
Se alguém tivesse ajudado o João dos Ovos a ter sorte, assim como Manuel Benítez foi conhecido por “El Cordobés”, talvez ele tivesse ficado na história como “O Angrense”. Durante décadas foi a figura mais popular das touradas à corda. A sua fama terá tanto de mítica quanto de controversa, porque o seu equilíbrio mental parecia precário e a sua figura era de saltimbanco de feira sem consciência de o ser. No entanto, milhares e milhares têm passado pela arte da vida ou dos toiros sem deixar uma frase ou um gesto que sejam recordados. João dos Ovos era capaz de encenar uma “chicuelina” no canto de uma rua com tanto cuidado a desviar o corpo do toiro imaginário como se estivesse mesmo a evitar-lhe a armação. Ou de enfrentar a fera a sério com passes de guarda-sol, num bailado que valia a “faena” de um “diestro” na praça de São João. E chegou a comungar duas vez no mesmo dia, justificando que, nas coisas de Nosso Senhor, quanto mais melhor. Anos mais tarde, esse acto, que então era considerado um sacrilégio, viria a ser autorizado pela Igreja…
Apesar de temer mais o mar do que um toiro bravo, João dos Ovos acompanhou a São Miguel a primeira embaixada taurina que veio a esta ilha, em 1965, para várias touradas à corda e uma de praça. A sua simplicidade, o ser para os outros sem fingimentos aquilo que era no fundo de si mesmo, deixaram um rasto de simpatia e de ternura. Porque o João dos Ovos era uma espécie de criança grande, capaz de expor as pernas ao sol na Avenida Marginal de Ponta Delgada, explicando a todos os que passavam que o senhor doutor lho recomendara por causa das varizes; ou de fazer grandes reverências e uma elaborada oração em voz alta no altar da Virgem, na igreja de São Pedro, antes de deixar na caixa das esmolas os cinquenta escudos que quisera dar ao bondoso padre José Baptista Ferreira, que fora pároco da Conceição de Angra, e o acolheu em sua casa durante esses dias. Chamar “João dos Ovos” ao belo paquete “Angra do Heroísmo”, que a Insulana comprou a um armador israelita por oitenta mil contos em 1966, foi com mais frequência uma homenagem ao famoso capinha do que uma manifestação de desrespeito pelos terceirenses.
A essas touradas em terras de São Miguel, como em outras mais recentes, que atraíram muita gente, não faltou entusiasmo mas abundaram os actos inconscientes e temerários. Mas faltou-lhes o sabor que só a tradição consegue dar e a Terceira cumprir, faltaram os espontâneos que compreendessem os toiros. Por isso é célebre na minha Maia a história de um militar que foi artilheiro em Angra durante a Segunda Guerra Mundial. Estando ele de namoro à janela, numa rua onde havia tourada, a moça disse-lhe que entrasse para evitar algum desgosto com o toiro. Ora, se é verdade, como diz Camões, que, nos perigos grandes, o temor é muitas vezes maior que o próprio perigo, também há momentos em que o medo é bem menor do que requerem as circunstâncias. Foi este o caso. O heróico soldado permaneceu firme no seu posto. Mas o toiro não estava para romantismos, e fez o que lhe cumpria. Arremetendo contra o destemido marialva, mandou-o pelo ar, atirando-o para o quintal. A viagem demorou o suficiente para que o rapaz gritasse enquanto voava: “Adeus, São Miguel, que nunca mais te vejo!”
Cada uma das cerca de duzentas e cinquenta touradas à corda que por ano há na Terceira é um espectáculo em que o toiro se diverte pelo menos tanto como as pessoas. Que muitas vezes passam o tempo tentando conquistar alguma moça namoradeira ou à volta de uma mesa farta, com bons petiscos e cerveja fresca, que destronou o tradicional vinho de cheiro. Por isso muitos voltam para casa sem terem visto a cor ao menos de um dos quatro toiros. E, se calha alguém de fora da ilha ser instado a entrar no convívio, o que com frequência acontece, também correrá o risco de, como qualquer terceirense em iguais circunstâncias, só ver “o quinto toiro”, como eles por graça dizem. O que, como se percebe, é o mesmo que dizer toiro nenhum. Mas uma tourada à corda é sempre uma festa de movimento, cor, convívio, alegria. O suficiente para valer a pena o risco de algum osso maltratado. Sobretudo se for em corpo alheio…
(Do livro em preparação Terceira, Terra de Bravos, a publicar pela Ver Açor)