a temperos de violentar paladares, apesar de a porta estar fechada por recato dos convivas. Lá dentro só homens de respeito, ainda que capazes de perder tanto o tino na pinga quanto o Manuel que os ouvia nas risadas da festança. Bateu à porta com algum receio e certa expectativa. Veio abrir o guarda Silva, que espalhava bazófias em disfarce de sabido e voz de vogais abertas e sílabas inteiras. Era uma figura que se pretendia imponente, incapaz de um desalinho, rigoroso no cumprir das leis. Viu quem era e mandou que desaparecesse.

(O café do José Virgínio era na primeira casa à direita)

Manuel “Vavô” insistiu. Teimou uma segunda e uma terceira vez, ao menos uma isca e um copinho de vinho. O guarda cansou-se da teima, e para que o outro não porfiasse agarrou num cabo de vassoura e foi-se contra ele. Era mesmo para bater! Manuel “Vavô” fugiu com todas as forças, e o guarda abalou no seu encalço. Subiram a rua da Igreja em correria de fúria e de medo, voltaram à esquerda no Caminho do Concelho, arfaram pelo Penedo fora até à Fonte Velha.

(Troço do Caminho do Concelho referido na história)

Aí, ao entrar a canada, o carro de bois do Guilherme avivou a coragem do perseguido e deu-lhe uma razão mais forte: um fueiro! Pegou nele e voltou-se contra o guarda que não desistia de querer zurzi-lo. O perseguidor deu meia volta, mais veloz que Veloso a fugir do bando negro. Desceram o Penedo num ai, o Caminho do Concelho como dois foguetes, a rua da Igreja como se tivessem lume no rabo. E foi nesse imprevisto de se ter voltado o feitiço contra o feiticeiro que os amigos dessa noite de farra, que esperavam à porta a solução do combate, receberam a salvo, e com chacota dissimulada de um espanto divertido, o soldado vencido pelo argumento da força.

(Penedo)

(Fonte Velha ao fundo no centro)


Do livro Sobre a Verdade das Coisas (esgotado)

Fotografias de Sérgio Lourenço (Setembro de 2009)

sábado, 22 de agosto de 2009

Evocação

Conteiras (fotografia de Rui Almeida, publicada em http://olhares.aeiou.pt/conteiras_foto399394.html)

De outros tempos, temos a poesia que ficou das coisas que passaram. O que foi mau esquece-se por já não ser, o que foi bom transfigura-se por já não poder ser.

A mãe que fechava, bem fechadas, as janelas do quarto térreo para que o Sol não denunciasse um novo dia e os filhos continuassem deitados, assim lhes enganando com o sono a fome, porque em casa não havia o que comer; a tísica que se mirrava, hálito com hálito da irmã, que lhe despia a camisa suada por agonia e fraqueza, trocando-a pela sua, enxuta, e colando sobre o seu corpo são o suor de enferma da quase moribunda; o “canto” dos homens a preço de desbarato, a dor, a fome, a miséria, toda a desumana condição humana…

Mas a alegria também! Talvez como rito de afugentar fantasmas, talvez como um esforço para despertar de um sonho dormido entre maus sonhos. Ou talvez que a alegria existisse por si mesma, como acto necessário, como razão suficiente.

A luz, como era diferente a luz! Doía, de bela, a cor dos cravos, das sécias, das despedidas-de-verão; era uma orgia saudável o cheiro da malva-rosa, da erva-luísa, da hortelã do quintal-jardim da minha tia Ermelinda.

O Sol a queimar, a queimar sempre, avolumando os frutos, anunciando a ceifa, num prenúncio de fartura que se cumpria em vinhas e pomares, hortas e searas.

A alegria simples de viver. O prazer de estar vivo. Um “haja saúde” que bastava como desejo e cumprimento. “Saúde e a graça de Deus.” Tudo o mais tinha o sabor inesperado das coisas supérfluas.

E as crianças, brilhando ao Sol (ah! Se Renoir as pintara!...), vigiavam nas longas tardes grandes capachos de trigo, para que as outras o não mascassem como “gama”, para que as galinhas o não comessem. Ou vendiam, por esquinas e travessas, a troco de botões – as “marcas” – os “chupos”, flores da conteira (Hedichium gardnerianum), enquanto a vida vivia.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Santa Maria, Uma Declaração de Amor

São Lourenço, ilha de Santa Maria (fotografia de Ana Loura)

Considero-me um privilegiado quando me chamam mariense. Porque, como filho destas ilhas, tenho a sorte de ter pai e mãe. Foi meu pai São Miguel, minha mãe, Santa Maria. E, se pode ter-se dupla nacionalidade, por certo que poderá ter-se dupla “insularidade”.

Sou mariense, sim, e julgo que de pleno direito. Cagarro e santaneiro. O que foi outro privilégio, ter vivido em Santana. Mais de oito anos, depois de quatro por São Pedro, na casa do Sr. Armando Monteiro, e seis meses na Ribeira do Engenho, numa casinha que era toda ao pé da porta e tinha o telhado à altura do caminho.

De São Miguel saí ainda de cabelos compridos, de que guardo uma vaga memória mas somente do dia em que mos cortaram, já em São Pedro. Antes disso, e da ilha onde fui gerado e onde nasci, só sei o que me contava minha mãe. Tempo esse em que uma criança de dois anos podia andar pelas ruas e ir até longe, no longe relativo do tamanho do corpo, sem deixar preocupado quem quer que fosse. Palmo e meio de pernas bastava para fugir facilmente das rodas de uma carroça ou de um carro de bois.

Muito cedo comecei a ser aluno da vida, em Santa Maria. Que belas lições recebi! Recordo a sabedoria de um povo a quem vi cavar um poço antes do tempo da sede. Aprendi a sua bondade em coisas tão simples como aquelas grandes pedras, postas ao alto à semelhança de pequenos menires, onde o gado ia roçar-se placidamente. A minha definição como pessoa começou a fazer-se com estes e com outros ensinamentos casuais ou espontâneos, sem pedagogia diplomada.

Pode parecer um contra-senso considerar um privilégio ter vivido em Santana, porque aquela era uma das aldeias mais rurais de Portugal. Nem havia sequer uma canada razoável que lhe fosse caminho. A que existia servia, em parte, como leito de uma ribeira, onde aflorava a rocha irregular posta a descoberto pela erosão. Durante séculos, foi a única via que levava a Vila do Porto. Maior isolamento do que aquele é difícil de imaginar. Ainda assim, em Santana nasceram e viveram pessoas de grande valor humano e social. Prodígios da superação.

De súbito, tudo mudou em 1945. Em Santana propriamente não, porque ela ficou imutável na sua rústica ancestralidade. Mas, mesmo ali ao lado, fora feito um aeroporto para ser um dos melhores e mais concorridos do Mundo. A Vila deixou de ser a principal referência, porque até na religião os de Santana se tornaram como que paroquianos da capela de Nossa Senhora do Ar, que antes fora lugar de culto de protestantes, católicos e judeus. Ia-se e vinha-se usando atalhos desenhados por milhões de passadas, cortados aqui e ali por muros que era preciso saltar. A aldeia isolada ficara a poucos minutos de um mundo novo e impensável. Mas aquela gente recebeu-o quase com a mesma naturalidade com que via nascer o Sol todos os dias, o Sol que gretava o solo árido no Verão, depois de secos os lameiros do Inverno. Aquela gente, que resistira à angústia da fome, numa penúria humilhante e indigna da condição humana. Como um pouco por toda a ilha, aliás. Mas que manteve uma dignidade bíblica, porque a dignidade é um estado de espírito mais do que uma afirmação social.

A nossa casa nunca fora chamada casa antes de lá morarmos. E, nesse tempo, era um absurdo pensar que quem tivesse menos de dezasseis anos não podia trabalhar. Não o proibia a lei, e a isso obrigava a necessidade de as mães não terem falta do que pôr na mesa à hora de comer. Apesar disso, não lamento nada da minha infância.

Fui pastor de cabras, de ovelhas e de vacas. Cavalguei em pêlo e sem esporas nem freio, como os índios. Nunca ninguém me ensinou a ter medo do dia nem da noite. Fui cowboy ou índio na mata de Monserrate e nas do Aeroporto. Mas não estraguei nenhuma árvore, nem os meus companheiros de aventuras. Contei histórias ao meu amigo Elias, e contava-me ele outra por cada uma das minhas. Matávamos o menor número possível de personagens, quer fossem índios ou bandidos. Apenas o essencial para haver vencedores e vencidos.

Entretanto, ia aprendendo em livros ou num quadro preto. Primeiro na escola de Santana. Com a D. Eduarda na 1ª classe, a D. Doroteia, na 2.ª, a D. Úrsula, na 3.ª, a D. Francisca, na 4.ª. Continuam a ser das minhas heroínas preferidas. Fizeram o milagre de me ensinar a ler, de explicar que povo somos e a que terra pertencemos. Depois veio o Externato. Juntei à minha lista de heróis e de heroínas mais uns quantos predestinados para o bem e a sabedoria. Passei a pertencer também à geração do Cavaleiro Andante, sem dúvida a mais prodigiosa publicação juvenil que houve em Portugal. Não tínhamos dinheiro para livros nem revistas, por isso era o José Guilherme Correia que mo emprestava sempre. E alguns livros também, como o José Vieira Souto Martins, um amigo de que nada sei há meio século. Foi assim que pude ler Emílio Salgari, Mark Twain ou Enid Blyton.

E havia o Clube Asas do Atlântico. O Asas! Nunca ninguém me pôs na rua nem mostrou desagrado pela minha presença. Nem imaginavam o bem que me estavam fazendo. Ali ouvíamos os relatos do futebol e do hóquei das nossas alegrias patrióticas. E era onde eu tinha à disposição os principais jornais que se publicavam em Portugal. Um dos mais bem escritos era A Bola, e por isso, ao mesmo tempo que a rivalidade entre o Sporting e o Benfica era um dos principais factores de unidade dos Portugueses, o desporto, contado naquele jornal que mudou tanto que se pode considerar extinto, era também uma lição de cultura.

Não longe, o campo dos jogos épicos do futebol romântico de dois defesas, três médios e cinco avançados. Com o mítico Badjana a dar os últimos pontapés na bola, jogando pela equipa da Direcção do Serviço de Obras, onde meu pai trabalhava. Depois veio outro clube, o de Gonçalo Velho, para o qual minha mãe e minha irmã bordaram os primeiros emblemas.

No entanto, a alegria suprema tinha lugar reservado no Atlântida Cine. O seu porteiro deixava muitas vezes as crianças entrarem sem pagar bilhete. Por isso o Sr. Cardoso faz parte da minha lista de heróis particulares. E o grito “ó Cardoso, apaga a luz” ainda ecoa nas minhas recordações como o anúncio de todas as claridades. Outro benfeitor de homens a haver.

Na capela de Nossa Senhora do Ar aprendi o lado mais humano da vida. Aquele que pensa acima de tudo no que nos distingue dos irracionais. E, se é certo que sem uma fé sobrenatural se pode ser boa pessoa, o cristianismo à maneira do Padre Artur é o testemunho do bem na Terra.

Mas qualquer pedaço de mundo vale pelo que vale a sua gente. A do meu tempo era feita destas e de outras figuras que marcaram o modo de ser de um tempo e de uma geração em que havia na ilha mais forasteiros do que naturais dela. Sorte nossa que a maior parte dos que em Santa Maria buscaram um pouco mais de fortuna ou um pouco menos de infortúnio eram pessoas de deixar saudades. Por isso o reencontro com velhos pioneiros dos tempos modernos da Ilha de Gonçalo Velho é sempre um momento de festa que dificilmente tem semelhança quando as amizades foram feitas por outras bandas.

O próprio aeroporto, começado a construir durante a guerra, acabou por ser um lugar de passagem para a paz. Se, em 1918, Franklin Delano Roosevelt escolheu Ponta Delgada para apoio ao transporte de tropas a caminho da Europa, por aquelas pistas passaram sobretudo soldados de regresso a casa. O nome de código da operação, “Green Project”, era ele mesmo uma declaração de esperança numa nova era.

Foi neste ambiente, um dos espaços nacionais onde mais se concentravam pessoas com ensino superior ou com uma cultura acima da média, que começou a germinar a minha vontade de fazer das palavras escritas um uso para além da obrigação de alguma carta familiar. Sem Santa Maria, sobretudo sem o seu Externato, eu teria ficado pela 4.ª classe, tal como todos os rapazes que nasceram na Maia, em São Miguel, no mesmo ano que eu. Por um desses acasos que são difíceis de explicar, cresci logo nos primeiros anos de vida com uma curiosidade sem limites. Um dia, ainda antes de completar seis anos, perguntei a meu pai como é que se faziam versos. Ele era um improvisador de quadras e de histórias como poucos conheci na vida. Chegou a fazer o negócio de uma burra cantando ao desafio. E, nos intervalos do almoço, contava casos a homens da sua idade, mas tão interessados como crianças. Vi muitos filmes pelos seus olhos, ou ouvi-os da sua boca. Ele levou a sério a minha pergunta sobre poesia, e respondeu como se deve sempre responder a uma criança: dizendo a verdade das coisas como se se falasse ao adulto que a criança será um dia. Logo a seguir exercitei o meu novo conhecimento cantando para uma vizinha da minha idade, de que só guardo a memória de uns longos caracóis loiros. Sei que começava assim, esse que foi em rigor o meu primeiro poema: “Sou Daniel/ da ilha de São Miguel”.

Era, sim, com a sorte de ser da Ilha-Mãe também. E nela vivia então um poeta que fez parte do meu imaginário, e de quem eu muito quis ser imitador: Lopes de Araújo. Não tive a sorte de ser seu aluno, mas a ânsia de alcançar um estatuto semelhante ao seu foi talvez o maior impulso que me levou a dedicar-me à escrita.

Mas Santa Maria veio a ser para mim cenário de drama também. Numa certa manhã, os responsáveis pela Direcção do Serviço de Obras estavam reunidos para despedir pessoal. O critério escolhido foi o de optar pelos trabalhadores com menos filhos. O nome do meu pai foi um dos primeiros a serem falados, porque éramos só minha irmã e eu. Minha irmã não estudara porque as propinas equivaliam a um terço do ordenado de meu pai. Que levou um ano a decidir se eu deveria frequentar ou não o Externato. Acabou por resolver-se pela positiva, e eu revi a gramática da 4.ª classe, feita um ano antes, estudando-a enquanto vigiava as vacas. Valeu-nos que nunca paguei propinas no colégio, como chamávamos ao Externato.

O Miguel Corte-Real, esse homem da linhagem dos primeiros povoadores e a quem Santa Maria muito deve, não concordou com a ideia, alegando que eu estudava, e que meu pai e minha mãe, costureira, se sacrificavam a trabalhar mais do que podiam para eu ter aquele privilégio. Estava a questão por decidir quando chegou um funcionário com uma notícia dramaticamente irónica. Meu pai acabara de deixar vago definitivamente o seu lugar na vida.

(Texto lido no colóquio Santa Maria nas rotas do Atlântico, promovido no dia 9 de Agosto pela Fundação Luso-Americana, sob a responsabilidade de Mário Mesquita)

sábado, 1 de agosto de 2009

A Ribeira do Calhau

Em primeiro plano, à esquerda, o início do atalho da Ribeira do Calhau (fotografia de Sérgio Lourenço)

A paz da tarde, o mar apaziguado a trepar as pedras com indolência e sem convicção. As algas num vaivém de cabeleiras verdes e castanhas. Mais adiante, a Ribeira do Calhau, corrente fresca, saborosa, com o sabor das entranhas do basalto, do musgo e das labaças, nascendo aos pés do rochedo, de curso breve como um voo de borboleta. Começa e acaba em trinta metros de vida. Ainda lá estão as pedras que foram lavadouro de muitas gerações, abandonadas, sem préstimo, fora do lugar algumas, recordação todas elas. Onde a que minha mãe preferia?...
Longo era o caminho para ali chegar. Mais longo ainda por ser difícil do que pelo longo tamanho dele. Um atalho apertado entre canas e ervas altas que, depois da chuva, se trocava frequentemente pela insegurança das pedras do Calhau. (Ter água em casa era um luxo. E, no Verão, para o necessário à família, formavam-se grupos à espera, de madrugada, em cada fonte que havia, de onde um fio delido enchia lentamente os potes de barro. Uma lentidão enervante, mas ninguém pensava que a vida, por vezes, quer ser vivida mais depressa. Ou talvez nós é que a estraguemos por não tomar, calmamente, o gosto ao tempo.)
A Ribeira do Calhau, quase sem tamanho, quase já mar quando nasce, vivia o suficiente para ser útil e acabava-se logo entre as pedras, sem uma grandeza aparente. Nunca uma cheia, nunca uma seca. A água a jorrar, paciente, numa monotonia embaladora, por um buraco que lhe media o caudal, como que um milagre no paredão da rocha. Ela soube de tudo, ela ouviu tudo sem indiscrições, as grandes dores e as grandes alegrias, as banalidades de conversas sem motivo. Ela soube de amores e desavenças, ela soube da vida e da morte.
Hoje, só o musgo e as labaças lhe falam de si, mais alguma cana que desça os rizomas na aventura de experimentar o prazer de mais água. Ou alguém que, andando às lapas ou à pesca, se curve, entre uma poalha de luz, a beber sem cobrança. Ou alguma alma, extraviada das convenções do viver, que ainda acredite que a solidão só dói quando há mais gente em redor.
Atalho da Ribeira do Calhau (fotografia de L. Filipe Braga)


quarta-feira, 22 de julho de 2009

As "Velhas"

(João Ângelo - o mais alto - numa festa do Espírito Santo. Foto cedida pela Ver Açor)
No dia dez de Junho deste ano da graça de 2009, João Ângelo Vieira, um agricultor de São Bartolomeu dos Regatos, foi condecorado com a Ordem de Mérito. Quase de certeza que não terá havido ninguém a não concordar com essa distinção.

João Ângelo é um talentoso cantador popular, herdeiro de uma longa tradição de míticas figuras terceirenses. Álamo Oliveira, poeta de outras letras, disse que a sua fascinante personalidade se caracteriza pela “simplicidade sedutora, que o superioriza sem que ele disso se aperceba”. João Ângelo tem-se distinguido sobretudo a cantar as “velhas”, um costume exclusivo da Terceira que se assemelha às cantigas trovadorescas de escárnio e mal-dizer. As “velhas” são normalmente um desafio entre dois cantadores, e devem o nome à referência frequente a uma velha, quase sempre dita avó do adversário no despique. Compostas por estrofes de dez versos, com dois tercetos e uma quadra, a sua principal característica são os segundos sentidos e as alusões brejeiras. Isto mesmo está explicado na primeira das duas “velhas” de João Ângelo, a seguir reproduzidas, e exemplificado na segunda.

Vamos cantar umas velhinhas
Um pouco atrevidinhas,
Mas não fiquem ofendidos.
Porque quando as velhas vêm
Quase sempre elas têm,
Meus senhores, dois sentidos.
Saudar-vos é o meu desejo,
Sem que haja excepção,
A toda a gente que vejo
Nas festas de São João.

Às velhas deste lugar
Eu as quero saudar
E dar o meu cumprimento.
Há solteiras e casadas
E as que estão lembradas
Do dia do casamento.
E alguma sem marido
Nunca faça má acção.
Eu também tenho vivido
Das esmolas que me dão.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Praia, a da Vitória

Praia da Vitória (fotografia gentilmente cedida pela editora Ver Açor)

Três vezes o mar desceu. Três vezes o mar subiu. Deixou primeiro à vista destroços de naufrágios, cargas perdidas, desperdícios deitados à água. E, arremessando-se pela terra acima, destruiu quinze casas, entupiu caminhos com os detritos que levava, deixou estéreis cerrados e quintais. Entre a Praia e Porto Martins matou seis pessoas, as únicas que se sabe terem morrido nos Açores por causa dessa pavorosa inquietação do mar. Uns vinte minutos antes, ele galgara a rocha nos Fenais da Luz e subira as ruas ribeirinhas de Ponta Delgada. Outros vinte depois, inundaria a Horta. De passagem por Angra quase fizera naufragar os navios ancorados, e chegara à Praça dos Cosmes, que ainda não tinha idade para ser Velha. Umas seis ou sete horas mais tarde a sua fúria inaudita extinguir-se-ia no Golfo do México e nos fiordes da Noruega.

Dizem as crónicas que à mesma hora Lisboa ruía até aos alicerces, por causa do maior terramoto de que havia memória, e que destruiu vidas e cidades no Algarve, no Norte de África, na Andaluzia, onde a enorme onda ou maré, a que mais tarde se chamaria tsunami, completou a obra devastadora. Nesse dia um de Novembro de 1755, também o fogo, ardendo a partir dos limites aonde o Tejo não chegara, se dispôs a queimar pessoas e bens durante cinco dias de horribilíssimo inferno. Se a hora foi a mesma, tê-lo-á sido tendo em conta a que o Sol marcava. Porque cada terra só sabia do tempo exacto pela viagem da sombra de Oeste para Leste. No Reino, do Minho ao Algarve, a hora de Lisboa era a referência a respeitar. Por cá, cada ilha e cada lugar não teriam outra que não fosse a sua própria.

Mas esta Praia não é apenas a da Vitória guerreira, nome que receberia mais tarde por ali os absolutistas terem sofrido uma derrota vergonhosa. É também a vencedora deste e de outros desastres, o mais tristemente notável dos quais foi o terramoto de 1841, que a destruiu na sua maior parte, e que por isso ficou conhecido como a “caída da Praia”. Dois anos depois, estava “reedificada, com mais elegância que dantes tinha”. Disse-o a própria Câmara, em carta para a Rainha, D. Maria II. Nessa carta, de 16 de Agosto de 1843, era pedido à soberana que concedesse o título de “Barão da muito notável Vila da Praia da Vitória” ao governador civil, ou administrador-geral, José Silvestre Ribeiro, natural de Idanha-a-Nova, onde talvez já nesse tempo as touradas de rua fossem também a principal festa popular. Foi ele que teve a vontade e o talento de em tão pouco tempo fazer levantar do chão a vila e os povoados do concelho que como ela haviam caído. José Silvestre, que na Praia da Vitória tem um belo e merecido monumento com estátua desde o século XIX, foi um político brilhante. Ele mesmo, como soldado do Batalhão de Voluntários Académicos, tomara parte na batalha que valeu à vila os títulos que a disseram muito notável e vitoriosa. Deputado pela Terceira e por outras terras do Reino, além de muitos mais talentos teve também o de escritor.

Apesar de a Praia ser povoação muito antiga, pensa-se que o traçado das suas ruas é no essencial o primitivo. O que, pelo seu equilíbrio e funcional aspecto, prova que, como em Angra, aqui houve clarividente visão urbanística dos que a fundaram e nos primeiros tempos a desenvolveram. E este desenvolvimento foi tão rápido que já em 1498 tinha a sua Misericórdia, uma das primeiras que houve em Portugal.

A Praia da Vitória é bem o exemplo do que disse um dos seus filhos mais ilustres, Vitorino Nemésio: “A geografia, para nós, vale tanto como a história”. Muito do que ela sofreu e parte da sua glória devem-se às circunstâncias da sua geografia. E essa frase de Nemésio serviria muito melhor como divisa dos Açores do que aquela que consta no brasão de armas da Região Autónoma. Porque contém uma definição do que somos e do que podemos querer, muito mais do que a frase guerreira de Ciprião de Figueiredo, que nem sequer era natural destas ilhas e aqui esteve mais para defender os interesses do rei, primeiro, ou do pretendente a sê-lo, depois. E se lhe ficou bem, como fiel amigo de D. António, escrever a Filipe II que “Antes morrer livres que em paz sujeitos”, talvez tenha sido demasiada temeridade ou ligeira consciência sacrificar a leal gente da Terceira por uma causa perdida. Esta mesma ideia expressou J. G. Reis Leite quando escreveu, na Enciclopédia Açoriana: “Ficou no orgulho angrense esta primeira experiência de ser capital de Portugal, sede do portuguesismo e do nacionalismo exacerbado, esquecendo-se frequentemente do preço que pagou por esta ousadia.”

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Touradas à Corda na Terceira


Se alguém tivesse ajudado o João dos Ovos a ter sorte, assim como Manuel Benítez foi conhecido por “El Cordobés”, talvez ele tivesse ficado na história como “O Angrense”. Durante décadas foi a figura mais popular das touradas à corda. A sua fama terá tanto de mítica quanto de controversa, porque o seu equilíbrio mental parecia precário e a sua figura era de saltimbanco de feira sem consciência de o ser. No entanto, milhares e milhares têm passado pela arte da vida ou dos toiros sem deixar uma frase ou um gesto que sejam recordados. João dos Ovos era capaz de encenar uma “chicuelina” no canto de uma rua com tanto cuidado a desviar o corpo do toiro imaginário como se estivesse mesmo a evitar-lhe a armação. Ou de enfrentar a fera a sério com passes de guarda-sol, num bailado que valia a “faena” de um “diestro” na praça de São João. E chegou a comungar duas vez no mesmo dia, justificando que, nas coisas de Nosso Senhor, quanto mais melhor. Anos mais tarde, esse acto, que então era considerado um sacrilégio, viria a ser autorizado pela Igreja…

Apesar de temer mais o mar do que um toiro bravo, João dos Ovos acompanhou a São Miguel a primeira embaixada taurina que veio a esta ilha, em 1965, para várias touradas à corda e uma de praça. A sua simplicidade, o ser para os outros sem fingimentos aquilo que era no fundo de si mesmo, deixaram um rasto de simpatia e de ternura. Porque o João dos Ovos era uma espécie de criança grande, capaz de expor as pernas ao sol na Avenida Marginal de Ponta Delgada, explicando a todos os que passavam que o senhor doutor lho recomendara por causa das varizes; ou de fazer grandes reverências e uma elaborada oração em voz alta no altar da Virgem, na igreja de São Pedro, antes de deixar na caixa das esmolas os cinquenta escudos que quisera dar ao bondoso padre José Baptista Ferreira, que fora pároco da Conceição de Angra, e o acolheu em sua casa durante esses dias. Chamar “João dos Ovos” ao belo paquete “Angra do Heroísmo”, que a Insulana comprou a um armador israelita por oitenta mil contos em 1966, foi com mais frequência uma homenagem ao famoso capinha do que uma manifestação de desrespeito pelos terceirenses.

A essas touradas em terras de São Miguel, como em outras mais recentes, que atraíram muita gente, não faltou entusiasmo mas abundaram os actos inconscientes e temerários. Mas faltou-lhes o sabor que só a tradição consegue dar e a Terceira cumprir, faltaram os espontâneos que compreendessem os toiros. Por isso é célebre na minha Maia a história de um militar que foi artilheiro em Angra durante a Segunda Guerra Mundial. Estando ele de namoro à janela, numa rua onde havia tourada, a moça disse-lhe que entrasse para evitar algum desgosto com o toiro. Ora, se é verdade, como diz Camões, que, nos perigos grandes, o temor é muitas vezes maior que o próprio perigo, também há momentos em que o medo é bem menor do que requerem as circunstâncias. Foi este o caso. O heróico soldado permaneceu firme no seu posto. Mas o toiro não estava para romantismos, e fez o que lhe cumpria. Arremetendo contra o destemido marialva, mandou-o pelo ar, atirando-o para o quintal. A viagem demorou o suficiente para que o rapaz gritasse enquanto voava: “Adeus, São Miguel, que nunca mais te vejo!”

Cada uma das cerca de duzentas e cinquenta touradas à corda que por ano há na Terceira é um espectáculo em que o toiro se diverte pelo menos tanto como as pessoas. Que muitas vezes passam o tempo tentando conquistar alguma moça namoradeira ou à volta de uma mesa farta, com bons petiscos e cerveja fresca, que destronou o tradicional vinho de cheiro. Por isso muitos voltam para casa sem terem visto a cor ao menos de um dos quatro toiros. E, se calha alguém de fora da ilha ser instado a entrar no convívio, o que com frequência acontece, também correrá o risco de, como qualquer terceirense em iguais circunstâncias, só ver “o quinto toiro”, como eles por graça dizem. O que, como se percebe, é o mesmo que dizer toiro nenhum. Mas uma tourada à corda é sempre uma festa de movimento, cor, convívio, alegria. O suficiente para valer a pena o risco de algum osso maltratado. Sobretudo se for em corpo alheio…

(Do livro em preparação Terceira, Terra de Bravos, a publicar pela Ver Açor)